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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

CURIOSIDADES FILOSÓFICAS

PARADOXO DO HEDONISMO
O paradoxo segundo o qual os agentes que procuram deliberadamente maximizar os seus próprios prazeres correm maior risco de não o conseguir do que aqueles que se importam com outras coisas e com as outras pessoas, para benefício destas. Peter Singer afirma que a maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos. Tem-se dado o nome de ‘paradoxo do hedonismo’ ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outras a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de uma tese sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes.

domingo, 12 de outubro de 2008


Nos Estados Unidos, entre 20 e 40 milhões de aves e mamíferos são mortos para investigação todos os anos. Pode parecer um número enorme - e excede de longe o número de animais mortos por causa da pele, e mais ainda o número relativamente insignificante de animais usados em circos - mas até o número de 40 milhões é inferior à quantidade de animais abatidos em dois dias nos matadouros americanos, que matam, aproximadamente, 10 mil milhões de animais por ano.

Peter Singer

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Poesia


VIVER OU VIVENDO?

Um sorriso é tudo o que eu quero
mas a chuva só traz ironia, como bátegas fortes que me trespassam,
- cadáver andante -,
como espadas amoladas, reluzentes do sol irisdiscente,
da morte extemporânea da alegria breve.
Um abarço é tudo o que eu espero,
e que tal um "obrigado por existires".
Mas são punhais que me cravam a carne
como escarros que me amarelecem o cabelo;
- senilidade da existência -,
(como um cadáver que teima em viver)
tudo o que sou ou não sou - como pretenderem.
E o sorriso já não mora em mim, só sorrio pelo sorrir dos outros.
Uma porta abriu-se,
(ou será que se fechou?)
é que entre o fechar e o abrir há algo em comum
- o movimento.
Então nem sei se estou dentro ou fora do mundo
apenas sei que estou dentro de mim.

26/04/1995
António Paulo Gomes Rodrigues

domingo, 21 de setembro de 2008

O Viandante sobre um Mar de Névoa


Preciso de solidão para comunicar com a Natureza
Caspar David Friedrich

Manhã e anoitecer, sol nascente e poente, nascimento e morte, eis os temas determinantes de Friedrich, pintor da quietude, da transparência, da leveza.
Reflexão! É o apelo cativante que prende os nossos olhos à natureza silenciosa, transformada em obra de arte.
As paisagens de Friedrich não são impressões naturalistas mas sim “paisagens de sentimento” que ecoam na mente humana.
Friedrich é considerado o mestre da composição da quietude.
Na obra artística, O Viandante sobre um Mar de Névoa, no cimo de um rochedo escuro, ergue-se um homem visto de costas. Olha o mar imenso de montanhas nubladas de fina poalha que se eleva do vale e se desfaz perto do céu. As nuvens deslizam ao longe numa simbiose perfeita com a névoa. As cores que sobem suavemente da terra, derramando-se em delicados amarelos pelo céu, prendem a emoção que nos transporta para o infinito. A profundidade espacial do horizonte é uma porta aberta para a quietude do tempo. O Sublime! É isso que se pretende captar nesta obra. Subimos ao cume da montanha, olhamos a ondulação das colinas que se dirigem para o indizível e o que desejamos? Fundir-nos no espaço ilimitado, permanecer aí e reconhecer que não somos nada. O sublime esmaga a nossa pequenez. O Viandante do mundo somos nós, constantemente a oscilar entre a vertigem da vida e a necessidade de pensar – Quem somos? O que fazemos aqui?
Isabel Laranjeira

quinta-feira, 11 de setembro de 2008


Tal como os Estados Unidos se atrasaram em relação ao mindo civilizado na abolição da escravatura humana, também os Estados Unidos se atrasaram agora na minoração das brutalidades sem limites ocorridas na escravatura animal.

Peter Singer

segunda-feira, 8 de setembro de 2008


São realizadas anualmente centenas de experiências nas quais os animais são obrigados a tornarem-se dependentes de drogas. Relativamente apenas à cocaína, por exemplo, realizaram-se mais de 500 estudos. Uma análise de apenas 380 destes permitiu calcular os seus custos em cerca de 100 milhões de dólares, a maior parte dos quais provenientes de impostos. Eis um exemplo:
Num laboratório do Centro Médico de Downstate, dirigido por Gerald Deneau, prenderam-se macacos-resos a cadeiras. De seguida, ensinou-se aos animais o modo de auto-administrar cocaína directamente no fluxo sanguíneo, nas quantidades que estes desejassem, através da pressão de um botão. Segundo um dos relatórios, os macacos testados pressionaram o botão vezes a fio, mesmo após terem sofrido convulsões. Não dormiam. Ingeriam cinco ou seis vezes a quantidade normal de alimento e, ainda assim, emagreciam. No final, começaram a auto-mutilar-se e, finalmente, morreram devido a excesso de cocaína.
Peter Singer

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ausente


Não apaguem o sol...
Agora que estava tudo tão bem, porquê isto e não aquilo?
Agora que eu via os teus olhos olharem para o mesmo sentido que os meus,
vejo duas chamas ígneas que olham para mim.
Agora que eu sentia o teu perfume,
nada mais é senão brisa.
Agora que eu queria tudo ou mais alguma coisa,
anoitece e já nada quero porque já nada há a querer.
13/04/1995
António Paulo Gomes Rodrigues

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Frida Kahlo - A Coluna Partida, 1944


“Pinto a minha própria realidade”

Em 1907 nasce em Coyoacán, Frida Kahlo, mulher inconfundível no universo artístico mexicano do século XX.
O seu estilo artístico, que muitos quiseram encaixar no surrealismo, é inspirado na arte popular do seu país e nas suas experiências dolorosas. A propósito dizia: “Nunca pintei sonhos. Pintei a minha própria realidade”.
Os traços índios, herança genética da família da mãe, vão ser representados continuamente, sobretudo nos auto-retratos. Mais de metade dos quadros de Frida são auto-retratos. É neste sentido que ela diz: “eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o tema que conheço melhor. Nos auto-retratos, Frida surge com fartas e unidas sobrancelhas negras e um exagerado buço, ornamentada com grossos colares de pedras e brincos artesanais.
Apesar da pintora não se identificar com o surrealismo muitas das suas obras tocam ao de leve neste movimento artístico. A magia, o sonho, a simbologia, são visíveis em muitos dos seus quadros.
Há uma obra artística de Frida que me enche de comoção quando a observo – A Coluna Partida. A vida de Frida foi marcada pelo sofrimento físico, consequência de um acidente na juventude quando regressava da escola. Ficou gravemente ferida na coluna e no abdómen. Sobreviveu mas com sequelas para toda a vida. Ela própria dizia que os ferros do autocarro a trespassaram, a violaram. A obra A Coluna Partida “representa a sua própria realidade”. Na altura em que pintou este auto-retrato a sua saúde estava fragilizada sendo aconselhada a usar coletes ortopédicos para fortalecer a coluna. O quadro descreve Frida com a cabeça erguida em sinal de determinação e coragem em aguentar o sofrimento. Dos olhos chovem grossas gotas de lágrimas que se derramam no ousado buço e nos lábios melancólicos. O corpo coberto de espinhos simboliza o martírio comparável ao de S. Sebastião, jovem mártir europeu. O que mais impressiona o meu olhar, é o corpo rasgado e fendido, suportado por uma coluna jónica, também ela partida em vários sítios, simbolizando a coluna fracturada de Frida. O capitel da coluna eleva o queixo, revelando um rosto capaz de suportar a dor física. O colete de aço aperta-lhe a coluna e o peito prolongando-se numa saia vaporosa apenas cravejada nalguns pontos, sinal evidente que Frida acredita na recuperação.
A paisagem desértica que envolve o auto-retrato é o prolongamento do sofrimento, também ela está marcada por profundas fendas como o corpo de Frida.
O quadro revela claramente a dor física e espiritual própria do ser humano mas revela também a vontade e a força que subjaz de escapar a essa dor.

Isabel Laranjeira

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Noite de Verão (Inger à Beira Mar), 1889


“Eu não pinto o que vejo, eu pinto o que tenho visto.”
O ano de 1889 é determinante na vida artística de Munch. O século XX aproxima-se, os ventos de mudança da arte europeia fazem sentir-se na obra Noite de Verão (Inger à Beira Mar).
A atmosfera densa e escura onde se respira doença, os tons cinza e castanho dos quadros anteriores, dão lugar ao contraste sublime do branco pérola do vestido, ao azul do mar e ao verde das rochas graníticas.
Munch, tinha pintado a sua irmã Inger com um pesado vestido preto, símbolo da tradição norueguesa do século XIX, cinco anos antes. Agora, com o vestido pérola, a jovem resplandece sentada de perfil a olhar serenamente a profundidade do mar. Os traços finos do rosto revelam a sua beleza que ainda sobressai mais com os olhos fixos na água.
O oceano azul com reflexos brancos e avermelhados das nuvens, mostra as cores esbatidas do anoitecer que se aproxima. A noite que vem do interior das rochas quase toca a bainha do vestido, querendo tingi-lo de negro. Há penedos graníticos que ainda se deleitam com os últimos raios de luz, exalando uma suavidade de cores que se misturam com a tranquilidade do mar. Neste, se olharmos bem, vemos movimento humano. Atrás das costas de Inger, há um barco de pesca e uma linha de canas que sombreia as redes onde os peixes se debatem aprisionados.
A delicadeza da luz, das cores e da figura, harmonizam-se numa totalidade, levando a afastar-me devagarinho, depois da contemplação, para não perturbar o que está aí - um acto criativo sobre a solidão e a angústia que faz parte da existência humana.
Isabel Laranjeira

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Poesia


A MORTE VIVE
Sinto horror
cada vez que penso que posso pensar
e não ser mais feliz por isso, mas menos.
Ter consciência…é não ser sensato
mas viver agrilhoado a ideias, respirar por conceitos, transpirar filosofias;
exsudar teorias, vãs tolices!
Porque o momento é que conta e não o sentido do momento.
A minha existência é que é o verdadeiro Ser,
- pelo menos o meu –
e não a essência formal, a quididade da vida.
Viver, viver, viver e apenas viver,
porque a morte é o que penso dela
e eu que penso tanta coisa, não penso nada,
como a morte que não é nada, apesar de eu viver com a consciência dela.
27/03/1996
António Paulo Gomes Rodrigues

terça-feira, 15 de julho de 2008

ÉTICA E NEGÓCIOS

É uma ideia corrente que o mundo atravessa uma grave crise económica. Estamos em crise! É igualmente uma ideia corrente que a crise ainda agora começou; prevê-se que ainda vá durar bastante e não há previsão para quando a inversão deste estado de coisas.
E cada um de nós sente, individualmente, a crise. É o aumento constante do preço dos bens essenciais, em primeiro lugar dos alimentos. Há quem vaticine que não mais teremos alimentos baratos, principalmente cereais e seus derivados – e por arrasto a carne, já que os animais alimentam-se fundamentalmente de cereais.
É o aumento constante, quase diário no preço dos combustíveis. Há quem igualmente vaticine que o petróleo jamais descerá abaixo dos 100 dólares o barril e que a tendência é para um aumento constante do preço dos combustíveis. Com o aumento do preço dos combustíveis, todos os outros bens aumentarão, já que o seu transporte provocará o aumentará o seu custo final. Além disso, o aumento do preço dos combustíveis mostra-nos o quanto somos uma sociedade frágil. Bastou 3 dias de paralisação dos camionistas para as prateleiras dos supermercados ficarem vazias de produtos frescos e igualmente vazias ficarem as bombas de gasolina.
É o aumento constante dos juros dos empréstimos, principalmente dos empréstimos para habitação. Hoje em dia, a maior parte dos portugueses, principalmente dos mais jovens, têm crédito à habitação e as prestações mensais em crescendo, fazem com que tenham que frequentemente fazer contas ao ordenado, para ver se ele chega ao fim do mês. Tudo isto faz com que muitas famílias, por razões financeiras, comecem a passar um mau bocado. Isto justifica o aumento dos créditos mal parados, dos créditos de impossível cobrança. Mas se os últimos dados estatísticos nos mostram o aumento dos créditos mal parados, mostram-nos igualmente um aumento de novos pedidos de crédito. Isto parece um contra-senso e é-o efectivamente. Cada vez é mais difícil pagar o que se deve, mas cada vez mais se recorre ao crédito. De quem será a culpa?
Primeiramente das pessoas que não sabem fazer contas e aventuram-se em novos créditos, muitas vezes para coisas fúteis. Quantas vezes não conseguem resistir ao último modelo de telemóvel, ao último modelo de LCD, ou a um novo modelo de automóvel que acabou de sair, ou a umas férias de sonho, que irão tornar a vida futura um pesadelo.
Em segundo lugar a culpa é da sociedade consumista e capitalista em que vivemos que impõe padrões de vida baseados no consumo e exclui quem não quer ou não consegue preencher esses requisitos mínimos. A pressão social é de tal ordem que há pessoas que não olham a meios para atingir os seus fins consumistas.
Em terceiro lugar a culpa é dos bancos. Quando há créditos mal parados quem perde, inicialmente é o banco, que foi este que emprestou o dinheiro e não consegue reavê-lo. Mas se é assim porque continuam a fazer campanhas agressivas ao consumo e ao crédito? Não será porque cobram juros altíssimos, que as perdas que podem ter nalguns clientes são cobertas pelos ganhos obtidos por aqueles que religiosamente pagam as prestações ao fim do mês. Apesar dos créditos mal parados e da crise financeira mundial, os bancos continuam a apresentar lucros avultados e apesar dos seus administradores ganharem vencimentos astronómicos, as famílias desesperam para pagar os seus créditos no final do mês. As refinadoras continuam a ter lucros recordes enquanto as pessoas começam a deixar o carro em casa porque não têm dinheiro para o combustível. As grandes empresas de distribuição continuam a ter lucros obscenos e a abrir cada vez mais centros comerciais, enquanto as pessoas começam a ter dificuldade em comprar os bens essenciais.
O que está a acontecer? A crise não é para todos?
Parece que não, a crise é só para o consumidor, que paga cada vez mais. A crise é para o contribuinte, que desconta cada vez mais. A crise é para o trabalhador que não vê o seu salário aumentado ou vê o seu aumento a ser comido pela inflação.
O que faz falta?
Um pouco de ética no consumo. As pessoas têm de ter uma ideia correcta dos limites do seu consumo.
Uma ética nos negócios. As empresas devem saber repartir os lucros com aqueles que lhes possibilitam esses mesmos lucros: os trabalhadores e os consumidores. Repartir os lucros é atribuir salários dignos aos trabalhadores e fazer uma política ética de preços aos consumidores.
Uma sociedade calvinista, sem ética, onde a regra que impera é a regra cega do mercado ou mais correctamente a regra do vale tudo, é uma sociedade condenada ao fracasso. E o fracasso está a um passo pequeno.
António Paulo Gomes Rodrigues
Publicado no Terras do Baroso

sábado, 12 de julho de 2008


Só conta a realidade, que os sonhos, as expectativas, as esperanças apenas permitem definir um homem como sonho malogrado, como esperança abortada, como expectativa inútil.
Jean-Paul Sartre

A era do humanismo moderno como modelo escolar e educativo foi ultrapassado porque se tornou insustentável a ilusão de que as estruturas políticas e económicas de massas podem ser organizadas segundo o modelo amigável da sociedade literária.

Peter Sloterdijk

sexta-feira, 11 de julho de 2008

As Beguinarias Flamengas

No século XII surgiram comunidades semi-religiosas semi -laicas nas cidades do Norte da Europa, nomeadamente na Flandres. Não se sabe concretamente a origem das “beguinas” – mulheres piedosas e devotas. Há estudiosos que atribuem o termo “beguino” a Santa Beggue, que teria fundado um mosteiro na Flandres em 961. Outros consideram que teria sido o Padre Lamberto de Breges, falecido em 1177, o fundador das beguinarias. Há também quem considere que a palavra “beguino” poderia ter vindo do germano, de beggen, que significa orar, mendigar.
Estas comunidades eram constituídas por mulheres, muitas delas cultas, viúvas e deserdadas que procuravam a vida contemplativa. Distinguiam-se das ordens monásticas e apenas o bispo exercia vigilância sobre elas. Eram mulheres que tinham liberdade de acção e de pensamento, reunindo-se para orar e praticar o bem. Faziam votos de obediência e de castidade, contudo, podiam subtrai-se a estes votos se o desejassem sem serem condenadas ou banidas como as religiosas das ordens monásticas. Não faziam votos de pobreza. Muitas eram ricas, possuindo propriedades e bens que administravam a favor dos necessitados. Estas piedosas mulheres teciam, lavavam e tingiam roupa com abnegação a fim de aumentarem a riqueza que revertia a favor dos pobres. Faziam primorosamente renda de bilros e croché, que se tornou tradição na Flandres, observando-se ainda hoje, em muitas janelas das casas, cortinados de fino croché. As mulheres que integravam as comunidades tornaram-se célebres pelas suas boas acções. Ajudavam os idosos, os doentes e acolhiam os necessitados.
Desde manhã até ao pôr-do-sol as portas das beguinarias encontravam-se abertas, no sentido de aí entrar quem necessitasse de ajuda.
Estas peculiares comunidades de devotas mulheres eram governadas por uma “grande-dama” ou groote juffrouw. As beguinarias maiores tinham por vezes quatro “grandes-damas”, como a de Louvaina, que hoje está integrada na Universidade.
As “beguinas” foram descritas como “quadros românticos” pela literatura flamenga.
Hoje, essas mulheres devotas já não ocupam as beguinarias, restam poucas sobreviventes que, preocupadas, não sabem o futuro destas comunidades quando falecerem.
A Unesco considerou as beguinarias flamengas Património Cultural em 1998.
Se hoje já não há mulheres virtuosas que perpetuem o legado do passado das “beguinas”, fica na memória do viajante e nas fotos de um instante, um quadro romântico destas comunidades de mulheres, que nunca mais se apagará.
Isabel Laranjeira docente de Filosofia da Escola Secundária Frei Rosa Viterbo - Sátão

terça-feira, 1 de julho de 2008


Aquele que tem um porquê por que viver consegue suportar quase todo o como.
Nietzsche

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Indomável – Uma Luta pela Liberdade

Indomável – Uma Luta pela Liberdade
Wangari Maathai, Bizâncio - Lisboa, 2007

“Indomável – Uma Luta pela Liberdade” é um livro surpreendente e verdadeiro sobre a vida de Wangari Maathai (Prémio Nobel da Paz em 2004).
No dia um de Abril de 1940 nasce esta voz de esperança mundial, num lugar recôndito das terras altas centrais do Quénia. Nesse tempo as árvores eram frondosas, a terra ainda era verde, fértil e fonte de subsistência. O solo era rico e húmido. Havia extensos campos de milho, feijão, trigo e legumes. A fome era praticamente desconhecida. É por esta terra verde que Wangari vai lutar toda a vida.
Para os locais, o Monte Quénia, conhecido como o Sítio da Claridade, o segundo mais alto do Quénia, era um local sagrado. Tudo o que era bom provinha de lá: as chuvas, os rios, os riachos, água potável. A vida era protegida pelos deuses do Monte Quénia. Mas este mundo começa a desaparecer ainda na infância de Wangari.
Os europeus tinham chegado ao Quénia no tempo dos seus avós, finais do século XIX. A Grã-Bretanha adquiriu o Quénia e os colonos recebiam títulos de propriedade para se instalarem nas terras de cultivo de trigo, milho, café, chá e de criação de gado. Muitas populações foram desalojadas e os nativos que se recusavam a ceder as terras eram levados pelos colonos para outros sítios. O tipo de economia assentava agora no dinheiro e os naturais vêem-se obrigados a trabalhar para poderem pagar os impostos. É neste contexto que se passa a primeira infância de Wangari. Os pais trabalham numa fazenda de Britânicos. As primeiras memórias da criança ocorrem a ajudar a mãe na fazenda a semear, a mondar e a fazer a colheita. Gostava sobretudo de “espreitar” as sementes para observar a germinação.
Por volta de 1947, uma transformação profunda começou a ocorrer. O governo colonial decidiu penetrar na floresta e estabelecer plantações de árvores exógenas – pinheiros, acácias predominantemente. Wangari recorda-se de enormes queimadas que destruíam as florestas naturais. Nas décadas seguintes os recursos hídricos do subsolo decresceram e por fim, os rios e os cursos de água secaram.
Wangari era uma criança mas quando regressava da escola não havia nada mais belo do que ver as sementes a germinar, as plantas a crescer até à maturação na fazenda onde os pais trabalhavam. Ficava encantada com a germinação do milho.
A capacidade de trabalho, organização e determinação levaram os pais a inscrevê-la numa escola dirigida pelas Irmãs da Consolata de Itália. Neste tempo poucas crianças tinham acesso à educação e foi com o maior gosto e facilidade que Wangari aprendeu a ler e escrever. Aprendeu inglês, geografia, história e matemática. Estes conhecimentos abriram-lhe os horizontes para a vida. Teve muitos bons resultados nos exames finais e em 1956 foi estudar para a Escola Secundária de Loreto, perto de Nairobi, capital do Quénia. Quando concluiu os estudos secundários em 1959, estava no fim a era colonial e foi necessário preparar jovens para cargos públicos e governamentais. É neste espírito que Wangari vai estudar para os Estados Unidos, ao abrigo de programas financiados por este país. Uma fundação dirigida pelo senador Kennedy responsabilizou-se por dar estudos superiores a vários jovens do Quénia. Wangari fazia parte destes jovens. Termina os estudos superiores e uma pós-graduação na área da biologia e regressa ao Quénia.
A estadia na América transformou Wangari. Começa uma nova fase. Para além do trabalho na Universidade de Nairobi, estava envolvida em organizações cívicas, entre elas, a Cruz Vermelha e o Centro de Ligação Ambiental. Gradualmente crescia nela uma consciência ambiental e a necessidade de agir urgentemente na sociedade civil.
Quando se deslocava ao campo, já não via os regatos da sua infância mas poças de lama e lodo. Os solos estavam em erosão. A vegetação era escassa, e as pessoas estavam desnutridas. Os deslizamentos de terra começavam a tornar-se frequentes e as fontes de água potável eram cada vez mais raras. Tal como na infância via as plantas a germinar, germinou na sua cabeça uma ideia: PLANTAR ÁRVORES. Sim, plantar árvores. Fundou o Movimento Green Belt. Ensinou as mulheres dos campos a plantarem árvores. Nem tudo foi fácil no inicio. Teve que lutar contra a ignorância, a ganância e a corrupção. Mais tarde surgiram apoios da ONU e estabeleceu parcerias com a Suécia.
Hoje este movimento está em acção em muitos países de África. Wangari e o movimento Green Belt plantaram trinta milhões de árvores. Cada árvore representa a luta de uma mulher que sempre viu no fracasso um desafio para seguir em frente. Esteve presa por contestar o projecto de construção de arranha-céus na maior cintura verde de Nairobi. Conseguiu evitar este erro imobiliário e devolveu, com a sua persistência, o parque às populações.
O seu lema é: “Levanta-te e Caminha”. Hoje continua a vestir a Terra “nua” mas não está sozinha. Pelo mundo fora muitas pessoas preocupadas com o planeta seguem-lhe os passos.
Pela sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, democracia e paz, a Academia Sueca reconheceu o trabalho ímpar desta mulher e do Movimento Green Belt, atribuindo-lhe o Prémio Nobel da Paz em 2004.
Hoje continua a intervir activamente nos problemas sociais, políticos e ambientais de África e de todo o Planeta.
A árvore é um símbolo de paz em África. Wangari quando soube que lhe tinham atribuído o Prémio Nobel da Paz, fez o que melhor sabe fazer: Plantou uma árvore.
O livro que acabei de resumir é a biografia desta força da Natureza que não desiste perante as adversidades da vida.
Leiam este livro e divulguem-no, desta forma estão a contribuir para a construção de um Mundo Melhor.
Isabel Laranjeira, docente de Filosofia da Escola Frei Rosa Viterbo - Sátão

sábado, 28 de junho de 2008

Há um tempo para ficar em silêncio e há um tempo para falar.
Kierkegaard

quarta-feira, 25 de junho de 2008


A recordação não tem apenas que ser exacta; tem de ser também feliz; é preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recordação. Tal como a uva não dever ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmagá-la tem grande influência no vinho, também o que foi vivido não está em qualquer momento ou em qualquer circunstância pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recordação.

Kierkegaard

quinta-feira, 19 de junho de 2008

FACTOS E FITAS

Foi publicado mais um número do jornal da EB2,3/S de Oliveira de Frades, "Factos e Fitas".

sexta-feira, 13 de junho de 2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Substituir pessoas será possível?

Hoje fala-se muito de clonagem, das suas vantagens e das suas desvantagens, mas será mesmo possível substituir alguém? Ainda não foi completamente demonstrado que sim e, na minha opinião, o homem não devia interferir dessa maneira no curso da vida. Clonar alguém é, de certa maneira, um roubo da identidade de uma determinada pessoa. Só o simples pensamento de encontrar alguém com o mesmo aspecto que o meu, mas evidentemente mais jovem, é algo muito chocante pois não seria eu, mas alguém com o meu aspecto, em tudo parecida comigo, mas ao mesmo tempo completamente diferente. Alguém com a sua própria personalidade, com os seus problemas, com os seus conflitos e batalhas. O homem não deve ter o poder de criar uma vida pelas suas próprias mãos, porque ele é um simples peão e não lhe compete ter esse poder extraordinário. É algo que nos ultrapassa, não podemos simplesmente dizer: “Hoje vou clonar a mesma pessoa”. Não temos esse direito.
Mas outra face da clonagem tem a vantagem de produzir órgãos a fim de substituir os doentes. É algo maravilhoso e nesse sentido, podemos afirmar que a descoberta da clonagem, apesar de todas as imperfeições que apresenta, é uma das maiores descobertas de sempre. Para mim, a clonagem só deverá ser permitida nesse caso, quando a pessoa envolvida precisa de um órgão saudável, que lhe permita salvar a vida. Esta é a minha opinião, a única vantagem da clonagem. Pelo simples facto de se clonar um indivíduo chamado XPTO por exemplo, que está morto, não faz com que ele regresse à vida; trata-se de uma “pessoa” com o mesmo aspecto, mas com uma personalidade própria, porque o ser Humano não é substituível.
Agora respondendo às perguntas, “Uma pessoa que sai pela última vez da mesa de operações após várias trocas de várias partes do corpo, quem é? Quem se deita na mesa de operações será o mesmo que sai?”:
Sai exactamente a mesma pessoa, não muda nada em termos psicológicos, na personalidade, na maneira de pensar, na maneira de ser ou de estar. O que muda é a parte do seu aspecto físico, mas a pessoa continua a ser exactamente a mesma. É basicamente como quando ainda somos crianças e os nossos dentes de leite caiem ou são extraídos, depois passamos a possuir outros, é claro que esses foram gerados por nós sem a intervenção do meio externo ou de terceiros (em ambos os casos existe uma perda). A única diferença para a mesa de operações é que os órgãos (por exemplo) não são nossos ou melhor não são gerados por nós e a única consequência disso é uma rejeição da parte do nosso corpo. Mas nós continuamos exactamente a mesma pessoa a nível psicológico; é claro que a nível físico poderá existir uma pequena diferença, mas a nossa personalidade não muda.

Sofia Almeida nº 6 12º A

Somos por natureza egoístas ou altruístas?

É errado dizermos que somos por natureza egoístas, ou simplesmente altruístas.
Na minha opinião, somos muito influenciados pelos momentos da nossa vida. Faz parte de nós sermos egoístas quando queremos a atenção só para nós. Mas o ser humano tem sentimentos, e é por norma um ser carente. Somos egoístas quando pensamos muito em nós. Mas há momentos em que temos que parar e olhar um bocadinho para a nossa vida, porque às vezes ninguém o faz no nosso lugar.
Sim, por vezes somos egoístas. Esquecemo-nos dos outros, e esquecemo-nos que não somos únicos no mundo. Agimos por nós e para nós. Queremos o melhor, queremos atenção, queremos tudo e todos e não queremos dar porque é nosso. E pergunto eu: Não será normal haver fases da vida em que temos que ser egoístas? Passamos a vida a ouvir dizer “tens que partilhar”, “tens que pensar no outro”, “não podes olhar só para ti”, e muito mais. Mas pensando bem, se não somos nós a pensar em nós de vez em quando, quem será? Alguém que está ocupado a fazer outra coisa? Vamos ser prudentes, não nos podemos dar ao luxo de ter sempre alguém disponível a pensar por nós. E porque temos que dar sempre um pouco de nós? Se nem sempre dão algo por nós? Não será importante para o ser humano, por vezes, querer tudo para ele, sentir-se bem e pensar que tem tudo de bom na vida?
Sei que estou a ser egoísta ao pensar assim, mas também não estou a referir que temos que ser sempre egoístas. Temos é que dividir bem as coisas: há alturas em que devemos pôr o nosso bem-estar de lado e pensar nos outros; por outro lado, há alturas em que não devemos esquecermo-nos de nós.
Para mim não faz sentido dizer que se as pessoas são egoístas não são altruístas. E vice-versa. É por isso que digo que é errado dizermos que somos por natureza egoístas, ou simplesmente altruístas. Talvez porque somos as duas coisas.
Tenho consciência que faz de nós melhores pessoas quando pensamos nos outros. E nós somos assim. Nós sabemos ver quando alguém precisa de nós. Não somos egoístas ao ponto de não repararmos em quem precisa. Há sempre alturas em que nos lembramos dos outros, nem que seja do nosso amigo. Que nos lembramos que ele existe e que precisa de nós. Damos sempre um pouco de nós. Nem que seja um sorriso quando alguém não está bem.
Somos seres carentes e ao mesmo tempo humildes. Falo por mim. Há coisas que não gosto de dividir, como por exemplo os amigos. Quero muito a atenção dos meus amigos, e quero sempre que eles sejam “os meus amigos”. Por outro lado, sou muito humilde e penso muito nos outros. Esqueço-me muitas vezes de mim porque os ponho sempre em primeiro.
Ou seja, para mim não é errado dizer-mos que às vezes temos que ser egoístas. Faz parte de cada um.
Portanto, pensamos em nós quando sentimos falta de alguma coisa e pensamos nos outros nas alturas certas.

Sara Oliveira
12ºA
Nº22

Terá o homem deixado de ser animal?

À pergunta quem é o homem, a resposta leva-nos directamente ao centro do problema. Se o homem fosse uma coisa então nós poderíamos perguntar o que ele é e defini-lo como definimos um objecto da natureza, ou então, um produto industrial. Mas o homem não é uma coisa e não pode ser definido do mesmo modo que definimos um objecto. Apesar disso, o homem normalmente é visto como uma coisa, É descrito como um operário, um gerente de fábrica, um médico, etc. Mas tais descrições dizem-nos apenas qual é a função social de um indivíduo. Por outras palavras: o homem é definido em termos de seu lugar na sociedade.
O homem não é uma coisa; é um ser vivo envolvido num processo contínuo de desenvolvimento. Em cada momento da sua vida, ele ainda não é o que pode ser e o que ainda pode vir a ser.
Relativamente à questão:”o homem será um produto da razão ou um produto do desejo?”, sou levado a responder que o homem é um produto da razão e um produto do desejo. Esta minha convicção assenta essencialmente no seguinte:
O desejo consistirá neste caso numa vivência sexual realizada, de sentir vontade de tocar e ser tocado por quem nos sentimos atraídos. Contudo entre o desejo e a acção existem motivações, vontades e intenções. O homem, ao contrário dos outros animais, leva a cabo as acções com base em objectivos e decisões. O homem empenha-se para manter a ligação entre a intenção e a acção que executa. Para o homem, o outro homem, seu descendente é, normalmente, produto de uma vontade de reflexão, de análise de consequências, em suma, de uma intencionalidade. O homem é um ser consciente e dado a esse facto, preocupa-se pela organização das suas próprias sensações, dispões da faculdade de projectar as consequências dos seus actos num futuro mais ou menos próximo, contudo, o homem pode em determinadas circunstâncias não ponderar devidamente os seus actos, não ponderar devidamente a consequência dos seus actos deixar que a força da emoção supere a da razão e acontecer que um homem seja produto do desejo. Em boa verdade o homem por mais que tenha evoluído não deixou e provavelmente nunca deixará de pertencer ao reino animal. Esta origem poderá contribuir para que o homem seja um produto consciente do desejo e é esta convicção que me leva a crer que o homem será sempre razão e desejo.

Luís Carvalho nº11 12ºC

MANUAIS ESCOLARES

Apresentamos os manuais das várias disciplinas leccionadas pelos professores do Agrupamento de Filosofia.

Filosofia 10º ano
Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão, A Arte de Pensar – Filosofia 10º ano. Lisboa: Didáctica Editora. 2 volumes, ISBN 978-972-650-761-1. Preço: 21,53€. Oferta do caderno do estudante. O manual está adoptado por um período de 6 anos (até ao ano lectivo 2012/2013)



Filosofia 11º ano
No presente ano lectivo foi adoptado novo manual de filosofia para o 11º ano Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus e Pedro Galvão, A Arte de Pensar – Filosofia 11º ano. Lisboa: Didáctica Editora. ISBN 978 – 972-650-800-7. Preço: 27,48€. Oferta do caderno do estudante. O manual está adoptado por um período de 6 anos (até ao ano lectivo 2013/2014)


Psicologia B 12º ano
Manuela Matos Monteiro e Pedro Tavares Ferreira, Ser Humano – Psicologia B – 12º ano. Porto: Porto Editora. 2 volumes. ISBN 978-972-0-43297-1. Preço: 32,16€. Para o próximo ano lectivo far-se-á nova adopção.






Área de Integração
Elsa Silva e Rosa Moinhos, Área de Integração. Lisboa: Plátano Editora. 3 volumes (Pessoa, Sociedade e Mundo).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

VIDAS FILOSÓFICAS



Daniel Dennett (n. 1942)
Daniel Clement Dennett (nascido em 28 de março de 1942, Boston, EUA) é um proeminente filósofo americano. Dennett estudou em Harvard e Oxford, e ensina hoje na Universidade de Tufts. As pesquisas de Dennet são canalisadas fundamentalmente para a filosofia da mente (relacionada à ciência cognitiva) e da biologia. Dennett é ainda um dos mais proeminentes ateus da actualidade. Para Dennett, os estados interiores de consciência não existem. Por outras palavras, aquilo que ele chama de "teatro cartesiano", isto é, um local no cérebro onde se processaria a consciência, não existe, pois admitir isto seria concordar com uma noção de intencionalidade intrínseca. Para ele a consciência dá-se não numa área específica do cérebro, mas em uma sequência de inputs e outputs que formam uma cadeia por onde a informação se move, a consciência se dá. A sua concepção da compreensão que temos uns dos outros, em termos de tomar uma "postura intencional", útil para a previsão e para a explicação, tem sido muito discutida. O debate diz respeito à questão de saber se é útil tomar essa posição em relação a objectos inanimados, e se a concepção faz verdadeiramente justiça à existência real de estados mentais. Dennett tem sido também um dos maiores exemplos de como a filosofia da mente precisa de estar informada sobre os resultados das ciências que a rodeiam. Algumas das suas obras são Content and Consciousness (1969), Brainstorms (1978), Elbow Room (1984), The Intentional Stance (1987) e Consciousness Explained (1991). (In Dicionário de Filosofia, de Simon Blackburn. Gradiva, 1997.)
Tem algumas obras traduzidas em português, das quais se destacam Tipos de Mentes, publicada em 2001 pela Temas e Debates; A Verdade Evolui, publicada em 2005 igualmente pela Temas e Debates e Quebrar o Feitiço, publicada já este ano pela Esfera do Caos Editores.

PROBLEMAS DE LÓGICA

1- Mostre o que está errado com o seguinte argumento:
Todos os grandes artistas são loucos.
Dali é louco.
Logo, Dali é um grande artista.

2- Identifique a seguinte falácia:
O Paulo, coitado, é um rapaz com muitos problemas pessoais; logo, merece passar de ano.

Resolução dos problemas do número anterior
1 – Mostre o que está errado ciom a seguinte definição:
“A maçã é algo vermelho e redondo”.
Uma boa definição deve reefrir todas as características fundamentais do tipo de coisa que queremos definir, de modo a incluir nela todas as coisas desse tipo, sem deixar nenhuma de fora. Por isso não podemos definir mação como algo vermelho e redondo, pois esta definição esquece todas as maçãs que não são vermelhas (definição demasiado exclusiva). Mas com esta definição estamos a incluir objectos redondos e vermelhos (como a bola) que não são maçâs (definição demasiado inclusiva).

2 - Tome-se a seguinte frase: “Esta frase é falsa.” Será esta frase verdadeira?
Este problema resolve-se da mesma forma que se resolveu o paradoxo do mentiroso, apresentado no número um da Katársis.

Poesia


DORES VENCIDAS
Olho para ti – dor.
Os teus olhos vítreos fixam os meus
de verdes, de água vertidos.
Dor…
Não fixes o teu olhar em mim,
não me derrotes já,
o caminho ainda é grande
e a minha vontade, alguma.
Dor…
Não me corrompas a vontade,
não me leves o sorriso
que preciso de contemplar o mar
que preciso beijar a mão de esperança.
Dor…
Não lances o teu manto lúgubre
não semeies o sofrimento nas estrelas
não plantes raízes na lua.
Deixa-me apagar as nuvens escuras,
deixa o sol iluminar,
deixa-me ter esperança.

António Paulo Gomes Rodrigues
05/06/2008

Poesia


SER-AQUI

Olho para trás –como se pudesse olhar.
Que veria? – quereria eu ver?
Só o presente existe.
Só este eterno bocejar do qual eu sou,
só esta partícula de mundo – que reclamo meu,
só a minha inócua existência.
Tudo mais é lembrança – nada foi.
Tudo mais é premonição – nada será.
Tudo o resto é fantasia.
Que alegres que são as crianças!...
E eu só e o presente.

António Paulo Gomes Rodrigues
13/04/1995

terça-feira, 10 de junho de 2008

NETFILOSOFIA


http://hermes-embuscadesophia.blogspot.com/
No dia 6 de Maio último, o grupo de Filosofia da EB2,3/S de Oliveira de Frades criou o blog Em Busca de Sophia. O blog já atingiu algum, relativo, sucesso, pois em menos de um mês foram editados mais de 40 artigos e teve mais de 1500 visitas. Apesar de jogarmos em casa (não há qualquer mal em publicitar o que é nosso) Em Busca de Sophia é a nossa sugestão deste número da Katársis.
Transcrevemos o artigo com que se iniciou o blog:
Em Busca de Sophia, vai ser o blog de Filosofia da Escola EB2,3/S de Oliveira de Frades.
O principal objectivo do presente blog é ser um precioso auxiliar nas aulas de Filosofia e um lugar de interactividade aluno-professor-saber. Com o blog é igualmente nossa pretensão diminuir o gasto da escola em papel, pois todos os documentos de apoio aos manuais adoptados irão estar sempre disponíveis on-line. Por essa razão o blog irá iniciar a sua actividade, de uma forma mais pujante, apenas no próximo ano lectivo, o que não impede que não se inicie já a postagem de algumas mensagens.
Mas não pretendemos que o blog se enclausure dentro da sala de aula de Filosofia. Queremos que ele seja uma janela aberta para a discussão de ideias em toda a comunidade escolar. Por essa razão, no próximo ano lectivo iremos, periodicamente, lançar temas para debate, principalmente na área da Ética Aplicada, esperando que as pessoas não se sintam constrangidas a manifestar a sua opinião fundamentada, publicando os seus comentários neste blog, que pretendemos ser de toda a escola.
No blog publicamos textos de interesse relativo às diversas áreas da filosofia leccionada nos 10º e 11º anos e por isso pretendemos que seja uma ferramenta de trabalhos para os professores e alunos de Filosofia da escola bem como de outras escolas que tenham interesse no blog.
O blog oferece outras funcionalidades: tem uma playlist onde podem ouvir algumas músicas bem como links de páginas da Web e outros blogs de interesse para a Filosofia.

Boas navegações…

LIDO E REGISTADO


LIVRE-ARBÍTRIO E RESPONSABILIDADE
Imagina-te a descer por uma rua, metido na tua própria vida, enquanto és subitamente confrontado por um assaltante. Sem consideração pelos teus desejos, ou sentimentos na questão, ele deita-te ao chão, tira-te a carteira, e afasta-se calmamente enquanto tu ficas a tratar das tuas feridas. Se existe tal coisa como uma acção livre, esta foi uma. Tu não te limitas a condenar o assaltante; tu e outros procurarão puni-lo, e sentir-se-ão zangados e ressentidos enquanto ele estiver livre. Ele é responsável pela tua perda, pelas tuas feridas, e pela ruína da tua paz de espírito: ele agiu deliberadamente ao causar-te sofrimento, e não se importou senão com o seu proveito próprio.
Imagina um caso ligeiramente diferente. Entregaste o teu filho por um dia ao cuidado de um amigo, tendo sido chamado a outro sítio por um trabalho urgente e sendo a criança demasiado pequena para cuidar de si. Sem má intenção, mas bebendo mais do que devia, o teu amigo deixa a criança entregue a si própria, tendo como resultado ela ser atraída até à estrada e ferida por um carro que passa. Nesta circunstância ninguém agiu deliberadamente para causar o ferimento à criança. Mas o teu amigo foi ainda assim responsável. A negligência dele foi o factor chave na catástrofe, uma vez que negligenciando o seu dever tornou o acidente mais provável. Dizer que ele negligenciou o seu dever é dizer que há coisas que ele deveria ter feito e que deixou por fazer. Estás zangado e ressentido, censura-lo; e atribuis-lhe as culpas pelo acidente à sua porta.Imagina ainda um outro caso. Pediste a alguém para olhar pela tua criança, o que essa pessoa faz escrupulosamente até que é subitamente chamada por um grito de aflição vindo da casa da porta ao lado. Enquanto ele está ausente, a ajudar o seu vizinho, que teria morrido sem o seu apoio, a tua criança deambula até à estrada e é ferida. Primeiro declaras a responsabilidade do teu amigo, estás zangado e recriminador; mas ficando a saber de todos os factos, ficas a ter o conhecimento de que ele agiu correctamente, dadas as circunstâncias, e que não é portanto de culpar.
Os três casos ilustram a ideia, fundamental a todas as relações humanas. Mostram que uma pessoa pode ser declarada responsável, não apenas por aquilo que faz deliberadamente, mas também pelas consequências daquilo que não faz. E mostram que a responsabilidade é mitigada por desculpas e aumentada pela negligência ou pela indiferença auto-centrada. Se se estudar a lei da negligência ou o conceito geral da “responsabilidade diminuída”, ver-se-á que a distinção absoluta que podemos ser tentados a desenhar, entre acções livres e não livres, não é mais do que um verniz filosófico numa distinção que não é de todo absoluta, mas uma distinção de grau. As pessoas são a matéria de uma constante contabilidade moral, e as nossas atitudes em direcção a elas são moldadas por isso. Este é o âmago da prática social, o qual confere ao conceito de liberdade o seu sentido.
SCRUTON, Roger, Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes, 2007. Lisboa: Guerra e Paz Editores S.A., pp. 122-123