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quarta-feira, 21 de julho de 2010

BANQUETE DAS ALMAS


" Naquela mesa cercada de cadeiras, com cálices cheios...almas
Na parede uma tapeçaria, tecida a tons de outros tempos idos...
Ali o banquete de almas sem voz, gritam pelo povo tecido sem parede.
Contada a história fica esquecido o povo dos povos com vozes.
Ali vive a minha alma em silêncio e sem história."
JA

terça-feira, 20 de julho de 2010

NÃO !!



Não...
Mas o que é isto?
Quem vagueia pelos palácios construidos com sangue Nobre povo!
Quem são essas gentes de horários nobres que por ai ferem o meu povo?
Quem de tão grande sabedoria se atreve a pedir ao povo para não comer.
Mas o que é isto? Os campos verdes agora parecem castanhos e sem sementes novas.
Dizem alguns vem, vem por aqui, dizem outros vem vem por aqui...
Mas o que é isto? Nao sabem que o povo é uma alma e a voz uma muralha?
Esta é uma tapeçaria tecida pelo povo, e com heróis sem TI...
Isto é alma do povo que sou, e que no mundo semeou outra história...mas não matou os campos de ninguém!
JA

sábado, 17 de julho de 2010

MOTIVO



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

Cecília Meireles

sábado, 10 de julho de 2010

UM RENQUE DE ÁRVORES


Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores?
Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

Alberto Caeiro, XLV - Um Renque de Árvores , in Guardador de Rebanhos

segunda-feira, 21 de junho de 2010

NO ENTARDECER DOS DIAS DE VERÃO


No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

domingo, 20 de junho de 2010

NA ILHA POR VEZES HABITADA


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a
verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

sábado, 3 de abril de 2010

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM




Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa 19/08/1933

quinta-feira, 25 de março de 2010

ZERO NEGATIVO




Tinha os cabelos ruivos, ruivos
a ameaçar meios pregos e a pele clara de neve
por reciclar. Chegava com o meigo cansado sono
de fazer estragos e já mal os conhecia
como antes o não conhecer
feroz nada dizia. Sentava-se
e procurava um homem só
vulnerável. Depois cingia o ar de guerra
nas escadas, o álcool por estourar ou só as latas
já invólucros, já cartuchos, a cor dos couros.
Pouco aos dias sobrevive.
Há as tardes e as noites e as manhãs
sem custo se perderam. A mesma névoa produzida
das cidades, teima o mesmo rio a vocação
do zinco, ferindo o lodo em sossego,
as mesmas luzes a abater
sinais de território.
Por vezes descobria os braços. Não raro procurando
calhas, vagas subterrâneas, túneis principais
a interceptar. Até à derrocada.

J. A.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

DA RECTA CLARIDADE DOS TEUS PASSOS



Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua transparência.
Sem transparência.
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por não te ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...

Miguel Torga, Obra Poética

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

MÃOS DO SAPATEIRO


No clandestino recanto
em que sentado labuto
os pespontos do meu canto,

neste perdido reduto
em que as mãos amadurecem
a peça que fugirá
das mãos dos que não merecem
para andar ao deus-dará
num universo de espanto

em que o amor vai curtido,
calado, surdo, tingido
de uma cor que é o sentido
da salvação que acalento

aqui me caio e levanto

in... O Livro do sapateiro - Pedro Tamen, Dom Quixote

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ESCUTO MAS NÃO SEI


"Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

in, Escuto (Sophia de Mello Breyner Andresen)

domingo, 31 de janeiro de 2010

CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO



Eu vi o raio de sol beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito, gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles, in "Retrato Natural"

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

AS PALAVRAS



Se fosse vivo Eugénio de Andrade faria hoje 87 anos. A sua poesia caracteriza-se sobretudo pela musicalidade das palavras. Como homenagem a um grande poeta português muitas vezes esquecido, aqui fica um dos seus poemas, escolhido ao acaso.

(Uma nota à parte: Hoje não há dinheiro para manter a fundação "Eugénio de Andrade", correndo o risco de encerrar as portas.

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ANOITECER


A luz desmaia num fulgor de aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bençãos de amor pra toda a gente!
E a minha alma, sombria e penitente,
Soluça no infinito desta hora...

Horas tristes que vão ao meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...

Florbela Espanca- in Livro de Soror Saudade

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FUMO



Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois olhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinho!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

QUE DIZER DE TI MENINO JESUS


Que dizer de ti, Jesus
que já não esteja dito?

Ao menos, no Natal,
retiram-te da cruz
e retornas à riqueza da tua criação:
à luz das estrelas,
à verdura do musgo,
ao aconchego do burrinho
que carregou contente
o ventre quente de tua mãe,
às ovelhas e aos pastores
e ao curral, onde também
uma vaquinha com seu bafo
te agasalhou do fino frio
de Dezembro;
à àgua das lavadeiras,
e aos montes com neve,
e ao mistério da noite.

Não sei se houve pranto
nas hora em que saíste,
da doçura do manto,
mas na terra houve canto
e no presépio sorris
eternamente tranquilo,
sem o calvário de espinhos
e sem a pressa de cresceres
para a quaresma eterna.

Ao menos no Natal,
retiram-te da cruz
e dela todos fingem
o esquecimento,
até os das esmolas.

Deixam-te ser menino,
apenas menino de todos nós
(e isto desde a era dos avós!)
até que o novo ano chegue
e as janeiras se cantem
em dia de reis,
por memória tua.

Esquecem-te na cruz
e reverberas de luz
e faz-se a festa
do teu nascimento
com rabanadas de pão,
(algumas sofisticadas!)
e aletria e mexidos,
e bolo-rei, ó Rei menino,
e bolos conventuais
nas mesas mais frugais!

Abençoado sejas
por renasceres
sem te cansares,
menino Jesus.

Que nome lindo,
filho de Deus!

Podias vir mais vezes
e trazeres contigo as estrelas
e o mistério dessa noite.

Descansarias da cruz onde
te pregaram eternamente
e a gente amava-te sem chagas
em presépios de musgo
e de pastores.

Talvez ficasses livre do sacrifício
e a tua mãe pudesse sorrir
sem o horror da cruz onde
te pregaram eternamente,
amor em flor!

Dorme menino, dorme, Jesus,
que no presépio velam por ti
o burro, a vaquinha,
Maria e José
e os pastores
e as ovelhinhas,
e os meninos
que sonham contigo,
Jesus renascido!

Dorme, pérola nua
desafogada de crivos,
dorme "menino de sua mãe"
que ainda é dia
e a água é pura
na consoada.

Dorme, Jesus,
dorme tranquilo
sem dor nem mal
e que Deus te dê
um FELIZ NATAL!
Lia

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A TERRA DO NUNCA


Se eu fosse para a terra do nunca,
teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

os sonhos que ninguém teve quando
o sol se punha de manhã;

a rapariga que cantava num canteirode flores vivas;
a água que sabia a vinho na boca de todos os bêbedos.

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,
numa estrada de nuvens.

E quando chegasse ao céu,
pisaria as estrelas caídas num chão de nebulosas.

A terra do nunca é onde nunca
chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

E é por isso que a apanho do chão,
e a meto em sacos de terra do nunca.

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,
despejarei todos os sacos à sua porta.

E a rapariga que cantava sairá da terra
com um canteiro de flores vivas.

E os bêbedos encherão os copos
com a água que sabia a vinho.

Na terra do nunca,
com o sol a pôr-se quando nasce o dia.

Nuno Júdice in: As coisas mais simples (2006)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

MURMÚRIO



Traze-me um pouco das
sombras serenas
que as nuvens transportam
por cima do dia!
um pouco de sombra , apenas,
vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta
no teu coração!
a alvura, apenas, dos ares
vê que não te peço ilusão

Traze-me um pouco da tua lembrança!
aroma perdido, saudade de flor!
vê que nem te digo - a esperança!
vê que nem sequer sonho,
Amor!

Cecília Meireles

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

POESIA



Já não quero andar só – cada vez que caminho com pés de vida;
Já não suporto mais solilóquios.
Mas cada vez mais a minha companhia é a sombra da minha companhia
- eu sou o homem que não tem direito a sombra.
Caminho, mãos nos bolsos, cabisbaixo
olhando as profundezas da calçada,
retirando a filosofia do alcatrão,
a metafísica da luz eléctrica,
a ciência dos passos ocos
que ecoam nas profundezas da minha alma
- ainda estás aí? –
Aqui estou, miseravelmente aqui
enquanto a minha vontade alada se foi e nunca mais a vi.
Eu… Quem sou? – Já não há filosofia que me responda,
só a filosofia de estar aqui
chorando lágrimas – como se sofresse,
como se sofrer fosse a única coisa que soubesse fazer.

05/05/1995
António Paulo Gomes Rodrigues

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Poesia


VIVER OU VIVENDO?

Um sorriso é tudo o que eu quero
mas a chuva só traz ironia, como bátegas fortes que me trespassam,
- cadáver andante -,
como espadas amoladas, reluzentes do sol irisdiscente,
da morte extemporânea da alegria breve.
Um abarço é tudo o que eu espero,
e que tal um "obrigado por existires".
Mas são punhais que me cravam a carne
como escarros que me amarelecem o cabelo;
- senilidade da existência -,
(como um cadáver que teima em viver)
tudo o que sou ou não sou - como pretenderem.
E o sorriso já não mora em mim, só sorrio pelo sorrir dos outros.
Uma porta abriu-se,
(ou será que se fechou?)
é que entre o fechar e o abrir há algo em comum
- o movimento.
Então nem sei se estou dentro ou fora do mundo
apenas sei que estou dentro de mim.

26/04/1995
António Paulo Gomes Rodrigues