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terça-feira, 29 de junho de 2010

A LOUCA DA CASA


A LOUCA DA CASA
De ROSA MONTERO *

O livro que eu gostava de ter escrito

* Rosa Montero, nascida em Madrid em 1951, jornalista há quase 40 anos, é também autora de romances e ensaios traduzidos em várias línguas. O seu nome é imediatamente associado ao diário espanhol El País, para o qual trabalha desde a sua fundação, em 1976.
Figura central da literatura espanhola contemporânea, narradora de ficção – como gosta de se considerar – pois que o que mais a apaixona é a ficção, tem vários livros editados em Portugal, dos quais destacamos, para além de A Louca da Casa (Edições Asa, 2004); Histórias de Mulheres (Edições Asa, 1995); Paixões: Amores e Desamores que Mudaram a História (Editorial Presença, 2000) e História do Rei Transparente (Círculo de Leitores, 2005).
A Louca da Casa (2003) recebeu o Prémio Grinzane Cavour de literatura estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol, distinção igualmente atribuída, em 2006, a História do Rei Transparente.

«A imaginação é a louca da casa.»
Santa Teresa de Jesus

«A imaginação é a forma como completamos a realidade e assim conseguimos sobreviver, porque se não a existência seria um caos insuportável. Digamos que a vida imaginária é tão autêntica como a real, onde existe também uma grande dose de ficção.»
Rosa Montero (em entrevista à Revista Visão, 2004)

Não sendo esta a circunstância para debater se há uma escrita feminina ou, no dizer de alguns, uma literatura “de mulheres”, apresento-vos, em vez disso, um livro delicioso e intimista escrito por uma mulher, com um título no feminino, em que a ambiguidade de olhares narrativos é, mais do que uma marca de género, um valor literário.
* * * * * * * * * * *
Feio pecado este da inveja! Que, peço, me seja perdoado pela confissão que vai no título e repito: “Queria muito ter sido eu a escrever este livro!”, penso, cada vez que o releio. E faço-o muitas vezes, pois volto frequentemente a páginas avulsas deste inclassificável e desarmante A Louca da Casa em que, qual ovo de Colombo ou intuição inspirada, Rosa Montero nos dá o fascínio e a magia da escrita, fingindo que escreve sobre si e os outros… escritores, enquanto conversa connosco, leitores.
Apreciadora incondicional de livros de difícil catalogação, gosto de tudo neste: da indefinição do texto em termos de género - um híbrido que, saltitando entre o romance, o ensaio, a (auto) biografia, joga com o real e o fictício - ao título “roubado” a uma frase de Santa Teresa de Ávila; do estilo leve e descomplexado da autora à análise, por vezes mordaz, dessa coisa mágica, misteriosa, da imaginação literária e da sua ténue e nevoenta fronteira com os múltiplos desdobramentos possíveis da realidade. Mas há mais: entusiasta de biografias, em A Louca da Casa disponho, na fluidez da escrita jornalística de Rosa Montero documentada no seu conhecimento lúcido da classe por dentro, de centenas de referências a circunstâncias e cenas das vidas conturbadas de numerosíssimos autores de obras, para mim, mais ou menos conhecidas.
Em suma, A Louca da Casa não é um ensaio sobre literatura, mas antes uma espécie de mini tratado divertido e inteligente sobre a dimensão salvadora do trabalho de criação literária. Dito de outro modo: sob a aparência de uma brincadeira muito séria e original, surge-nos a absoluta apologia do poder da imaginação; um olhar próprio sobre o mundo ou, nas palavras da autora, «… um livro que joga com a imaginação não só do artista ou do escritor, mas de todos os seres humanos. (…) o ser humano é, sobretudo, um contador de histórias. Mesmo as pessoas que dizem que não são imaginativas não se apercebem até que ponto dependem da imaginação para sobreviver».
E este jogo é levado tão longe pela autora que deixamos absolutamente de saber se a existência de alguns elementos autobiográficos semeados no texto são ou não verdadeiros. Rosa Montero diverte-se/nos contando histórias da sua vida, que, não raro, se contrariam, o que permite supor que, por acção da “louca da casa", tais factos só terão existido, afinal, na/pela imaginação da Rosa Montero, ficcionista.
Dois exemplos: as histórias de infância e juventude envolvendo a irmã, «…Martina, que é e não é», fantasiadas ou não, deixam de traduzir e completar realidades só porque Rosa Montero não tem, de facto, irmãs? E o que interessa saber se a narradora teve ou não um caso com um actor de Hollywood, se ela nos conta, em três divertidas versões, uma eventual aventura amorosa com tal “estrela”?
. Importa bem mais a forma como metaforicamente a autora nos desvela o processo criativo, com momentos muitas vezes iluminados e inspiradores. E nos mostra como, através da leitura de romances, cada um de nós poder viver muitas outras vidas e, desta maneira, aprender a viver melhor a sua.
Quanto a escrevê-los defende, depois de nos contar, em mais uma das suas histórias-metáfora, como a principal personagem, uma velhinha freira de clausura, pôde finalmente, da varanda defronte, ver o seu convento do lado de fora: «Escrever romances implica atrevermo-nos a contemplar este trajecto monumental que nos arranca de nós próprios e nos permite ver-nos no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de compreensão, depois de roçar por um instante a visão que completa e que fulmina, regressamos a coxear à nossa cela, à prisão da nossa estreita individualidade, e tentamos resignar-nos a morrer».
Definitivamente, recomendo a quem gosta de ler, se interessa pelo mágico ofício de escrever, ou simplesmente deseja conhecer os mecanismos da criação literária na sua relação com esse «bichinho álacre e sedento» da imaginação, que bole na nossa cabeça como na de Gedeão e de outros monumentais autores.
Um convite ao puro ao prazer de ler ou um (novo) elogio da loucura – a “mentira” pessoana, lembram-se? – porque, «na pequena noite da vida humana, a louca da casa acende velas».

Professora - Dulce Martinho

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A FILOSOFIA NO FEMININO




O que significa “a filosofia no feminino?” Habitualmente não falamos de filosofia no masculino ou no feminino mas falamos de Filosofia. Será que podemos defender que há uma forma específica feminina de pensar o mundo e os seus problemas?
Mary Warnock,(1924 -) pensadora inglesa considera que a diferença de sexo não é importante para fazer Filosofia. Tal como na Ciência, também na filosofia o sexo é irrelevante. Mary Warnock considera que há diversas maneiras de fazer filosofia, salientando que não há similitude de perspectivas na filosofia das mulheres.
Contudo, parece haver semelhanças no discurso filosófico das mulheres, quer a nível da forma, quer a nível dos conteúdos.
A nível da forma, as mulheres não produzem grandes tratados, nem grandes sistematizações. As mulheres exprimem melhor a sua forma de entender o mundo através do ensaio. A maneira como argumentam também é diferente em relação aos homens, problematizando os temas sem derrubarem sistematicamente as teses.
Na história da filosofia a mulher tem-se manifestado uma grande leitora de obras de filósofos e também uma grande interlocutora. A Princesa Elisabeth da Boémia ( 1596 -1662), é exemplo disso. Correspondeu-se com Descartes que a considerava tão dotada para as matemáticas como para a metafísica. Se houve uma viragem no pensamento de Descartes deve-se a ela pois questionou-o e levantou dúvidas sobre a concepção dualista de homem, levando o filósofo a rever a sua posição, enveredando assim, pelo caminho antropológico e ético que no início não estavam nos propósitos do pensador.
Com o exemplo de Elisabeth da Boémia verificamos que as mulheres interpretam o pensamento dos outros, descobrindo falhas, inconsistências e raciocínios pouco lógicos que os seus autores não tinham reparado.
Damaris Cudworth (1659-1708), conhecida por Lady Masham, filósofa da época moderna, foi correspondente de Lock e de Leibniz e levantou diversas objecções ao pensamento destes filósofos, contribuindo assim, para o esclarecimento da filosofia dos pensadores em causa.
É possível encontrar temáticas e conteúdos específicos nos textos filosóficos escritos por mulheres. Na época contemporânea, a ética e a política (não universalizando), parecem ser temas que agradam às mulheres filósofas. Nos séculos XVII e XVIII as temáticas incidiam sobre problemas éticos, religiosos e políticos. Outra dimensão da filosofia em que as mulheres se mostraram perspicazes foi na interpelação crítica de teses filosóficas que estavam na “moda”. Algumas levantaram dúvidas à dicotomia antropológica e à importância dada à alma. É o caso de Anne Conway ( 1631-1679), que valoriza o papel do corpo no conhecimento. Margaret Cavendish (1661-1717) critica as teses cartesianas, no que respeita à teoria dos animais máquinas. Demonstrou quanto absurda é a tese dos animais desprovidos de sofrimento e defendeu uma inteligência animal, admitindo que os animais são seres com um grau de racionalidade. Seria assim pioneira da ética animal, temática oportuna e do agrado de alguns pensadores actuais.
Para finalizar podemos dizer que a produção filosófica feminina no nosso tempo conhece grande desenvolvimento. Hanna Arendt (1906-1975), Susane Langer (1895-1985), Maria Zambrano ((1904-1996) Iris Murdoch (1919-1999) por exemplo, são nomes ligados a temas inovadores que ninguém com o mínimo de informação pode desprezar.
Isa.

Fontes: A Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica -Debates

O que os Filósofos pensam sobre as mulheres, Colecção Philosophica -Debates, Organização Maria Luísa Ribeiro Ferreira

terça-feira, 22 de junho de 2010

O "DRAMA" DE SER MULHER




“Ensinam-se os homens a pedir desculpas pelas suas fraquezas e as mulheres a pedir desculpas pelas suas forças.”
Lois Wise, americana, publicitária

Mulher, mãe, dona de casa,
Sem tempo, presente e ausente,
Que sofre, companheira, apaixonada,
Mulher, matriz da vida, abandonada…
Anónimo

"A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior."
Aristóteles, séc. IV a.C.)

"O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia."
Lutero, século XVI)

"Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súbditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.”
Constituição Nacional inglesa (século XVIII)
"As mulheres nada mais são do que máquinas de fazer filhos."
Napoleão Bonaparte (imperador francês, século XIX)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

MARÉS


Marés

Marés de um mar, ausente…
As ondas dos bosques salpicam de
Espuma -algodão a paisagem
Verde-água
E o porto de outro mar navegante
Com cavernas de monstros marinhos.

Nascem luas nas montanhas
E os barcos sulcam os jardins de algas
As árvores são peixes e as flores
São corais…metáforas…
E são bússolas as gotas das
Ondas espumantes.
Pérolas salgadas no corpo do mar
De portos, templos das deusas
Sereias lindas, vibrantes
Tritões etéreos e enigmáticos.

Marés imaginadas de sonhos
Onde os búzios falam,
Antíteses de outro mar presente ….
Marés…ou… metáforas?

Anabela B.

terça-feira, 15 de junho de 2010

MULHER...


Mulher…
Mulher é aquela que ama sem olhar.
É a que escuta sem se pronunciar.
É a que ajuda sem medir.
É a que percebe sem querer entender.
É a que singra sem magoar.
É a que chora por chorar.
É a que ajuda para se alegrar.
É a que se multiplica para executar.
É a que sonha para concretizar.
É a que quer viver para se sentir a completar.

Mariana Masteling - 12ºB

segunda-feira, 14 de junho de 2010

MULHERES FILÓSOFAS ii


Mulheres Filósofas (Hanna Arendt)
Quando olhamos para a história da filosofia à primeira vista temos a impressão que não houve mulheres filósofas. Se considerarmos o papel da mulher na cultura ocidental talvez se encontre uma resposta óbvia para tal. Não há mulheres filósofas tal como, não há mulheres cientistas, escritoras ou pintoras. Todos sabemos que durante muito tempo foi interdito à mulher certas aprendizagens, sendo-lhe vedado até, o acesso ao ensino universitário.
As tarefas domésticas sempre se impuseram como obrigação das mulheres, não lhes deixando tempo para o estudo e para o livre pensamento.
Contudo, é possível verificar a presença da mulher na filosofia ocidental. Se nos debruçarmos na época moderna constatamos que inúmeras mulheres escreveram e publicaram temas filosóficos. Algumas preferiram não publicar o que escreviam como Elisabeth da Boémia e Catherine Cokburn. Anne Conway, por exemplo, filósofa do século XVII, apenas foi redescoberta no nosso tempo, em 1982.
Actualmente a produção filosófica feminina conhece um grande desenvolvimento. Hanna Arendt, Susane Langer, Maria Zambrano, Mary Warnock, entre outras, apresentaram teses inovadoras que ninguém pode desprezar.
Hanna Arendt e Susane Langer são exemplos significativos de uma filosofia no feminino.
Hanna Arendt (1906-1975), judia e perseguida pelo nazismo, aprofundou estudos de filosofia e teologia, construindo teses a partir das suas vivências concretas. A vida de Hanna Arendt foi marcada por duas grandes guerras, pelo desprezo da vida e pela destruição, a uma escala nunca antes vista, de seres humanos e pela banalização do mal.
Fundamentou, neste sentido, um pensamento teórico em situações que observou e viveu. Acompanhou o julgamento de Eichmann, criminoso da segunda guerra mundial, que foi julgado pelos israelitas, verificando que este homem é mais um burocrata do que propriamente um perverso. Parte desta constatação para a construção de uma teoria ética sobre o poder, desenvolvendo um estudo sobre a vulgarização, banalização do mal.
Preocupou-se em articular a vida activa e a vida contemplativa, com a ligação entre a capacidade de pensar bem e a de agir correctamente. Reflecte sobre o que é pensar e conclui que é precisamente uma falha no exercício do pensar que pode conduzir a atitudes semelhantes às de Eichmann.
Na perspectiva desta pensadora, o anti-semitismo ultrapassa a questão judaica, é um fenómeno que permite responder a questões como o totalitarismo e o imperialismo. Uma das suas obras: “The Origins of Totalitarianism”, é uma análise profunda sobre o nazismo e o comunismo soviético, sobre o poder e sobre a violência, desenvolvendo hipóteses sobre estes princípios. Hanna Arendt reflecte sobre a vida política que faz do terror a sua essência. As ideologias dos sistemas totalitários, na sua perspectiva, destroem a capacidade humana de pensar e de sentir.
Hanna Arendt é um sinal bem evidente que nos leva a crer que as mulheres têm capacidade de reflectir, problematizar, argumentar e elaborar teorias, sendo possível falar de uma filosofia no feminino.
Isa.

Fontes: Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica - Debates, edição Antena 2
O que os Filósofos pensam sobre as mulheres, Colecção Philosophica - Debates, CFUL-Organização Maria Luísa Ribeiro

domingo, 13 de junho de 2010

SER POETA


Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

Este é, na minha opinião, dos poemas mais belos desta grande escritora. Nele reflecte sobre si própria e a sua profissão, fala da influência de um poeta, do dom que ele tem de ver e transformar o mundo num olhar e algumas palavras…
Exprime também o amor e o orgulho que tinha pela sua arte, que fazia questão de “gritar aos quatro ventos”.
Tal como é referido no poema, um poeta é um sonhador ambicioso, que não se contenta com o nada, o pouco ou mesmo o quase tudo. Só o infinito chega até que se conhecem novas coisas.
Tal como Fernando Pessoa, tema do primeiro número da revista Katársis deste ano lectivo, também esta grande senhora das letras fez uma reflexão sobre ela própria com tudo o que isso engloba.
Florbela foi uma grande escritora, que nos deixou obras de grande valor e, graças a isso, permanece e permanecerá na nossa memória de forma indelével.

Raquel Rei, 12ºB

sábado, 12 de junho de 2010

SOPHIA


Sophia de Mello Breyner Andresen: depuração e limpidez
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) nasceu no Porto, no dia 6 de Novembro de 1919. O seu pai, João Henrique Andresen, era neto de um dinamarquês, Jan Henrik. A sua mãe chamava-se Maria de Mello Breyner. Fez os estudos no Colégio Sagrado Coração de Maria, no Porto, e frequentou o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras de Lisboa. Com vinte e cinco anos publicou o seu primeiro livro, Poesia, que reune poemas escritos desde a sua adolescência. Casou com Francisco Sousa Tavares, advogado e jornalista, em 1946, passando a residir em Lisboa, onde desenvolveu a sua actividade entre a poesia e a participação cívica, muitas vezes em oposição ao regime de Salazar. Para além da poesia escreveu contos para crianças, inicialmente destinadas aos seus cinco filhos mas que rapidamente se transformaram em clássicos da literatura infantil portuguesa.

Sobre Sophia foi dito:
Foi sempre muito jovem,de carácter irrepreensível e segura de si, mas também distante, como se tivesse chegado de outro país e não tivera tempo de se adaptar àquele em que vivia. (…) tinha esse encanto de quem está sempre em estado de graça. A graça da poesia.
EUGÉNIO DE ANDRADE

Sophia, um nome que se transformou em sinónimo de poesia e de musa da própria poesia. Sophia rima com poesia.
EDUARDO LOURENÇO

Era uma mulher bonita, mais que bonita, elegante e graciosa, mas a sua beleza era um tipo de beleza fria, nórdica. Com virtudes de rainha.
AGUSTINA BESSA-LUÍS

A sua contenção de tom, a sua discreta fluidez, a simplicidade muito pura da expressão, qualidades suas das melhores, enganam quanto à energia, no entanto tão feminina, que os seus poemas contêm…
JORGE DE SENA

Obras de Sophia disponíveis na Biblioteca da Escola, algumas delas de leitura recomendada pelo Plano Nacional de Leitura:
- Poesia
- Dia do mar
- Coral
- No tempo dividido
- Mar novo
- Cristo Cigano
- Livro sexto
- A floresta,
- A noite de Natal
- O rapaz de bronze
- Primeiro livro de poesia
- Histórias da terra e do mar
- Fada Oriana
- O Cavaleiro da Dinamarca

Pesquisa: Maria João

sexta-feira, 11 de junho de 2010

SIMONE DE BEAUVOIR


Simone de Beauvoir
Simone Lucie-Ernestine-Marie-Bertrand de Beauvoir foi uma escritora e filósofa francesa que nasceu a 9 de Janeiro de 1908 e faleceu a 14 de Abril de 1986 em Paris.
Estudou na antiga Universidade de Paris - Sorbone onde, em 1929, concluiu Filosofia e conheceu Jean-Paul Sartre (Filósofo), de quem se tornou companheira.
Escreveu novelas, ensaios, biografias e monografias sobre temas políticos e sociais mas os temas principais recaíram sobre o existencialismo. Em 1945, Simone e Sartre fundaram e editaram Les Temps Modernes, uma revista mensal, da qual eles foram os principais colaboradores.
Simone de Beauvoir foi severamente criticada pelo seu tratado Le Deuxiéme Sexe (O Segundo Sexo 1949) no qual fala sobre o corpo da mulher e a sexualidade feminina quebrando importantes tabus da sua época.

Maria João

quinta-feira, 10 de junho de 2010

FINAL...


Editorial da Revista Katársis
Final…
Quando pensamos em “Fim” associamo-lo quase sempre a algo negativo ou triste. Mas, não poderá o “Fim” ser o início de algo novo?
Com esta edição chega-se ao fim um ciclo e de uma certa forma de vida. A partir de agora tudo será diferente…
Para alguns de nós já não haverá a Katársis para publicar, não haverá mais um professor apaixonado por cogumelos sempre a pedir-nos textos, não haverá mais uma relação professor – aluno tão próxima que se assemelha à relação de dois amigos.
Ficarão as saudades e as recordações.
As recordações de um primeiro embate não muito feliz com a filosofia, das aulas que nos levaram a melhorar continuamente as nossas capacidades de argumentação, o incentivo ao gosto pela escrita com os pedidos de textos para a revista e a conservação da relação de amizade, mesmo não havendo aulas em comum.
Apesar de a nossa caminhada nesta escola acabar dentro de pouco tempo, a amizade que criámos com professores, colegas e funcionários irá manter-se, tal como a colaboração com textos para a revista, se assim o autorizarem (E quiserem, claro!).
Por tudo isto, e por mais alguma coisa que agora podemos não nos lembrar, o nosso obrigada ao professor Jorge Marques.
Sendo nós duas meninas e depois de duas revistas sobre dois ilustres homens, aqui chega a nossa vez Mulheres. Uma revista ma sua maioria dedicada ao feminismo e à mulher na sua beleza, plenitude e amor.
Até sempre…
Raquel e Mariana 12ºB

quarta-feira, 9 de junho de 2010

MULHERES FILÓSOFAS



Hipácia de Alexandria
Nasceu em 355 d.C e morreu em 415 d.C.
Era filha de Theon, um importante filósofo, astrónomo e matemático, o que contribuiu para que crescesse num ambiente repleto de ideias e filosofia. Estudou na Academia de Alexandria, sendo na mesma que, mais tarde, viria a ser professora.
Hipácia foi reconhecida pelo seu fascínio pela lógica, matemática e astronomia. Não aceitava o cristianismo chegando a afirmar que a sua fé estava na filosofia e que o seu casamento era com a verdade o que gerou um descontentamento por parte do patriarca cristão Cirilo, que a passou a encarar como uma herege. Em 415 d.C, Hipácia foi reconhecida na rua e atacada por um grupo de cristãos enfurecidos que a arrastaram pelas ruas da cidade até uma igreja, onde o seu corpo foi dilacerado e lançado para uma fogueira.
Professora Maria João

REVISTA KATÁRSIS II


A revista katársis II é um projecto do grupo de Filosofia da Escola EB23/Secundária de Oliveira de Frades. Já vai no terceiro ano e consiste na divulgação de textos, poemas e coisas afins... dos alunos e professores. Na terceira e última revista deste ano destaca-se como tema fundamental: A Filosofia no Feminino. Muitas vezes os alunos questionam se não houve ou não há mulheres filósofas. Quisemos provar que é possível verificar a presença da mulher na filosofia ocidental. Hoje é inegável a produção filosófica feminina. Nos próximos dias irei divulgar textos e poemas de alunos e professores que participaram na concretização da Revista.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BORGES E OS LIVROS



Falar de Jorge Luís Borges é falar de livros, de bibliotecas, de labirintos, de ficções, de imaginação e enigmas. Os livros foram parte essencial da sua vida marcada pela cegueira, não tanto pelos que escreveu, mas sobretudo pelos que leu. O famoso “bibliotecário” argentino deixou uma extensa obra, da qual destacaria a parte ficcional e os poemas, que são autênticas obras de arte. O texto que se segue é-lhe dedicado.
O livro, a obra literária, é, muitas vezes, uma verdadeira obra de arte. Este possibilita inúmeras leituras diversas, entradas, saídas, sem contudo se deixar aprisionar. É através dele que o autor partilha o seu modo de experienciar o mundo e a sua vida, que comunica aos homens o seu pensamento e o seu sentir, usando uma série de características próprias, uma arte de combinações possíveis, de fórmulas, de enigmas, uma certa estratégia, pelas quais se apresenta ao jogo da imaginação fecundante e activa dos leitores. Como afirma Bronowski: “O artista cria a obra, mas o espectador recria-a.”
O livro encerra em si mesmo uma reflexão, imaginação e interrogação sobre as possibilidades oferecidas a um discurso consigo mesmo, evocando quase sempre uma “máscara”do real ou do imaginário, dentro de uma harmonia ou fio condutor estabelecido pelo autor. Por conseguinte, ele escolhe os seus leitores, uma vez que detém em si uma pregnância distinta, um dado modelo, uma ontologia própria e, acima de tudo, revela uma harmonia que se refere a traços marcantes do seu autor e do seu pensamento. Com efeito, a obra literária tem sempre algo de individual, particularidades intrínsecas ao autor, revelando ao mesmo tempo sempre algo enigmático e, contudo, “sobrevivendo” à interpretação que pretende obter uma resposta final. Ao resistir o enigma mostra a sua virtude, pois permite renovar sempre uma nova resposta e, neste sentido, o livro é paradoxalmente: revelação e enigma.
Diz Umberto Eco que “os livros falam sempre de outros livros e qualquer história conta uma história já contada”, dado que o autor procura constantemente reinventar algo sobre os livros já existentes (Pierre Ménard em Borges) pois a criação torna-se imprescindível quer ao seu desenvolvimento quer à sua felicidade; poder-se-ia dizer até que o livro afigura-se como uma das possibilidades de satisfação, realização ou equilíbrio concedida, e do mesmo modo que a pintura é a arte de proporcionar a alegria com forma e cor, também a escrita pode ser mirada por outra via, isto é, como forma de prazer e alegria onde a biblioteca é uma espécie de câmara mágica onde todos os sonhos são permitidos. A felicidade será o sentimento que o livro desperta no leitor e que no fundo poderíamos chamar, tal como Borges: o momento estético.
Os livros são essencialmente expressivos, parecem querer dizer-nos algo, como que procuram desdobrar-se para se tornarem sensíveis à nossa captação, ao nosso sentir. No entanto, para haver captação é fundamental a compreensão da linguagem do texto, pois sem ela tornam-se numa forma vazia e desinteressante e não a fonte de onde brota ou faz brotar prazer de um modo quase ilimitado, sublime, que nos vai proporcionando vários tipos de contentamento.
Os livros são, de facto, extremamente importantes, todavia, essa importância só tem sentido na medida em que existe o leitor, pois ele é indispensável, uma vez que a sua existência e consequentemente o seu valor só começa quando o leitor os abre e os lê. Além disso, seria absurdo pensar que o livro seja muito mais do que um simples livro. Este exige o leitor e é esta relação de cumplicidade que o vai tornar ilimitado, remetendo para uma infinita possibilidade quer de leituras, quer de novas ideias. A minha leitura de uma obra literária não é certamente igual à de qualquer outro leitor, uma vez que a cultura, as vivências e experiências de cada um modificam o nosso modo de ler o mundo. Por conseguinte, um livro é assumidamente um projecto inacabado que é essencialmente produção e nuca um produto.
O homem e os livros mantêm desde há muito uma relação de cumplicidade ou mesmo de necessidade. Porém, nesta era das novas tecnologias, talvez seja altura de questionar se ainda são companheiros inseparáveis e se para o homem actual é inimaginável viver sem livros! Para mim, o livro continua a ser uma espécie de respiração do espírito, da inteligência, da criatividade e mantém-se como representação da memória do nosso passado e condição de preservação da nossa cultura e desenvolvimento.
Diz-se que todo o homem tem como desejo íntimo escrever um livro ou realizar uma obra de arte e convenhamos que “não há arte sem homem, mas talvez não haja homem sem arte”, como afirmou René Huyghe. Isto poderá significar duas coisas: o seu desejo de imortalidade através da realização da sua obra e a procura da felicidade como desejo natural do ser humano.

“Ser feliz é reconhecer-se a si na obra feita.” – Hegel

Professor Jorge Marques

quinta-feira, 1 de abril de 2010

JORGE LUÍS BORGES ii


Dois clássicos da literatura policial e fantástica

Jorge Luís Borges está presente na Biblioteca da Escola através de dois títulos fundamentais da sua obra: Ficções e O Aleph. O primeiro, cuja primeira edição remonta a 1944, é composto por dois livros, inicialmente publicados em separado: O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam e Artifícios, cada um deles constituídos por pouco mais de meia dúzia de contos de temática policial ou fantástica. Alguns destes contos, pela sua originalidade e pela estranheza e inquietude que provocam no leitor, ganharam uma área quase mítica na comunidade imensa dos seus leitores e basta pronunciarmos o seu título para mergulharmos desde logo no seu universo. Por exemplo, Pierre Ménard, autor do Quixote fala-nos do trabalho literário realizado por um escritor francês (fictício), do início do século XX, justamente chamado Pierre Ménard, que resolveu reescrever o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, sem alterar nenhuma palavra, nenhuma vírgula do original. Os parágrafos são exactamente iguais mas, e este mas é importante, não se trata de uma cópia: Pierre Ménard escreve ao seu estilo (para o qual trabalhou imenso, produzindo muitos rascunhos), embora o resultado esteja exactamente o mesmo de Cervantes. Nisto reside a perplexidade da questão: cotejamos o texto de ambos e somos levados a crer que, sendo iguais, são completamente diferentes, porque são de autores diferentes, sem que um (Ménard) tenha copiado o outro (Cervantes). Outro conto emblemático e curioso, com que começa o livro, é Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. É uma nota sobre um livro imaginário. Começa com a história acerca de um artigo enciclopédico sobre um enigmático país chamado Uqbar que aparece numa edição de uma determinada enciclopédia e que depois não volta a aparecer em mais nenhum livro. Seguindo a pista dessa edição chega-se à indicação sobre Orbis Tertius, uma conspiração para criar o mundo imaginário que é Tlön. Tudo isto, sendo pura ficção, adquire contornos de uma realidade incrível e ao mesmo tempo plenamente plausível e interessante. Estes dois contos são apenas um exemplo do génio de Jorge Luís Borges. Percorrendo os restantes podemos desfrutar da mesma mestria na abordagem a temas como o infinito, os enigmas, o poder da imaginação, a realidade versus a ficção, o “eu” e o destino, as conspirações e sociedades secretas, a natureza do sonho, etc.
O Aleph é também um livro de histórias curtas, com primeira edição em 1949. Inclui o conto com o mesmo nome, um dos mais conhecidos do autor. É por muitos considerada a sua obra-prima.
J.A.
BORGES, Jorge Luís, 1899-1986
Ficções / Jorge Luis Borges ;
trad. José Colaço Barreiros. - Porto : Público,, imp. 2003. -
158 p. 21 cm. - (Mil folhas ; 39). - Tit. orig.: Ficciones
ISBN 84-96075-62-1
CDU 821.134.2(82)-382
BOR FIC (EB23/SOF) – 8712

quarta-feira, 31 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES



"Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso as minhas emoções directamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem na minha emoção".
Jorge Luís Borges

Olho para esta citação e penso que eu própria a podia ter escrito. É-me tão verdadeira. Também me sinto assim quando escrevo. Quando escrevo direcciono-me para alguém. Para alguém imaginário mas que me pertence. Esse misterioso alguém conhece-me, pelo que, não preciso de lhe explicar nada. Ele sabe o que sinto e porque o sinto. Sabe a razão de cada lágrima e de cada sorriso. Sabe o que sonho e o que me preocupa. Ele é o meu outro eu que não existe. Ele sabe o que digo quando me deixo levar e ”penso não imaginando”.
Cada personagem que acho ter criado é um pedaço de mim. Cada conjunto de palavras é o meu próprio eu.
A escrita dá-nos o poder de divagarmos sobre nós. E de o fazermos sem “dizer” que o fazemos.
Todos escrevemos de acordo com o que nos corre na alma. Ela é o rio que comanda as sensações. E como os rios vai sempre em direcção ao mar. E, por isso, as sensações que são as gotículas de água, também irão sempre na sua direcção. Mas, umas seguem pelo caudal principal. Outras, por vezes, distraem-se e entram em ribeiros, riachos e contrariam a corrente por momentos. E mesmo que sejam a “super gota”, acabam sempre por lá chegar. No mar estará o meu outro eu à sua espera. E quando me distraio, ele apanha-as e, surpreendentemente, mostra-me o que encontrou e exclama: ”Aqui está a gotícula desse teu sorriso. Ela foi mais forte que a gotícula da lágrima! Pensa nela e em mim! Pensa nos dois. E sorri. Porque eu, o teu outro eu, sabe que neste momento apenas queres sorrir!”.

Maria João Foz

terça-feira, 30 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS iii


«Como o outro, este jogo é infinito.»
Cito como inter-título um enigmático verso de Jorge Luís Borges, o último do seu poema “Xadrez”, de que gosto especialmente (mesmo sem saber de que «outro» jogo nos fala o poeta), para dar conta das minhas escolhas na quase infinitude do trabalho literário borgiano. Naturalmente, neste universo labiríntico de erudição imaginária, de ficção lúdica, sobressaem dois títulos significativos das intenções literárias do seu autor na década em que a cegueira progressiva lhe dava a vida em sombras: com Ficções/Ficciones (1944) e O Aleph/El Aleph (1949) Borges consolida-se agora como “grande narrador” em detrimento da voz lírica das suas obras de juventude.
O primeiro inclui duas colectâneas de contos “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” (1941) e “Artifícios” (1944). Não é fácil medir o grau exacto de estranheza produzida no leitor por estas “narrativas”, quase carentes de intriga e personagens. São situações envolventes, às vezes, perturbantes, saídas da pena de um filósofo-poeta de sensibilidade e inteligência superiores, cuja voz narrativa ela própria se bifurca para nos deixar em vaivém entre o ensaio e o conto. Imaginação e espírito crítico, fantasia e ciência, ficção e realidade parecem ser nestes contos uma só e única coisa.: fragmentos densos de uma reflexão aguda sobre o mundo e as obras do espírito. Ou não fosse em Ficções que “lemos” na mítica biblioteca de Babel, uma biblioteca infinita alinhando todos os livros “possíveis”, em resposta ao humano desejo de encontrar “o livro dos livros”, aquele que nas suas páginas teria a resposta a todos os mistérios da condição humana.
Em Ficções, destaque ainda para «O Sul», último conto da colectânea e o favorito de J. L. Borges, cuja inspiração autobiográfica o autor assume. Aí, na personagem de um leitor fervoroso, se retomam, no espelho da literatura, as vicissitudes que lhe marcaram o destino e a obra: um acidente estúpido, febre e alucinações, uma clínica, uma operação à cabeça e, claro, a nostalgia – tão ou mais íntima do que geográfica - de um bairro do sul de Buenos Aires.
Poucos anos volvidos, esta via apaixonada do conto fantástico será prosseguida e consolidada por Borges com O Aleph, nova recolha de novelas que lhe dará celebridade internacional e a que Jorge Luís Borges se referiu como «este livro […] susceptível de repetições, de versões e de perversões quase inesgotáveis». Histórias insólitas de personagens estranhas, semi-monstruosas, em estado de solidão, contadas num estilo próprio, quase a tocar o romance policial, nutrem-se, em última análise, de metafísica e de teologia. Os temas heteróclitos de sempre na literatura borgiana: o tempo, o eu, o outro, o sonho, o infinito, os labirintos que se erguem dentro de cada homem e os caminhos que se bifurcam. Recordo “O Imortal”, o primeiro conto de O Aleph que pode ler-se como uma biografia do pensamento e da existência humana tão dolorosa como exaltante. Já do último texto, o que dá título à obra, onde se sente o amor como motivo, disse Borges ser este «uma vaga paródia de Dante».
Excelente complemento da colectânea precedente, este novo volume de contos, literariamente mais maduro, segundo os especialistas, surge-me, de leitura ainda menos fácil, até porque, num exercício de subtil arquitectura narrativa, os contos parecem ser ecos sucessivos uns dos outros, como se Borges os tivesse (re)escrito em busca do conto perfeito, ou melhor, de um poema perfeito, já que, afinal, era como poeta que queria ser recordado.
Por último, O Fazedor/El Hacedor (1960). Livro caleidoscópico - miscelânea de narrativas breves, parábolas, poemas líricos, contos, ensaios, e meditações sugeridas - cujas páginas lembram notas apressadas, propícias ao ditado e/ou à memorização. Como sempre, textos curtos, concisos, de grande densidade e força inventiva, admiravelmente bem escritos e, assim, capazes de darem corpo aos sonhos e/ou de se ramificarem na imaginação de quem os lê. E não sendo o amor, decerto, um traço nuclear da prosa de Borges, aqui o encontramos em verso ou em prosa poética, nem que seja na arte alusiva da passageira recordação de uma paixão antiga.
E de novo a autobiografia. Na verdade, num traçado aparentemente aleatório, facilmente pressentimos os passos e a imagem do poeta no sentido grego da palavra -«aquele que faz» e mesmo aos costumeiros contos fantásticos não faltam laivos de realidade como se cada “peça” que compõe esta obra-plural tivesse nascido de uma verdadeira necessidade interior de o criador/”fazedor” se descobrir uno no seu labirinto. Ora, desta centralidade de O Fazedor no seu universo literário e vivencial nos dá conta o próprio Jorge Luís Borges, defendendo no epílogo da obra: «de quantos livros publiquei, creio que nenhum é tão pessoal como esta desordenada, indisciplinada colectânea, precisamente porque fértil em imagens e interpolações».
De facto, há vários textos e poemas em que o homem Borges se presentifica, como quando, com extraordinária tonalidade descritiva, nos fala da cegueira da personagem Heitor, no conto «O Fazedor», e, no «Poema dos Dons», se lhe refere poeticamente escrevendo: Ninguém rebaixe à lágrima ou à censura/ Esta declaração da maestria/De Deus, que com magnífica ironia / Me deu os livros e a noite escura.
Último destaque para o Borges admirador da literatura e história portuguesas. Em O Fazedor há um poema dedicado a Camões e à sua «Eneida Lusitana» e outro, «Os Borges», onde o escritor confessa, por interposta pessoa da voz poética que nele fala: «Bem pouco ou nada sei de meus maiores/ Portugueses, os Borges: vaga gente/Que prossegue em minha carne obscuramente, seus hábitos rigores e temores.»
Não sendo um dos livros mais conhecidos de Borges, O Fazedor é a minha sugestão de leitura para os - como eu - iniciantes no estilo tão surpreendente e irónico como subtil e erudito, mas nunca acidental, de Jorge Luís Borges.
Jorge Luís Borges: literatura; prosa e poesia; um “homem de Letras”; uma escrita única, com “carácter”, inusual - pela simplicidade extrema, pelo insólito de uma quase “secura”estilística em paradoxal osmose com uma notabilíssima erudição - que, mesmo assim ou talvez por isso mesmo, opõe ao leitor dificuldades singulares.
Por mim, gosto definitivamente muito de versos como estes do poema “Ariosto e os Árabes”: «Ninguém pode escrever um livro. Para/Que um livro seja verdadeiramente/Requerem-se a aurora e o poente/Séculos, armas e o mar que une e separa.» São lindos e bem o exemplo de que, pela sua serenidade melancólica, pelo tom grave, quase “ingénuo” e sem ostentação, mas pleno de “filosofia”, a poesia de J. L. Borges, no seu conjunto, será um extraordinário e alucinante inventário de nós mesmos.
Quanto às suas “ficções”, pelo seu ineditismo, intertextualidade, carácter plurissignificante e actualidade inquestionáveis, merecem que haja sempre quem as leia e nelas procure as “chaves” da sua escrita desafiante, porque, afinal, como escreveu João Palma-Ferreira, um dos seus tradutores em Portugal, «Borges (…) leva tempo a amadurecer e ainda muito mais a admirar»!

Profesora Dulce Martinho

segunda-feira, 29 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS ii



«Sempre imaginei o paraíso sob a forma de uma biblioteca» declarou Borges numa conferência de 1978, dedicada espantosamente à cegueira – a sua e a de valores tão duradouros da literatura como Homero, Milton, James Joyce. Curiosa afirmação para um escritor obrigado a ditar os seus textos e que à cegueira dedicou textos admiráveis, considerando-a esse «lento crepúsculo» que durou cerca de meio século e «o resultado de um destino» intensamente assumido e com valor significante no seu universo literário.
Muitas outras páginas e conferências preciosas consagraram Jorge Luís Borges a um tema que lhe era verdadeiramente consubstancial: o culto do livro, sem o qual dizia não imaginar a vida e, para si, «não menos íntimo do que as mãos ou os olhos». Ao livro, classifica-o como «extensão da memória e da imaginação», acontecimento estético carregado de passado, lugar e objecto de felicidade.
Leitor ávido, nascido e criado em casas onde havia vastíssimas bibliotecas, viveu profissional e academicamente rodeado de livros que continuou a adquirir, coleccionar e amar mesmo quando já cego. À sua relação com os livros, as enciclopédias, os escritores e as bibliotecas voltou Borges literariamente inúmeras vezes. A título de exemplo, lembro duas conferências - “O Livro” e “Cegueira” – e os celebrados contos “A Biblioteca de Babel” e “Pierre Ménard, autor do Quixote”, onde espelhos disseminados pelas salas duplicam estantes labirínticas e a reescrita de textos consagrados, elevada à condição de sistema de escrita, metaforicamente cria o dédalo que é, de novo, o livro.
O «homem-livro ou antes o homem-biblioteca», como lhe chamou o autor francês Jean Pierre Bernés parece, assim, querer dar-nos com esta veneração literária pelo labirinto/biblioteca a imagem do cosmos, da vida em-si ou, diz-nos Eduardo Prado Coelho, para Borges a biblioteca - espécie de representação mítica do conjunto da sua obra - «tornar-se-á igualmente o símbolo do infinito da própria literatura, onde todas as palavras são convocadas para dizerem aquilo que escapa a todo o dizer».

Professora Dulce Martinho

domingo, 28 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS



« (…) o texto é um campo aberto onde cada leitor deposita as suas esperanças, os seus desejos, a sua cultura. A obra só vive quando sobre ela se depositam os olhos do leitor.»
Jorge Luís Borges (1980)

« (…)[Borges] não se limitou a produzir e a estudar literatura, mas acabou por fazer de si mesmo e dos seus textos o próprio espaço da literatura. E levou tão longe este processo que no conjunto da sua obra temos dificuldade em separar o que é do domínio da ficção, do domínio da poesia e do domínio do ensaio»
E. Prado Coelho (2001)

Afinal, há coincidências! Desafiada, dias antes, para escrever para a Katársis um texto em torno da figura literária de Jorge Luís Borges - um dos grandes criadores do século XX de cuja obra conhecia quase nada - o acaso das minhas leituras de fim-de-semana trouxe-me duas vezes o, considerado por muitos, maior escritor argentino.
Primeiro, foi uma curta citação que reproduzo: «Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar, escreve uma carta. Um romance é para contar uma história»; depois, surpreendentemente, num artigo sobre música, retomavam-se reflexões borgianas sobre autoria e interpretação da obra da arte na sua relação com os contextos de produção e de leitura. Pelo caminho, era lembrada a sua personalidade enigmática e fascinante e referidos dois dos seus contos mais famosos: “Pierre Ménard, autor do Quixote” e “A Biblioteca de Babel”.
Então, ainda mais consciente da gravidade da minha ignorância, decidi que importava, antes de mais, ler de e sobre quem assim era citado e reconhecido como um autor de primeiro plano em todo o mundo. Do muito que aprendi, partilho, agora, convosco algumas notas bio bibliográficas.

O escritor que gostava de livros e de bibliotecas
Bisneto de marinheiro português e cidadão do mundo, autor de língua espanhola (ou quase bilingue, pois foi igualmente educado em língua inglesa) detentor de cultura universal, poliglota, Jorge Luís Borges, algumas vezes apontado como literariamente próximo de Pessoa, foi poeta, contista, ficcionista, crítico literário, ensaísta, professor de literatura, conferencista… e assinou obra de difícil classificação, constituída por largas dezenas de títulos dispersos pelos géneros poético, “fantástico”, policial e do ensaio filosófico.
Nascido em Buenos Aires em 1899, aí cresceu rodeado de livros na casa do avô paterno; educado depois por anos de Europa (Suíça e Espanha), para onde vêm em 1914, Jorge Luís Borges cultivará livremente fortes raízes culturais e familiares anglo-saxónicas, mas regressará ao país natal e à cidade da sua infância em 1923, para aí fundar revistas e publicar o seu livro de juventude Fervor de Buenos Aires em mágicos poemas de verso livre.
Sempre participando activamente na vida cultural do seu país, tornar-se-á director da Biblioteca Nacional da Argentina entre 1955 e 1973. Só o avanço da cegueira de que padecia desde 1938, hereditária, mas agravada na sequência de um acidente doméstico, o impedirá de continuar nesta profissão. Na última década da vida, viajará pelo mundo – incluindo Portugal - dando cursos e conferências que o vieram a revelar igualmente como um grande criador de literatura oral.
Morrerá em Genebra em 1986, depois de ter recebido vários prémios literários internacionais, mas nunca o Nobel da Literatura. Assim ficará na história das letras mundiais como “ o escritor que falhou o Nobel”.
Do conjunto da sua obra constam títulos famosos, que se inscrevem já nos clássicos na literatura contemporânea, como Discussão, História Universal da Infâmia, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, História da Eternidade, O Aleph, O Autor e Outros Textos, História da Eternidade, Ficções, Labirintos, Inquirições, Outras Inquirições, O Fazedor, O Livro de Areia, Atlas (1985) - a sua última obra publicada - que inclui poemas, impressões de viagens, notas e meditações sobre sonhos. Da sua obra poética destaque ainda para O Ouro dos Tigres, A Rosa Profunda e História da Noite.
Foi no espaço labiríntico destas páginas reveladoras de uma imensa cultura literária - preferentemente orientada para temas ligados às literaturas inglesa, greco-latina e oriental - que fui folheando, ensaiando leituras avulsas, em prosa ou em verso, autorizada pelo gosto do próprio Borges que dizia apreciar particularmente os livros que podem ser abertos em qualquer página sem decepção de maior.
Registo uma primeira e, para mim, curiosa conclusão: afinal, J. L. Borges nunca escreveu um romance enquadrável no grande género literário “filho” do século XIX e terá até afirmado: «No transcurso de uma vida consagrada principalmente à literatura, li poucos romances e, na maioria dos casos, só cheguei à última página pelo senso do dever. A sensação de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são praticamente amorfos serviu para reforçar o meu gosto pelo formato do conto».
De facto, Borges é lembrado internacionalmente como um dos grandes criadores do conto moderno, reconhecido, sobretudo, pelos seus textos curtos que desenvolvem magistralmente todo um universo ficcional e poético de alucinação, sonhos, figuras literárias revisitadas, máscaras, espelhos e seus múltiplos reflexos, títulos surpreendentes e oníricos – sem ignorar o encanto mágico de Buenos Aires, juntamente com pampas, milongas e tangos - numa espécie de labirinto que, sem metáfora, é o próprio texto.
Estas são as “ficções” borgianas, histórias concisas de especulação fantástica que frequentemente surgem “mascaradas” de ensaio sobre temas eruditos ou tomam a forma de contos de aventuras ou policiais. Afinal, diferentes caminhos percorrendo o labirinto da natureza humana e dos seus esforços para chegar ao conhecimento completo e ordenado. Tentativas que podem falhar, mas nunca deixar desvanecer as crenças comuns, e revelam a paradoxal natureza do tempo, da linguagem e do pensamento, temáticas eternas do penetrante trabalho literário de Borges.
Jorge Luís Borges afirmava pouco conhecer da sua ascendência portuguesa, mas evoca muita vezes o avô, o coronel Francisco Borges, nos seus poemas. Cf, entre outros, «Os Borges», in O Fazedor, Lisboa, Difel, p.99.
Sendo certo que a sua obra em múltiplos aspectos se cruza e radicalmente se diferencia com/da de Fernando Pessoa, a verdade é que Jorge Luís Borges, em 1980, em entrevista a António Mega Ferreira, afirmava nunca ter lido Pessoa.

Professora Dulce Martinho

terça-feira, 23 de março de 2010

BARAKA


Filme “Baraka”
No nosso quotidiano por vezes não temos tempo para pensar na vida ou em questões acerca dela, mas em determinadas circunstâncias elas surgem, tais como no casamento, na morte, etc. …e são nessas alturas que procuramos respostas mais concretas que respondam às nossas dúvidas interiores. Quando a nossa cultura não nos responde, procura-se a resposta noutras. Cada cultura tem um modo particular de encarar questões muito humanas, como por exemplo, “o que acontece após a morte?”; “qual é a finalidade da nossa existência?” e cada uma responde à sua maneira. Uns encarnam uma só vez e quando morrem o espírito parte e nunca mais regressa à Terra, o luto é de negro e a tristeza é a marca, noutros é a alegria, pois acreditam que quando o corpo morre, a alma encontra finalmente a verdadeira felicidade.
Todas as religiões têm como finalidade dar uma razão de viver, uma razão de praticar o bem e sobretudo garantir que depois da morte haverá uma felicidade plena.
Nós, humanos, vivemos quase sempre como se fossemos imortais mas, quando a velhice “aperta”, qualquer esperança é útil.

Jacinta Ferreira – EFA - Arc. Maias

domingo, 21 de março de 2010

O LIVRO É UMA EXTENSÃO DA MEMÓRIA E DA IMAGINAÇÃO



O livro tal como disse Jorge Luís Borges é um prolongamento da memória e da imaginação numa aplicação concreta, o livro. Podemos afirmar isso pois sabemos que um autor não consegue ser totalmente imparcial ao escrever um livro. É na parte subjectiva do escritor que entra a memória e a imaginação do mesmo.
A memória pode ser associada às vivências do autor que interferem na maneira como escreve, o assunto ao qual dedica as suas palavras, e a maneira como encara esse tema.
A imaginação é o complemento de tudo o resto é como se fosse o tempero. É a imaginação que vai provocar ao leitor uma mistura de sensações e emoções que diferem e que vão ser cruciais para se gostar ou não do livro.
Existem, contudo, livros que aplicam só uma destas partes. Existem livros que têm só conteúdo cultural e por isso aplicam só a memória e outros como os infantis que algumas vezes aplicam só a imaginação. Mas isto tem uma explicação. Os livros culturais aplicam só a memória porque servem para trabalhos que têm de ser encarados o mais seriamente possível. Os de Histórias são para crianças e daí o conhecimento do mundo quotidiano ainda não ter grande interesse em ser aí aplicado.

Raquel Rei, 12ºB