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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Taizé


A nove kilómetros de Cluny na Borgonha, alcandorada numa colina, vislumbra-se uma aldeia de nome Taizé. Aqui cultiva-se a simplicidade, a partilha, o despojamento dos bens materiais.
Em 1940, em plena guerra, um jovem natural da Suíça, instala-se nesta aldeia, protegendo e escondendo refugiados. Gradualmente sente em si a força de fundar uma Comunidade Ecuménica tendo consciência das limitações e dos fracassos. Esse jovem chamava-se Roger.
Actualmente, Taizé, é uma comunidade mundialmente conhecida. Milhares de jovens ao longo do ano, afluem a este local na ânsia de encontrarem um sentido autêntico para as suas vidas. A comunidade de irmãos fomenta encontros em todas as partes do mundo e está espalhada nos países menos desenvolvidos amparando os mais pobres.
Tive a possibilidade de viver a experiência de Taizé durante oito dias. Se no ínicio se estranha, depressa se entrenha. Nos últimos segundos, antes de deixar a aldeia, olhei para os sinos que convidavam ao silêncio, olhei para a vastidão dos campos ondulantes de pequenas flores e prometi voltar. Voltar para descobrir o tesouro que se esconde em Taizé. Nos meus ouvidos ressoa a musicalidade dos cânticos como um íman que me prendia horas na igreja da reconciliação, há em mim um apelo à simplicidade, ao silêncio, ao desprendimento daquilo que não é necessário.
Isa.

domingo, 17 de janeiro de 2010

ABSURDO


LUZ de ESPERANÇA e CORAGEM para o POVO do HAITI
O homem é dominado por um desejo de clarificação do mundo e da vida. Segundo Albert Camus, a vontade profundamente humana de tornar o mundo inteligível, de obter resposta a esse apelo, é constantemente defraudada pela realidade. Entre a nossa consciência e o mundo - que é cenário da nossa existência - existe um fosso intransponível. A realidade é "surda" às nossas perguntas. O sentimento do absurdo nasce deste confronto doloroso, deste face-a-face inconsequente entre o homem e o mundo. O silêncio cósmico é sentido como irracional.
Desejamos transparência e a realidade, o mundo no seu todo, é opaco (os outros homens parecem-nos estranhos e nós próprios somos enigmáticos e impenetráveis); queremos promover valores absolutos -liberdade, justiça - e, no palco do mundo, verificamos o malogro dessas aspirações. O mundo em que vivemos é um universo privado de claridade, de bondade, de sentido. A tragédia da existência, o sentimento de estarmos exilados neste mundo, é ilustrada de forma tremendamente dolorosa pelo sofrimento dos inocentes, sobretudo das crianças. Esse sofrimento inadmissível e incompreensível é a imagem mais atroz do mal.

Luís Rodrigues, Filosofia 11ºAno, Plátano Editora - p. 304

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O QUE É O TEMPO?


Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo.
Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem, já não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação que, se nada sobrevivesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não exisitia o tempo presente.
De que modo existem aqueles dois tempos - o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existe, porque tende a não ser?

(O tempo é um ser de razão com fundamento na realidade. S. Agostinho estuda o problema do tempo apenas sob o aspecto psicológico: como é que nós o apreendemos. Não o estudo sob o aspecto ontológico: como é em si mesmo. Para este último caso teria de o considerar como indivisível)

Confissões, Santo Agostinho, Livraria Apostolado da Empresa, 9ª edição - Porto 1977. pp 303-4