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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

NEGAÇÃO DE PROPOSIÇÕES


Em qualquer discussão, saber negar ideias ou proposições é muito importante e parece fácil. Mas a negação de alguns tipos de proposições dão origem a confusões e erros.

A negação de uma proposição inverte o seu valor de verdade.

Se a proposição de partida for verdadeira, a sua negação será falsa; e se a proposição de partida for falsa, a sua negação será verdadeira. Se isto não acontecer, não é uma negação.
Veja-se o caso das proposições universais.

Chama-se proposição universal a qualquer proposição da forma« Todo o F é G» ou «Nenhum F é G», ou formas análogas.

O F e o G assinalam os lugares em que devemos inserir nomes de classes de coisas; por exemplo, «gregos», «mortais», ou «livros». Desse modo, forma-se frases como «Todos os gregos são mortais», que exprime a mesma proposição que «Todo o grego é mortal». Um erro comum é pensar que a negação de «Todas as verdades são relativas» é «Nenhuma verdade é relativa». A negação correcta é «Algumas verdades não são relativas».

A Arte de Pensar - Filosofia 10º Ano, Aires Almeida e outros
Didáctica Editora

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O CÉU


O céu colabora na nossa vida íntima, vive connosco, acompanha-nos na mudança do nosso ser; é um confidente, é um consolador; invoca-se, fala-se-lhe. Olhar o céu é, nos nossos climas, uma ocasião de viver: instintivamente, voltamos para ele os nossos olhos. O poeta meridional, cheio de imagens e de cores, contempla-o; o burguês trivial, admira-o; pela manhã, abre-se a janela e vai-se ver o céu! É um íntimo sempre presente na nossa vida; o nosso estado depende dele: enevoado, entristece-nos; claro e lúcido, alegra-nos; cheio de nuvens eléctricas, enerva-nos. É no Céu que vemos Deus... E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no.
Eça de Queirós, in 'O Egipto'

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Ofício Literário


Por que se perde um escritor? O que acontece para que um romancista maravilhoso se afunde para sempre no silêncio como quem se afunda num pântano? Ou ainda pior e mais inquietante: a que se deve o facto de um bom narrador começar de repente a redigir obras pavorosas?
Muitos sem dúvida, partem a espinha com o fracasso. O ofício literário é o que há de mais paradoxal: é verdade que se escreve em primeiro lugar para si próprio, para o leitor que se tem cá dentro, ou porque não se consegue evitar escrever, porque se é incapaz de suportar a vida sem a distrair com fantasias; mas, ao mesmo tempo, precisa-se inevitavelmente de se ser lido; e não apenas por um leitor, por excelente e inteligente que este seja, por muito que se confie no seu critério, mas por mais pessoas, muitas mais, para dizer a verdade, por muitíssimas mais, uma multidão abundante, porque a nossa fome de leitores é uma avidez profunda que nunca se sacia, uma exigência ilimitada que roça a loucura e que sempre me pareceu extremamente curiosa. Sabe-se lá de onde virá esta necessidade absoluta que converte todos os escritores em eternos indigentes do olhar alheio.

Rosa Montero, A louca da casa, Edições Asa

domingo, 29 de agosto de 2010

AS PALAVRAS


O escritor está sempre a escrever. Na realidade, nisso consiste a graça de ser romancista: na torrente de palavras que lhe fervilha constantemente no cérebro. Redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos, enquanto levo os meus cães a passear, por exemplo: dentro da minha cabeça vou deslocando as vírgulas, substituindo um verbo por outro, afinando um adjectivo. Às vezes redijo mentalmente a frase perfeita e, no pior dos casos, se não a aponto a tempo, mais tarde foge-me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exactas que iluminaram por um instante o interior do meu crâneo, para depois voltarem a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que nos revelam apenas um brilho de escamas por entre as águas negras. Se se libertam do anzol, o mais provável é não conseguirmos voltar a pescá-las. São manhosas as palavras, rebeldes e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (convertê-la num lugar-comum) é acabar com ela.

A louca da casa, Rosa Montero, Editora Asa

sexta-feira, 23 de julho de 2010

BOAS FÉRIAS!!!


Boas férias para todos os leitores de Katársis.
Vamos neste tempo de Verão andar por aqui, por ali e por além, longe...
Aproveitem! Leiam muito e procurem ser felizes.
Um beijo.

Isa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PEÇAS EM FUGA


"O passado sombra é moldado por tudo o que nunca aconteceu. Invisível, derrete o presente como a chuva no karst. (1) Uma biografia de saudade. Conduz-nos como um magnetismo, um torso do espírito. É assim que ficamos desfeitos por um cheiro, uma palavra, um lugar, a fotografia de um monte de sapatos. Pelo amor que fecha a boca antes de chamar um nome.
Não assisti aos acontecimentos mais importantes da minha vida. A minha história mais profunda tem de ser contada por um cego, um prisioneiro do som. Detrás de uma parede, debaixo da terra. Do canto de uma pequena casa numa pequena ilha, saliente como um osso na pele do mar."

(1)Karst: Área de terreno calcário caracterizada por charcos, ravinas e cursos de água subterrâneos

Extracto retirado do livro, Peças em Fuga de anne michaels. É um livro que me toca pelas reflexões profundas, poéticas, na evocação de imagens da infância. Trata-se da libertação dos traumas da guerra pelo percurso ao mais íntimo de si do poeta grego Jakob Beer que pouco antes de morrer, atropelado em Atenas, em 1993, tinha começado a escrever as suas memórias. "A experiência da guerra não termina com a guerra. O trabalho de um homem, tal como a sua vida, nunca está completo..."
Aconselho a leitura nestas férias....

Peças em Fuga, Anne Michaels, Editorial Presença

quarta-feira, 21 de julho de 2010

BANQUETE DAS ALMAS


" Naquela mesa cercada de cadeiras, com cálices cheios...almas
Na parede uma tapeçaria, tecida a tons de outros tempos idos...
Ali o banquete de almas sem voz, gritam pelo povo tecido sem parede.
Contada a história fica esquecido o povo dos povos com vozes.
Ali vive a minha alma em silêncio e sem história."
JA

terça-feira, 20 de julho de 2010

NÃO !!



Não...
Mas o que é isto?
Quem vagueia pelos palácios construidos com sangue Nobre povo!
Quem são essas gentes de horários nobres que por ai ferem o meu povo?
Quem de tão grande sabedoria se atreve a pedir ao povo para não comer.
Mas o que é isto? Os campos verdes agora parecem castanhos e sem sementes novas.
Dizem alguns vem, vem por aqui, dizem outros vem vem por aqui...
Mas o que é isto? Nao sabem que o povo é uma alma e a voz uma muralha?
Esta é uma tapeçaria tecida pelo povo, e com heróis sem TI...
Isto é alma do povo que sou, e que no mundo semeou outra história...mas não matou os campos de ninguém!
JA

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TRILHOS ii...


" Escuta os sons que dentro de ti vivem."

TRILHOS i...


"Deixa fluir cada sentido nos teus passos e repara nos segredos que olham para ti."

TRILHOS...


" Cada passo que demos com a terra, é uma força que nasce em nós"

domingo, 18 de julho de 2010

COLHE CADA MANHÃ


" Colhe cada manhã com aquele sorriso que nasce tímido"
JA.

Calcei as sapatilhas e vou devagar
olhar o chão,
escutar o vento,
vou colher esta manhã o murmúrio do regato,
o silêncio das aldeias.
À tarde quando voltar,
vou trazer um fruto dos meus passos,
um pedacinho do meu céu
e um grão de terra.
Isa.

sábado, 17 de julho de 2010

MOTIVO



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

Cecília Meireles

quinta-feira, 15 de julho de 2010

SOLAR


E nos intervalos da Filosofia... Leituras de Verão...

" Michael Beard é um físico galardoado com o Prémio Nobel cujo trabalho já conheceu melhores dias. Agora vive da sua reputação, proferindo conferências, emprestando o nome a instituições científicas e aceitando - pouco convictamente - presidir a uma iniciativa sobre aquecimento global levada a cabo com dinheiros públicos. Mulherengo compulsivo, Michael vê entretanto ruir o seu quinto casamento. Mas desta feita é diferente: é ela quem tem um caso e ele ainda está apaixonado.
Quando os mundos profissional e pessoal de Michael colidem inesperadamente, conjugam-se as almejadas oportunidades de fugir da confusão conjugal, revitalizar a carreira e salvar o mundo da destruição ambiental.
Solar é um romance inteligente e sombriamente satírico que revela a fragilidade humana confrontada com os mais prementes e complexos desafios do nosso tempo. Uma obra profunda e elegante de um dos escritores maiores da actualidade."

Retirado da contrapaca do livro.
Solar, IAN McEWAN, Gradiva, Março 2010

Comecei ontem a leitura do livro. O tom irónico e satírico que provoca em mim o sorriso, prende-me às páginas inquietantes de IAN McEWAN. Recomenda-se a leitura deste livro...

terça-feira, 13 de julho de 2010

O MUNDO NOCTURNO



Noite Estrelada sobre o Ródano, 1888
Oléo sobre tela
Museu d´Orsay, Paris

(As luzes da cidade reflectem-se em longas linhas no Ródano, e as estrelas cintilam, quais auréolas, no céu nocturno: um relevo de amarelo e azul a dar a impressão da noite.)

Depois do seu regresso de Saintes-Maries, Van Gogh, manifestara, em cartas dirigidas a Theo,(seu irmão) o desejo de finalmente pintar um céu estrelado. Com o auxílio de um candeeiro a gás, pintou, em Setembro de 1888, o céu nocturno na margem do Ródano, virado para a ponte de Trinquetaille. Pinceladas largas do céu azul esverdeado, a cidade ao longe, em azul e lilás, água azul cobalto e um prado verde amarelado em primeiro plano, com um casal de veraneantes, articulam este panorama nocturno em grande formato. As luzes da cidade reflectem-se na água em longas refracções, enquanto as luzes das estrelas, sobretudo na reprodução da Ursa Maior, se difunde de forma cintilante. Pinceladas vogorosas e amplas oferecem um relevo cromático cheio de contrastes.
Mini Guia de Arte, Van Gogh, Dieter Beaujean, Konemann

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ESTRUTURA E CONTORNOS


A estrutura, a articulação ou ordenação interna dos elementos como o todo, é um princípio artístico da composição que se torna mais evidente sobretudo nos trabalhos tardios de Van Gogh. A forma mais minúscula dos elementos de composição na pintura, que só no seu conjunto se transformam numa representação, é decerto o pontilhismo. Em trabalhos de Van Gogh, como a Noite Estrelada (1889) estão agrupados tais elementos de composição: linhas enroladas sobre si mesmas transformam-se em estrelas no céu nocturno, pinceladas impetuosas em picos de ciprestes, superfícies curvas tracejadas produzem cumes de montanhas e formas geométricas reproduzem a arquitectura de um lugar. O conjunto de tudo isto é uma noite estrelada, vivida aparentemente em delirantes, embora muito estudados, impulsos e pinceladas de cor.

Van Gogh, Mini Guia de Arte, Dieter Beaujean, Konemann

domingo, 11 de julho de 2010

DIA EM VÃO


A janela está fechada. Subi para me deitar cedo e não tenho sono.
Não falei com ninguém desde há dez dias, excepto uma vez ao homem do cigarro. A noite está extremamente silenciosa. Por toda a parte, à volta do quarto, o vento, o ruído do mar, passos no corredor, latidos de cães, em baixo. No quarto, um silêncio muito denso e no meio o meu coração que bate. Resta-me o meu coração que bate sempre, sempre. Junto do mar, em pleno dia, é diferente. Está-se nas mãos do mar. Sente-se esse prazer de o respirar. Numa ordem que não sente, é-se esse nada de desordem que sente. Uma coisa a constatar o mar. Saboreia-se então com sofreguidão o barulho do coração que bate. No momento em que ele poderia não... Que bate em vão. Ou por um motivo que hoje não tem. Que bate em vão. Porque, de cada vez, hoje é um dia em vão, que não terá outro igual. Está-se em férias de si mesmo ao esperar em vão. Nesse caso vive-se para o prazer; está-se presente nesse presente; as pernas não podem conter-se mais, elas querem mexer-se e estão sufocadas de riso.

Vida Tranquila, Marguerite Duras, DIFEL, 1989

sábado, 10 de julho de 2010

UM RENQUE DE ÁRVORES


Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores?
Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

Alberto Caeiro, XLV - Um Renque de Árvores , in Guardador de Rebanhos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

1 Km DE CADA VEZ


Nos intervalos da Filosofia... leituras de férias

O meu fascínio pelos livros de Gonçalo Cadilhe. Com eles viajo "ao sabor do tempo."

Da África Austral às Galápagos, da América Central à Oceânia, da Polinésia à Índia, "1 Km de Cada Vez" leva os leitores numa viagem de 15 meses, desprendida das imposições do tempo, por alguns dos locais mais fascinantes do planeta.
Em "1 Km de Cada Vez", Gonçalo Cadilhe homenageia o "fascínio da viagem". Para além de lugares, a obra detém-se em pessoas e em histórias, permitindo o reencontro com sítios já visitados, com amigos e antigos companheiros de aventura, sem pressa de partir.
Para Gonçalo Cadilhe, este é um livro diferente dos anteriores. "É um olhar mais profundo e maduro sobre a viagem, os encontros, os regressos, uma reflexão sobre esse privilégio imenso que é poder andar pelo mundo sozinho com uma mochila às costas", revela o autor.
Mais do que os locais que percorre, Gonçalo Cadilhe defende que o fascínio de "1 Km de Cada Vez" está "na sua diversidade, no olhar sempre renovado do viajante". "O fascínio é a própria viagem", sublinha.
De resto, nota Gonçalo Cadilhe, o próprio título do livro "recorda essa expressão 'um dia de cada vez', que ensina a não colocar as ânsias, os problemas de amanhã na nossa cabeça hoje". É o viajar pelo viajar, como se para isso houvesse todo o tempo do mundo. Por isso, é entre risos, que responde que o lugar que até hoje mais o tocou é "o próximo". Afinal, é "a curiosidade do Outro, saber o que significa para um habitante de um certo lugar ser desse lugar" que continua a fazer Gonçalo Cadilhe partir para novas viagens e para novos livros, com os quais procura sobretudo "provocar todos os que têm essa curiosidade de ver o que está do lado de lá da fronteira".
Jornalista e cronista de viagens, Gonçalo Cadilhe nasceu na Figueira da Foz. Licenciado em Gestão de Empresas, escreveu para a revista "Grande Reportagem", sendo actualmente colaborador do semanário "Expresso". Entre as obras já publicadas encontram-se "No Princípio Estava o Mar", "Nos Passos de Magalhães", "África Acima", "A Lua Pode Esperar", "Planisfério Pessoal" e "Tournée".

Retirado da Net - Ideias Concertadas

quinta-feira, 1 de julho de 2010

PARIS


Nos intervalos da Filosofia... leituras de férias.

Aqui, o mar protege da sensação de asfixia, de se estar enterrado na cidade. Aqui, Paris surge como se fosse um lapso, um estado inadmissível da cidade. É aí, em Paris, que se encontra o mercado da morte, o da droga e do sexo. É aí que assassinam velhinhas. É aí que se deita fogo ao dormitório dos negros, seis em dois anos. É aí que há toda uma população automóvel que é malcriada a conduzir, grosseira, insultuosa, que assassina com o carro: os novos - ricos dos circuitos financeiros da heroína, os PDG da morte. Andam de Volvo e de BMW. Dantes, estas marcas eram a elegância dos sapatos, dos perfumes, da voz e de falar com amabilidade a toda a gente. Era, se quisermos, o snobismo da discrição. Agora já não apetece comprar estas marcas. Paris, a cidade, a Medina. Onde nos perdemos.

A Vida Material, Marguerite Duras, DIFEL

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A AUTO-ESTRADA DA PALAVRA



Nesta espécie de livro que não é um livro eu gostava de ter falado de tudo e de nada, como todos os dias, ao longo de um dia como os outros, banal. Entrar na grande auto-estrada, a via geral da palavra, e não me deter em nada de especial. É impossível fazer isso, saír do sentido, não ir a parte nenhuma, falar apenas, sem partir de um dado ponto de conhecimento ou de ignorância e chegar ao acaso no tumulto das palavras. Não se pode. Não se pode saber e não saber ao mesmo tempo. Portanto este livro, que eu queria que fosse como uma auto-estrada em questão, que devia ir a toda a parte ao mesmo tempo, vai ficar a ser um livro que quer ir a toda a parte e só vai a um lugar de cada vez, e que torna a voltar e a partir novamente como toda a gente, como todos os livros, a menos que se calem, mas isso, isso não se escreve.


A Vida Material, Marguerite Duras, DIFEL, Lisboa

terça-feira, 29 de junho de 2010

A LOUCA DA CASA


A LOUCA DA CASA
De ROSA MONTERO *

O livro que eu gostava de ter escrito

* Rosa Montero, nascida em Madrid em 1951, jornalista há quase 40 anos, é também autora de romances e ensaios traduzidos em várias línguas. O seu nome é imediatamente associado ao diário espanhol El País, para o qual trabalha desde a sua fundação, em 1976.
Figura central da literatura espanhola contemporânea, narradora de ficção – como gosta de se considerar – pois que o que mais a apaixona é a ficção, tem vários livros editados em Portugal, dos quais destacamos, para além de A Louca da Casa (Edições Asa, 2004); Histórias de Mulheres (Edições Asa, 1995); Paixões: Amores e Desamores que Mudaram a História (Editorial Presença, 2000) e História do Rei Transparente (Círculo de Leitores, 2005).
A Louca da Casa (2003) recebeu o Prémio Grinzane Cavour de literatura estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol, distinção igualmente atribuída, em 2006, a História do Rei Transparente.

«A imaginação é a louca da casa.»
Santa Teresa de Jesus

«A imaginação é a forma como completamos a realidade e assim conseguimos sobreviver, porque se não a existência seria um caos insuportável. Digamos que a vida imaginária é tão autêntica como a real, onde existe também uma grande dose de ficção.»
Rosa Montero (em entrevista à Revista Visão, 2004)

Não sendo esta a circunstância para debater se há uma escrita feminina ou, no dizer de alguns, uma literatura “de mulheres”, apresento-vos, em vez disso, um livro delicioso e intimista escrito por uma mulher, com um título no feminino, em que a ambiguidade de olhares narrativos é, mais do que uma marca de género, um valor literário.
* * * * * * * * * * *
Feio pecado este da inveja! Que, peço, me seja perdoado pela confissão que vai no título e repito: “Queria muito ter sido eu a escrever este livro!”, penso, cada vez que o releio. E faço-o muitas vezes, pois volto frequentemente a páginas avulsas deste inclassificável e desarmante A Louca da Casa em que, qual ovo de Colombo ou intuição inspirada, Rosa Montero nos dá o fascínio e a magia da escrita, fingindo que escreve sobre si e os outros… escritores, enquanto conversa connosco, leitores.
Apreciadora incondicional de livros de difícil catalogação, gosto de tudo neste: da indefinição do texto em termos de género - um híbrido que, saltitando entre o romance, o ensaio, a (auto) biografia, joga com o real e o fictício - ao título “roubado” a uma frase de Santa Teresa de Ávila; do estilo leve e descomplexado da autora à análise, por vezes mordaz, dessa coisa mágica, misteriosa, da imaginação literária e da sua ténue e nevoenta fronteira com os múltiplos desdobramentos possíveis da realidade. Mas há mais: entusiasta de biografias, em A Louca da Casa disponho, na fluidez da escrita jornalística de Rosa Montero documentada no seu conhecimento lúcido da classe por dentro, de centenas de referências a circunstâncias e cenas das vidas conturbadas de numerosíssimos autores de obras, para mim, mais ou menos conhecidas.
Em suma, A Louca da Casa não é um ensaio sobre literatura, mas antes uma espécie de mini tratado divertido e inteligente sobre a dimensão salvadora do trabalho de criação literária. Dito de outro modo: sob a aparência de uma brincadeira muito séria e original, surge-nos a absoluta apologia do poder da imaginação; um olhar próprio sobre o mundo ou, nas palavras da autora, «… um livro que joga com a imaginação não só do artista ou do escritor, mas de todos os seres humanos. (…) o ser humano é, sobretudo, um contador de histórias. Mesmo as pessoas que dizem que não são imaginativas não se apercebem até que ponto dependem da imaginação para sobreviver».
E este jogo é levado tão longe pela autora que deixamos absolutamente de saber se a existência de alguns elementos autobiográficos semeados no texto são ou não verdadeiros. Rosa Montero diverte-se/nos contando histórias da sua vida, que, não raro, se contrariam, o que permite supor que, por acção da “louca da casa", tais factos só terão existido, afinal, na/pela imaginação da Rosa Montero, ficcionista.
Dois exemplos: as histórias de infância e juventude envolvendo a irmã, «…Martina, que é e não é», fantasiadas ou não, deixam de traduzir e completar realidades só porque Rosa Montero não tem, de facto, irmãs? E o que interessa saber se a narradora teve ou não um caso com um actor de Hollywood, se ela nos conta, em três divertidas versões, uma eventual aventura amorosa com tal “estrela”?
. Importa bem mais a forma como metaforicamente a autora nos desvela o processo criativo, com momentos muitas vezes iluminados e inspiradores. E nos mostra como, através da leitura de romances, cada um de nós poder viver muitas outras vidas e, desta maneira, aprender a viver melhor a sua.
Quanto a escrevê-los defende, depois de nos contar, em mais uma das suas histórias-metáfora, como a principal personagem, uma velhinha freira de clausura, pôde finalmente, da varanda defronte, ver o seu convento do lado de fora: «Escrever romances implica atrevermo-nos a contemplar este trajecto monumental que nos arranca de nós próprios e nos permite ver-nos no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de compreensão, depois de roçar por um instante a visão que completa e que fulmina, regressamos a coxear à nossa cela, à prisão da nossa estreita individualidade, e tentamos resignar-nos a morrer».
Definitivamente, recomendo a quem gosta de ler, se interessa pelo mágico ofício de escrever, ou simplesmente deseja conhecer os mecanismos da criação literária na sua relação com esse «bichinho álacre e sedento» da imaginação, que bole na nossa cabeça como na de Gedeão e de outros monumentais autores.
Um convite ao puro ao prazer de ler ou um (novo) elogio da loucura – a “mentira” pessoana, lembram-se? – porque, «na pequena noite da vida humana, a louca da casa acende velas».

Professora - Dulce Martinho

segunda-feira, 28 de junho de 2010

100 FILÓSOFOS


Os cem retratos incluidos neste volume constituem uma história portátil da filosofia, uma magnífica síntese das posições de cem filósofos. Vão até ao cerne de cada sistema para identificarem os seus instrumentos, que usamos nas nossas próprias construções. Podemos também levá-los connosco, nas nossas viagens, tanto para as ilhas dos nossos tormentos como para as das nossas felicidades. Um vasto panorama em que os filósofos ganham vida, animam os seus conceitos em transportes de ideias precisas como flechas.

100 Filósofos - De Aristóteles a Wittgenstein, Jean - Clet Martin, Teorema, Janeiro de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

NO CÍRCULO DOS IMPRESSIONISTAS


Um peregrino entre dois mundos: Paul Gauguin conseguiu, mais do que qualquer outro artista, viver a existência que evocou na sua obra. Ele não queria apenas pintar o primitivismo e a harmonia ingénua de uma vida selvagem e rudimentar, apresentando-os como reverso da medalha da sua própria civilização, que desprezava. Ele queria viver essa outra forma de vida e, através da própria vivência, mostrar que o exotismo do Pacífico Sul era algo mais do que a magia artificial que na altura, na sequência de várias exposições mundiais e de reportagens jornalísticas, fascinava a Europa. Gauguin é considerado um dos pioneiros do Modernismo, porque ele foi um dos primeiros a dar corpo à ligação entre a arte e a vida, a fantasia e a ordem, que irá dominar o mundo pictórico do século XX.

Gauguin, Taschen

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A FILOSOFIA NO FEMININO




O que significa “a filosofia no feminino?” Habitualmente não falamos de filosofia no masculino ou no feminino mas falamos de Filosofia. Será que podemos defender que há uma forma específica feminina de pensar o mundo e os seus problemas?
Mary Warnock,(1924 -) pensadora inglesa considera que a diferença de sexo não é importante para fazer Filosofia. Tal como na Ciência, também na filosofia o sexo é irrelevante. Mary Warnock considera que há diversas maneiras de fazer filosofia, salientando que não há similitude de perspectivas na filosofia das mulheres.
Contudo, parece haver semelhanças no discurso filosófico das mulheres, quer a nível da forma, quer a nível dos conteúdos.
A nível da forma, as mulheres não produzem grandes tratados, nem grandes sistematizações. As mulheres exprimem melhor a sua forma de entender o mundo através do ensaio. A maneira como argumentam também é diferente em relação aos homens, problematizando os temas sem derrubarem sistematicamente as teses.
Na história da filosofia a mulher tem-se manifestado uma grande leitora de obras de filósofos e também uma grande interlocutora. A Princesa Elisabeth da Boémia ( 1596 -1662), é exemplo disso. Correspondeu-se com Descartes que a considerava tão dotada para as matemáticas como para a metafísica. Se houve uma viragem no pensamento de Descartes deve-se a ela pois questionou-o e levantou dúvidas sobre a concepção dualista de homem, levando o filósofo a rever a sua posição, enveredando assim, pelo caminho antropológico e ético que no início não estavam nos propósitos do pensador.
Com o exemplo de Elisabeth da Boémia verificamos que as mulheres interpretam o pensamento dos outros, descobrindo falhas, inconsistências e raciocínios pouco lógicos que os seus autores não tinham reparado.
Damaris Cudworth (1659-1708), conhecida por Lady Masham, filósofa da época moderna, foi correspondente de Lock e de Leibniz e levantou diversas objecções ao pensamento destes filósofos, contribuindo assim, para o esclarecimento da filosofia dos pensadores em causa.
É possível encontrar temáticas e conteúdos específicos nos textos filosóficos escritos por mulheres. Na época contemporânea, a ética e a política (não universalizando), parecem ser temas que agradam às mulheres filósofas. Nos séculos XVII e XVIII as temáticas incidiam sobre problemas éticos, religiosos e políticos. Outra dimensão da filosofia em que as mulheres se mostraram perspicazes foi na interpelação crítica de teses filosóficas que estavam na “moda”. Algumas levantaram dúvidas à dicotomia antropológica e à importância dada à alma. É o caso de Anne Conway ( 1631-1679), que valoriza o papel do corpo no conhecimento. Margaret Cavendish (1661-1717) critica as teses cartesianas, no que respeita à teoria dos animais máquinas. Demonstrou quanto absurda é a tese dos animais desprovidos de sofrimento e defendeu uma inteligência animal, admitindo que os animais são seres com um grau de racionalidade. Seria assim pioneira da ética animal, temática oportuna e do agrado de alguns pensadores actuais.
Para finalizar podemos dizer que a produção filosófica feminina no nosso tempo conhece grande desenvolvimento. Hanna Arendt (1906-1975), Susane Langer (1895-1985), Maria Zambrano ((1904-1996) Iris Murdoch (1919-1999) por exemplo, são nomes ligados a temas inovadores que ninguém com o mínimo de informação pode desprezar.
Isa.

Fontes: A Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica -Debates

O que os Filósofos pensam sobre as mulheres, Colecção Philosophica -Debates, Organização Maria Luísa Ribeiro Ferreira

terça-feira, 22 de junho de 2010

O "DRAMA" DE SER MULHER




“Ensinam-se os homens a pedir desculpas pelas suas fraquezas e as mulheres a pedir desculpas pelas suas forças.”
Lois Wise, americana, publicitária

Mulher, mãe, dona de casa,
Sem tempo, presente e ausente,
Que sofre, companheira, apaixonada,
Mulher, matriz da vida, abandonada…
Anónimo

"A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior."
Aristóteles, séc. IV a.C.)

"O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia."
Lutero, século XVI)

"Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súbditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.”
Constituição Nacional inglesa (século XVIII)
"As mulheres nada mais são do que máquinas de fazer filhos."
Napoleão Bonaparte (imperador francês, século XIX)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

NO ENTARDECER DOS DIAS DE VERÃO


No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

domingo, 20 de junho de 2010

NA ILHA POR VEZES HABITADA


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a
verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

MARÉS


Marés

Marés de um mar, ausente…
As ondas dos bosques salpicam de
Espuma -algodão a paisagem
Verde-água
E o porto de outro mar navegante
Com cavernas de monstros marinhos.

Nascem luas nas montanhas
E os barcos sulcam os jardins de algas
As árvores são peixes e as flores
São corais…metáforas…
E são bússolas as gotas das
Ondas espumantes.
Pérolas salgadas no corpo do mar
De portos, templos das deusas
Sereias lindas, vibrantes
Tritões etéreos e enigmáticos.

Marés imaginadas de sonhos
Onde os búzios falam,
Antíteses de outro mar presente ….
Marés…ou… metáforas?

Anabela B.

terça-feira, 15 de junho de 2010

MULHER...


Mulher…
Mulher é aquela que ama sem olhar.
É a que escuta sem se pronunciar.
É a que ajuda sem medir.
É a que percebe sem querer entender.
É a que singra sem magoar.
É a que chora por chorar.
É a que ajuda para se alegrar.
É a que se multiplica para executar.
É a que sonha para concretizar.
É a que quer viver para se sentir a completar.

Mariana Masteling - 12ºB