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sábado, 27 de fevereiro de 2010

INTIMIDADE E AMIZADE



A amizade é a base de todas as relações sociais, consideradas positivas. É uma das formas mais significativas da intimidade. Numa relação de amizade requere-se, acima de tudo, confiança, respeito e lealdade mútuas. Definir a amizade é algo difícil, independentemente do número de amigos que se tem ou teve, independentemente da nossa idade ou das relações anteriores.
Entre um sem número de expectativas e características possíveis, o seu grau de relevância varia de pessoa para pessoa, sendo por isso subjectivo falar de amizade, sem referir casos concretos. Os vários tipos e graus de afecto e partilha derivam de um conjunto de factores como a idade, o sexo, o contexto social e/ou as caracterísitcas próprias de cada indivíduo.
Falar de amizade não é, portanto, algo completamente linear. Fazer a distinção entre este e outros tipos de interacções sociais é um bom princípio. A reciprocidade, atracção pessoal, positivismo, confiança, durabilidade, lealdade, informalidade e a intimidade, são alguns dos aspectos que numa relação de amizade se pretende, por forma a facilitar os objectivos que os envolvidos procuram atingir.
E, se há objectivos, existem expectativas. Defender o amigo quando este se encontra ausente, partilhar acontecimentos relevantes, apoiá-lo emocionalmente, de forma espontânea e voluntária, sempre que necessário, confiar e ser verdadeiro para com ele, são algumas delas. É por isto que a amizade é a base do bem - estar em sociedade, pois ela, através da socialização, ajuda-nos a conhecer novas ideias, novas formas de vida e relacionamento, permite-nos ultrapassar obstáculos com a ajuda de amigos e, com a sua existência, haverá uma melhor predisposição para encarar cada dia.
A amizade é algo muito importante que devemos salvaguardar durante toda a vida. Com ela combate-se a solidão, o conformismo, o hospitalismo, os preconceitos e a discriminação. Com a amizade crescemos; com amigos nos formamos.

Ricardo Batista, 12ºB

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

DA RECTA CLARIDADE DOS TEUS PASSOS



Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua transparência.
Sem transparência.
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por não te ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...

Miguel Torga, Obra Poética

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

HOJE É DIA DE HAENDEL


Nascido em Halle, Alemanha, a 23 de Fevereiro de 1685, Georg Friedrich Haendel era filho de Georg Haendel.
Seu pai ia com freqüência a Wersenfels e certa vez levou o filho. Ao notar o interesse do menino pela música, o Duque João Adolfo aconselhou o pai a contratar um professor de música. Assim o cirurgião contratou Wilhel Zachau, excelente músico, que passou a dar aulas a Haendel: órgão, cravo, violino, oboé e fundamentos de Harmonia. Mas como condição, Haendel prometeu que estudaria Direito.
Em 1696, aos doze anos, escreveu suas primeiras sonatas para oboé e cravo.
Com a morte de seu pai em 1697, Haendel decidiu-se pelo curso de Direito, em memória do velho Georg. Entrou para a Universidade de Halle em 1702. Sem abandonar a música,dividia-se entre os estudos jurídicos, as funções de organista.
Em 1707 apresenta sua primeira ópera em italiano, Rodrigo, em Florença, com êxito. Este sucesso animou-o a prolongar sua viagem até Veneza, um grande centro musical, onde travou conhecimento com o Príncipe Ernest de Hanover e fez amizade com Domenico Scarlatti.
Foi convidado para ser mestre-de-capela da corte de Hanover, cargo que ocupou em 1710.
No início de1711 viajou para a Londres, aceitando um convite. Após a morte de Purcell a música inglesa não se desenvolvera. Tudo era importado da Itália: partituras, libretos e até músicos. Desta maneira ele foi muito bem recebido pela corte inglesa. Em retribuição, escreveu a ópera Rinaldo. No ano de 1714 tornara-se compositor da corte inglesa.
Em 1719, a prosperidade económica da Inglaterra favoreceu a fundação da Academia Real de Música, sendo contratado como director.
Assoberbado de trabalho, esgotado e cheio de preocupações, Haendel sofre um ataque de apoplexia que lhe imobilizou o lado direito, obrigando-o a um período de descanso. Alguns meses mais tarde estava de volta a Londres, dizendo-se recuperado. Retornou a seu antigo ritmo de trabalho: óperas, concertos, a publicação de obras, o projecto de reunir uma nova equipa de artistas e a fundação da "Sociedade de Ajuda a Músicos Pobres. Apesar das dificuldades financeiras, Haendel conservava o seu prestígio e, ainda em 1738 publicou seis Concertos para órgão Opus 4.
Em 1741, o teatro italiano falia efectivamente na Inglaterra. Haendel apresentou as suas duas últimas óperas ( Imeneu e Deidamia ) mas os espectáculos foram boicotados pelo público, sob a influência dos seus opositores.
Magoado, Haendel foi para a Irlanda e lá encontrou calor, reviu amigos e deu inúmeros concertos. Apresentou O Messias, que dedicou aos irlandeses.
Voltou a Londres mais descansado e retomou a rotina de trabalho, dedicando-se à composição de concertos e música de câmara.
Em 1746, pôr ocasião de uma tentativa de invasão a Londres, pelo escocês Charles Edward, que pretendia tomar o poder, Haendel uniu-se aos patriotas ingleses, compondo o "Hino para os Voluntários de Londres". Após a derrota das tropas de Edward, Haendel escreveu "A Song of Victory over Rebels". Estas obras restituíram-lhe a popularidade. Após 35 anos a serviço da Inglaterra, Haendel consagrava-se, finalmente, como seu compositor nacional.
Em 1749, passa a dedicar parte de seu tempo ao Foundling Hospital, fundação para a educação de crianças abandonadas. Contribui com apresentações de concertos e ocupa-se pessoalmente do repertório musical desta instituição.
Mas, quando compunha a obra Jephtah, sente os primeiros indícios da cegueira em 1753.
Profunda tristeza se apossa do velho "Urso Branco", e apenas o reconfortam as notícias de que as suas obras, em particular O Messias, alcançam grande sucesso.
No dia 11 de abril, o compositor, confessa desejar morrer na Sexta Feira Santa. Mas morre no dia 14, Sábado da Ressurreição, e toda a Inglaterra chora. É enterrado na Abadia de Westminstes - no Canto dos Poetas.
Retirado e adaptado da Net, (com algumas alterações na estrutura frásica.)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

MUNCH


" Pintei os traços e as cores que afectaram o meu olhar interior. Pintei de memória sem nada acrescentar, sem os pormenores que já não via à minha frente. É esta a razão da simplicidade das minhas telas, do seu óbvio vazio. Pintei as impressões da minha infância, as cores esbatidas de um dia esquecido."

Eduard Munch

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

MÃOS DO SAPATEIRO


No clandestino recanto
em que sentado labuto
os pespontos do meu canto,

neste perdido reduto
em que as mãos amadurecem
a peça que fugirá
das mãos dos que não merecem
para andar ao deus-dará
num universo de espanto

em que o amor vai curtido,
calado, surdo, tingido
de uma cor que é o sentido
da salvação que acalento

aqui me caio e levanto

in... O Livro do sapateiro - Pedro Tamen, Dom Quixote

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

IMMANUEL KANT


Immanuel Kant(1724–1804)

Filósofo alemão, fundador da filosofia crítica. Filho de um seleiro, Kant nasceu e estudou em Königsberg (Kaliningrado), na Prússia oriental. Depois de acabar a universidade, foi preceptor durante alguns anos, mas ao alcançar o grau de mestre em 1755, começou a ensinar vários assuntos como Privatdozent. As primeiras obras de Kant tratam de física e astronomia: a sua Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (1755, trad. ing. Universal Natural History and Theory of the Heavens, 1969) previa a existência do planeta Urano, mais tarde descoberto por Herschel em 1881. Em 1770 foi nomeado para a cadeira de lógica e metafísica em Königsberg. Foi depois disto que entrou no seu aclamado período "crítico". A sua vida era de uma regularidade caricatural: nunca deixou Königsberg e nunca casou.
A paisagem intelectual na qual Kant começou a sua carreira era em grande parte dominada por Leibniz, se bem que filtrada por Wolff, que tinha erigido um sistema ordenado e metódico a partir do pensamento daquele. Wolff acreditava que o princípio da razão suficiente, assim como muita da metafísica resultante, poderiam ser conhecidos a priori, apesar de o estatuto deste conhecimento ter sido já nessa altura colocado em dúvida por homens como Crusius. Contudo, achava-se em geral que a "intuição" nos fornecia conhecimento e que era além disso garantida por Deus, de maneira que estava tudo bem. Na sua obra pré-crítica Sonhos de Um Visionário (Träume eines Geistersehers, 1766), a mais hostil à metafísica de todas as suas obras, Kant trata as especulações de Crusius e Wolff, tal como as imagens espirituais de Swedenborg, como algo que gira à volta de nada. O primeiro passo em direcção à filosofia crítica foi a Dissertação de 1770 (título latino: De Mundi Sensibilis atque Intelligibilis Forma et Principiis), na qual Kant revela pela primeira vez a sua ideia de que só podemos ter conhecimento a priori do espaço e do tempo porque estes são formas impostas à experiência pela nossa própria mente. O espaço é um "esquema, assegurando por uma lei constante da natureza da mente a coordenação de todo e qualquer sentido externo". A Dissertação prenuncia temas que seriam aprofundados ao longo dos dez anos seguintes: a origem subjectiva do esquema do espaço e do tempo, a distinção que ela cria entre as coisas tal como são em si e tal como são para nós, e a distinção entre experiência e pensamento.
A Crítica da Razão Pura (Kritik der reinen Vernuft, 1781, conhecida como a primeira Crítica) expande estes temas de maneira a abranger todas as categorias usadas no pensamento. O seu objectivo é "assegurar à razão as pretensões a que tem direito, e afastar quaisquer pretensões sem fundamento, não através de decretos despóticos, mas de acordo com as suas próprias leis eternas e inalteráveis" (Prefácio à primeira edição). Em resposta à sua questão orientadora (como é possível o conhecimento sintético a priori?), a primeira parte da obra isola categorias legítimas e fornece-lhes uma "dedução transcendental", garantindo a sua aplicabilidade objectiva ao mostrar que sem elas a própria experiência é impossível. Um dos passos centrais de Kant é argumentar que a unidade da consciência pressupõe uma experiência organizada segundo leis universais e necessárias. É esta parte da sua obra que constitui a tentativa de resposta ao cepticismo indutivo e à subjectividade da causalidade, ambos deixados por Hume. (A famosa observação de Kant que terá sido Hume a despertá-lo do seu sono dogmático aparece em 1783 nos Prolegómenos a toda a Metafísica Futura, mas na verdade a influência de Hume sobre a primeira Crítica é bastante pequena.) Uma vez estabelecida a origem e autoridade legítima da razão, Kant volta-se, na secção da primeira Crítica intitulada Dialéctica, para os casos em que as pretensões da razão saem frustradas, produzindo assim a metafísica dogmática que procura estabelecer doutrinas sobre a natureza do eu, a constituição do espaço e do tempo como uma ordem independente, e a possibilidade de conhecer de Deus.
A primeira Crítica é uma preparação para o problema da razão prática, sobre o qual deteve depois a sua atenção. Uma vez lançados os fundamentos para uma filosofia crítica, Kant produziu a Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, 1785, trad. 1960) e a Crítica da Razão Prática (Kritik der praktischen Vernunft, 1788, trad. 1985 e conhecida como a segunda Crítica). Kant afirmou que "duas coisas inspiram à mente uma admiração e um temor tanto maiores quanto mais vezes e mais detidamente reflectimos sobre elas: o céu estrelado por cima de nós, e a lei moral dentro de nós" (conclusão da segunda Crítica; uma fórmula idêntica pode encontrar-se em S. João Crisóstomo, que deriva por sua vez do Salmo 19). A sua ética é baseada, sem quaisquer compromissos, na procura de um único princípio supremo da moralidade, um princípio, para mais, com autoridade racional, conduzindo as paixões, em vez de se deixar conduzir por elas, e a si sujeitando todas as criaturas racionais. A origem de todas as acções encontra-se num princípio subjectivo, ou máxima, e o valor moral de um indíviduo depende inteiramente da máxima da sua acção consistir no respeito pela lei e no dever de obedecer ao imperativo categórico. As aplicações que o próprio Kant faz deste teste proíbem a mentira, o suicídio, a revolta contra a ordem política estabelecida, o sexo solitário e a venda do nosso próprio cabelo para fazer perucas, mas a questão de saber até que ponto se consegue destrinçar a sua ética da sua matriz luterana é controversa. A restrição do valor moral a um tipo específico de preocupação como o dever, efectuada por Kant, parece frequentemente denegrir as virtudes humanas normais, tais como a benevolência, mas os comentadores tentam encontrar um Kant mais humano por detrás da ética severa e rigorosa do respeito pela lei. A associação da liberdade com a capacidade de autocontrolo e autolegislação, e a necessidade prática de pensar em termos de um Deus justo que sustenta a ordem moral são alguns dos outros componentes contestados do seu sistema ético.
A terceira Crítica, a Crítica da Faculdade do Juízo (Kritik der Urteilskraft, 1790) confronta a dificuldade de tornar objectivos os juízos estéticos, quando eles não são feitos de acordo com uma regra, mas em resposta ao prazer subjectivo. Kant relaciona o nosso direito de exigir o acordo das outras pessoas em tais matérias com uma concepção teleológica da natureza, orientada por fins, uma ideia partilhada pelo romantismo deste período, e ao qual ele emprestou a sua enorme autoridade (ver também estética). A preocupação de Kant com as bases da metafísica e do conhecimento não tinha no entanto desaparecido, uma vez que foi nesta altura que ele produziu os Fundamentos Metafísicos da Ciência da Natureza (Metaphysishe Anfangsgründe der Naturwissenschaft, 1786). Esta obra trata da natureza do movimento, da matéria e da massa, e expõe uma espécie de teoria de campo que acabaria por exercer alguma influência na física do século XIX. A Religião nos Limites da Simples Razão (Die Religion innerhalb der Grenzen der bloßen Vernunft, 1793, trad. 1992), com a qual Kant acabaria por ter problemas com a censura religiosa repressiva de Frederico Guilherme II da Prússia, a Paz Perpétua (Zum ewigen Frieden, 1795) e Die Metaphysic der Sitten, 1797 (trad. geralmente como A Metafísica dos Costumes, mas que muitas vezes aparece em duas partes distintas: Princípios Metafísicos do Direito e Princípios Metafísicos da Virtude), são algumas das suas últimas obras.
Apesar da dificuldade notória de ler Kant, tornada mais aguda pela sua tendência para a sistematização escolástica e para a terminologia obscura, o seu lugar como o maior filósofo dos últimos três séculos é indisputável. Foi ele que rompeu pela primeira vez decisivamente com o empirismo sensacionista que prevaleceu no século XVIII, mas sem no entanto se refugiar num racionalismo indefensável. Apesar de a sua confiança no a priori e na estrutura do seu idealismo terem sido largamente rejeitados, não estaremos a exagerar se dissermos que toda a epistemologia, metafísica e até a ética modernas foram implicitamente afectadas pela arquitectura por si criada.
Simon Blackburn - Universidade de Cambridge
Texto de Dicionário de Filosofia (Lisboa: Gradiva, 1997).
Retirado de Textos de apoio ao Manual A Arte de Pensar, 10ºAno - Didáctica Editora

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

JOHN STUART MILL


John Stuart Mill(1806–1873)
Simon Blackburn
Universidade de Cambridge
Filósofo e economista inglês, é o pensador liberal mais influente do século XIX. Filho de James Mill, John Stuart recebeu uma educação particular intensiva, a qual o iniciou no grego com três anos de idade e no latim (bem como em seis dos diálogos de Platão) com oito anos de idade (o próprio Mill comenta que o Teeteto talvez tenha sido um pouco demais para ele). Viveu a sua adolescência imerso nos interesses filosóficos e políticos do seu pai, até que um colapso nervoso, aos vinte anos de idade, o conduziu a uma reavaliação e a uma moderação da sua posição benthamiana. Daí em diante, influenciado por Saint-Simon e por outros, Mill defendeu uma apreciação mais sofisticada da influência das forças históricas na formação das ideias das pessoas e uma perspectiva menos cínica sobre as forças de reacção. A partir de 1831, a sua amizade com Harriet Taylor, uma senhora casada, foi determinante para a sua vida. Em 1849, após a morte do seu marido, casaram. Harriet Taylor morreu em 1858, em Avignon. A natureza da sua influência no pensamento de Mill é interessante e complexa.
Na filosofia em geral, Mill era um empirista cujo objectivo consistia em construir um sistema de conhecimento empírico genuíno, para uso tanto nas questões sociais e morais como na ciência. Com este fim em vista, começou por resgatar a doutrina das suas reminiscências cépticas humianas. A sua principal discussão acerca dos fundamentos do conhecimento e da inferência está patente na obra System of Logic (1843), cujos seis livros tratam da inferência dedutiva em geral, do conhecimento matemático, da indução, da observação, da abstracção e classificação, das falácias e finalmente das ciências sociais, políticas e morais. A sua distinção entre conotação e denotação, e entre termos gerais e termos singulares, influenciaram a semântica posterior de Frege (que, contudo, rejeitou inteiramente a sua concepção empirista "vulgar e de mau gosto" da aritmética), enquanto a sua obra acerca da indução constitui ainda o fundamento das metodologias de descoberta de leis causais. Como se pode ver numa das suas últimas obras, Examination of Sir William Hamilton's Philosophy (1865), o projecto de Mill pertence ao que viria mais tarde a ser baptizado como epistemologia naturalizada: a tentativa de compreender as operações mentais como o resultado da acção de leis conhecidas da psicologia sobre os dados da experiência.
Na ética, Mill é conhecido sobretudo pelas suas obras Utilitarianism (1861 na Fraser's Magazine, 1863 numa publicação separada, trad. Utilitarismo, 1976) e On Liberty (1859, trad. Ensaio sobre a Liberdade, 1964). Cada uma delas é um clássico do seu género, embora o Utilitarismo padeça de uma tensão vitoriana, pela sua combinação de hedonismo com distinções de qualidade entre os prazeres, bem como pela difícil mistura entre elementos de utilitarismo dos actos e utilitarismo das regras. Foi o principal alvo de todos os críticos do utilitarismo posteriores, e especialmente dos idealistas Green e Bradley. Da Liberdade é a defesa clássica do princípio da liberdade de pensamento e de discussão, argumentando que o "único fim pelo qual a humanidade está autorizada, individual ou colectivamente, a interferir na liberdade de acção de qualquer um dos seus é a sua própria protecção". Entre outras obras, Mill escreveu Principles of Political Economy (1848) e Subjection of Women (1861, publicado em 1869).
Simon Blackburn
Dicionário de Filosofia, (Lisboa: Gradiva, 1997).
Retirado de Textos de Apoio ao Manual A Arte de Pensar- Didáctica Editora

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MORRESTE-ME


"É o teu rosto que encontro. Contra nós, cresce a manhã, o dia, cresce uma luz fina. Olho-te nos olhos. Sim, quero que saibas, não te posso esconder, ainda há uma luz fina sobre tudo isto. Tudo se resume a esta luz, fina a recordar-me todo o silêncio desse silêncio que calaste. Pai. Quero que saibas, cresce uma luz fina sobre mim que sou sombra, luz fina a recortar-me de mim, ténua, sombra apenas. Não te posso esconder, depois de ti, ainda há tudo isto, toda esta sombra e o silêncio e a luz fina que agora és.
Pai. Eu, a minha mãe. A madrugada. Desinteressado do nosso cansaço, o sol levantou-se no céu. E parou. O sol parou. Entre mim e ela deixou de haver tempo. Parou o tempo. Nos meus olhos, a tua mulher sem ti, a tua viúva. Nos seus olhos, eu. E sobre nós, em nós, tu, a tua presença, a tua ausência. E separados por nada, os olhares maciços, um dentro do outro e esse dentro do primeiro; os dois olhares na unidade fixa de um único."

José Luís Peixoto, morreste-me - Temas e Debates, Maio de 2000

José Luís Peixoto
Nasceu em 1974, em Galveias, concelho de Ponte de Sôr (Portalegre). É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa. Publicou, durante vários anos, textos de poesia e prosa no suplemento DN Jovem. Foi, durante alguns anos, professor do ensino secundário, tendo dado aulas na Lousã, em Oliveira do Hospital e na Cidade da Praia, em Cabo Verde.
Vencedor do Prémio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude nos anos de 1998 e 2000, tinha já publicado, antes de Nenhum Olhar, vários conjuntos de poemas, nos cadernos Átis, e a ficção breve Morreste-me, dada à estampa em Maio de 2000, numa edição de autor rapidamente esgotada.
Em Outubro de 2000 publicou, na Temas e Debates, o seu primeiro romance, Nenhum Olhar, que lhe valeu de imediato um largo reconhecimento da crítica, plenamente confirmado com o facto de ter vencido, no ano seguinte o Prémio José Saramago, da Fundação Círculo de Leitores, e foi considerado finalista para a atribuição de dois dos mais importantes prémios literários desse mesmo ano: o Grande Prémio de Romance e Novela da APE e o Prémio do Pen Club.
Foram estes dois livros que, já traduzidos em quatro línguas e em negociação para várias outras, lhe garantiram o lugar que hoje ocupa como um dos jovens romancistas de maior destaque na Europa.
O livro de poesia A Criança em Ruínas, lançado em 2001 e com edições sucessivas, constituiu um novo êxito de público e de crítica.
O lançamento de Uma Casa na Escuridão (romance) e de A Casa, a Escuridão (poemas), feito em simultâneo em Outubro de 2002, é outro marco importante no percurso do autor, pela originalidade de uma ficção e de um livro de poemas que remetem para um mesmo e fortíssimo universo ficcional.
Tendo representado Portugal em diversos eventos literários internacionais (Paris, Madrid, Frankfurt, Zagreb, entre outros), foi em 2002 o primeiro autor português convidado para a residência de escritores na Ledig House, em Nova Iorque.
É colaborador regular de vários jornais e revistas como o DNA (Diário de Notícias), e o Jornal de Letras.
Retirado da Internet -Wook

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

NELSON MANDELA


Passam hoje vinte anos sobre a libertação de Nelson Mandela. No dia onze de Fevereiro de 1990, foi libertado saíndo da prisão onde viveu mais de um quarto da sua vida.
Para compreenderes melhor a vida deste Homem, divulgo um texto retirado do Jornal Público.

"O que mais surpreendeu Nelson Mandela, no dia da sua libertação, foi ver tantos brancos, juntos nas ruas com os negros, a festejar a sua saída. Disse-o no dia seguinte, na residência do arcebispo Desmond Tutu no primeiro amanhecer em liberdade depois de 27 anos na prisão. Estava "absolutamente surpreendido" por perceber que tantos sul-africanos se identificavam com o que estava a acontecer na África do Sul, um novo país que nascia e onde, dizia Mandela, havia lugar para todos. Confessou não ter palavras para transmitir o que sentira no momento em que passou os portões da prisão de Victor-Verster, há precisamente 20 anos. "Sou incapaz de descrever os meus próprios sentimentos. Foi de cortar a respiração. É tudo o que posso dizer."
Falava com ar calmo, nessa sua primeira conferência de imprensa, frente a 200 jornalistas. Quando foi preso, em 1964, não havia televisão na África do Sul. E em 1961 dera clandestinamente uma entrevista a um jornalista britânico do canal ITN. Mas esta era a sua primeira vez nas televisões da África do Sul e do mundo inteiro. A única imagem que dele existia de todos esses anos - a única tirada com a sua autorização e depois divulgada, pelo menos - era uma fotografia feita no pátio da cadeia junto ao seu companheiro de luta e de prisão Walter Sisulu, em 1964, nos primeiros tempos em Robben Island.
Durante todo esse tempo, a divulgação da sua imagem fora proibida. Por isso, no dia da sua libertação, à euforia e aos cantos de alegria juntou-se o espanto de ver um homem envelhecido, digno e sereno caminhar sem sinais de rancor. Com 71 anos, Mandela tinha passado mais de um terço da sua vida preso. Muitos não sabiam o que ver no homem de quem o Governo tinha banido qualquer imagem, qualquer mensagem.
Só em 1985, num comício no Soweto, em Joanesburgo, a sua filha Zindzi pôde passar a mensagem que trazia de uma das raras visitas autorizadas ao pai. No discurso que ela leu, Mandela, a quem as autoridades tinham oferecido a hipótese de uma saída da prisão sob estritas condições, queria deixar claro que só o aceitaria quando os outros presos políticos fossem libertados, o povo livre e o seu movimento, o Congresso Nacional Africano (ANC), legalizado. "A vossa liberdade e a minha liberdade são inseparáveis", dizia.
No dia em que foi libertado, muitos sul-africanos, sobretudo os mais jovens, nunca tinham visto o dirigente do ANC. Antes de ser condenado a prisão perpétua por traição e sabotagem, Mandela passara vários anos na clandestinidade, tornara-se invisível.
Tinha criado a ala militar do ANC e defendia a luta armada (mas nunca tendo como alvo a população civil) como única forma de resistir a um regime que usava a força contra o povo. Era considerado de tal modo perigoso pelo Governo que este o deixou preso, escondido e sem ser fotografado durante 27 anos, primeiro na prisão de alta segurança de Robben Island, numa ilha ao largo da Cidade do Cabo, depois na prisão de Pollsmoor, e, finalmente, na cadeia de Victor Verster.
A ideia de Mandela que o Governo do apartheid fazia passar era a do líder de um movimento terrorista. E era ainda mais perigoso porque inteligente. Ele próprio, advogado, assumira a sua defesa no julgamento de Rivonia. E aí, como depois no discurso da Cidade do Cabo, disse que lutava contra a dominação branca, da mesma forma que combatia a dominação negra. Acreditava numa nação com oportunidades iguais para todos, com eleições livres em que a cada homem correspondesse um voto.
Para muitos jovens era um símbolo. De uma luta.
Símbolo de coragem
Com as mudanças políticas e o anúncio, nove dias antes, a 2 de Fevereiro de 1990, do Presidente F. W. De Klerk de que seria libertado incondicionalmente, Mandela passou de símbolo da opressão a símbolo da coragem.
E porque escolheu quando e como saiu da prisão, porque caminhou e não foi transportado de carro da prisão, porque não exultou à saída nem se queixou dos anos de privações, porque não trazia na sua expressão nenhuma das marcas de um homem que tinha estado atrás das grades mais de um quarto de século, Mandela tornou-se maior que o símbolo. E mostrou que uma lenda fica maior e não mais pequena quando se torna humana, escreveu o ensaísta irlandês Fitan O"Toole, numa homenagem a Mandela.
"Não sabíamos como ele seria. Mas o simples facto da sua libertação representava tudo aquilo que tínhamos querido alcançar", testemunhou à BBC a jornalista da estação Audrey Brown, que já em 1990 trabalhava num pequeno jornal anti-apartheid. "Ri-me e entreguei-me a uma alegria delirante porque tudo, de repente, parecia possível, como sabíamos que seria quando, em crianças, lançávamos pedras ao gigante que era o apartheid", disse, acrescentando: "E chorei porque tantos amigos e familiares tinham morrido a tentar concretizar isto, à espera disto."
Para muitos jovens este era o momento em que viam Mandela pela primeira vez. O verdadeiro Mandela, não o do slogan em t-shirts ou posters que começaram a aparecer nas semanas que antecederam a sua libertação ou o do ar desafiador que a propaganda do apartheid difundira para sustentar a tese de que era o líder de um movimento terrorista.
"Foi a primeira vez na minha vida que realmente vi o homem. Foi uma experiência verdadeiramente comovente", disse à AFP Siraaj Cassiem, na altura um activista anti-apartheid de 18 anos. David Teek tinha 23 anos e também nunca tinha visto uma fotografia de Mandela dos tempos da prisão. "E, no entanto, ele parecia tão longe do monstro assustador que era como o Estado o tinha retratado", disse num dos vários testemunhos recolhidos pela BBC. "Ouvi-lo falar foi um momento incrivelmente emocionante. Pouco depois da queda do Muro de Berlim [em 1989], os anos 1990 pareciam-nos a todos como um momento de viragem."
Imagens interditas
Mandela tinha estado preso e interdito - não era possível citá-lo nem mostrar as suas fotografias. Ao apagar-se a imagem tentou fazer-se desaparecer o homem. Mas terá esse interdito jogado a seu favor, ampliando o mito? Ou, como hoje, o líder não existiria, se dele não se vissem imagens?
"A imagem de Mandela [a sair da prisão] teve uma força imensa, talvez até maior porque o desconhecíamos", diz Diana Andringa, que esteve presa pela PIDE, e que além de jornalista e realizadora de vários documentários está ligada ao movimento Não Apaguem a Memória. "Esse mistério aumentou muito a emoção no minuto em que ele sai." A sua invisibilidade pode ter ampliado "a aura romântica do preso", explica.
Apesar da tensão e dos riscos que muitos sentiam, num país à beira de uma guerra civil, Mandela saiu a caminhar, acompanhado da mulher, Winnie, antes de entrar num carro que os levou à Cidade do Cabo, a cerca de 60 quilómetros dali. Pouco passava das quatro da tarde na África do Sul. Era domingo e estava um calor abrasador. "Lembro-me que ele saiu da prisão com um sorriso", disse à BBC Deborah Jane Cairns, que na altura tinha 11 anos.
Milhões de pessoas no mundo acompanhavam o momento pela televisão. E milhares de sul-africanos tinham ido a pé ou de autocarro para ouvir o seu primeiro discurso em liberdade na varanda da Câmara Municipal da Cidade do Cabo. Para o verem.
Para a realizadora Susana Sousa Dias, "este interdito sobre a imagem de Mandela acaba por ser um acto de violência que ganha uma grande relevância com os 27 anos de prisão". Porém, reconhece: "Ele podia estar presente através da imagem e esteve, afinal, omnipresente."
"O Governo sul-africano tentou apagar Mandela, favoreceu o desaparecimento [da sua imagem]. E fez isso justamente devido à importância da imagem", continua Susana Sousa Dias, também professora da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. "Se tivéssemos imagens de Mandela, tínhamos o reflexo da pessoa, a dimensão humana. E era isso que o Governo sul-africano queria evitar a todo o custo."
Mais de 500 mil pessoas encheram as ruas, descreveu o repórter da BBC que acompanhou as horas da libertação. A alegria em townships como o Soweto contrastou com a tensão e os motins nalguns bairros de brancos onde entraram negros. "Entrámos nas ruas de Joanesburgo, desafiando a polícia, entoando os nossos cânticos de vitória. Eles expulsaram-nos e bateram-nos", contou ainda a jornalista da BBC Audrey Brown.
À alegria visível e à tensão latente juntou-se o medo de que Mandela pudesse ser assassinado por algum grupo extremista. O atraso e a espera contribuíram para os receios.
Firmeza no discurso
Mandela chegou à Câmara Municipal da Cidade do Cabo para o discurso cinco horas depois do previsto. E quando tomou a palavra em público, pela primeira vez em pelo menos três décadas, não olhou para o passado. Mas também não foi tão apaziguador como se esperava. Deixou clara a sua lealdade ao ANC e manteve o desafio ao Partido Nacional do Presidente Frederik De Klerk para cumprir a promessa e prosseguir a negociação que levaria às primeiras eleições livres de 1994. "A nossa luta atingiu um momento decisivo. A nossa marcha para a liberdade é irreversível", afirmou.
Mandela defendia uma continuação da luta armada e das sanções internacionais ao regime, se persistissem as razões que tinham originado ambas. Nos dias que se seguiram, iniciou um périplo por várias cidades sul-africanas. Num grande comício no estádio do Soweto, milhares de pessoas entoaram o hino dos movimentos de libertação negros, Nkosi Sikelele iAfrika (Deus abençoe África), até então proibido.
"Toda a gente queria saber o que este homem tinha para dizer e o que planeava fazer agora que estava livre", disse num testemunho à BBC Kevan Heesom, que era criança quando Mandela foi libertado. Vinha de uma família inglesa branca e frequentava uma escola numa área "muito africânder", contou, onde os professores proibiram os alunos de ver televisão e ouvir rádio nas semanas que antecederam o dia da libertação. Também o discurso de De Klerk a anunciar a libertação incondicional de Mandela, dias antes, tinha sido transmitida em directo para os Estados Unidos, mas em diferido e apenas por excertos na televisão estatal sul-africana. Esse discurso foi mais tarde descrito como o princípio do fim do regime segregacionista, "os 30 minutos que fizeram ruir o apartheid".

Retirado do Jornal Público, 11de Fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CONCURSO DE FOTOGRAFIA


Se gostas de fotografia,
Se gostas de estar atento à singularidade da vida,
Se gostas de captar e eternizar imagens,
participa no CONCURSO de FOTOGRAFIA lançado pelo Clube.

REGULAMENTO
Objectivos:
O Concurso é uma iniciativa do Clube de Fotografia, que tem por objectivos a procura da fotografia enquanto forma de expressão artística e estímulo da criatividade daqueles que gostam de captar e fixar imagens.

Art. 1
O Concurso é aberto a toda a Comunidade Educativa.
Aos membros do júri é vedada a participação.

Art.2
O tema do Concurso é : A Biodiversidade

Art. 3
Trabalhos
Os trabalhos poderão ser a cores e/ou a preto e branco (p&b).
Cada participante pode apresentar até três trabalhos.
Os trabalhos deverão ser apresentados em formato 20 x 15 cm.
Os trabalhos deverão ser entregues em subscrito fechado, em cujo exterior figurará apenas o pseudónimo do concorrente. No verso de cada trabalho deverá constar em letra legível o título da fotografia e a indicação do local de recolha da imagem.
Juntamente com os trabalhos deverá ser entregue um subscrito fechado contendo o nome, e-mail e no exterior a indicação do pseudónimo.

Art. 4
Prazo de entrega
Os trabalhos deverão ser entregues em mão, até ao dia 19 de Março de 2010 aos professores: Jorge Marques, Isabel Laranjeira, Maria João Vieira, Francisco Matos e Vítor Lino ( a qualquer um deles).

Art. 5
Júri
a) O Júri será constituído por cinco elementos:
- Um fotógrafo;
-Um representante da Direcção da Escola;
-Um aluno;
-Dois professores do Clube de Fotografia.
A decisão do Júri é final e irrevogável.

Art. 6
Prémios
Serão atribuídos prémios aos três trabalhos vencedores no valor de vinte euros cada.
Entre todos os trabalhos entregues serão seleccionados alguns para participar numa exposição que decorrerá no Dia Aberto, na Escola.

Clube de Fotografia, Fevereiro 2010

HOMENS EM TEMPOS SOMBRIOS


Hannah Arendt nasceu em 1906 e viveu os tempos sombrios de duas guerrras mundiais. Foi aluna de Heidegger e de Jaspers e formou-se em Heidelberg.
Deixou a Alemanha após a chegada dos nazis ao poder, tendo-se fixado nos Estados Unidos, onde faleceu em 1975.
Entretanto era reconhecida como uma das figuras mais importantes do pensamento político contemporâneo.
Os textos aqui reunidos são biografias comentadas de homens e mulheres tão diferentes como Hermann Broch e João XXIII, Rosa Luxemburgo e Jaspers, Karen Blixen e Walter Benjamin. O resultado é uma reflexão apaixonada do comportamento dos "homens em tempos sombrios."

"Escrita ao longo de um lapso de tempo de doze anos, ao sabor da ocasião ou da oportunidade, esta colectânea de ensaios e artigos ocupa-se principalmente de pessoas - como viveram as suas vidas, como andaram pelo mundo e de que modo foram afectadas pelo tempo histórico. As pessoas aqui reunidas dificilmente poderiam ser mais diferentes umas das outras (...). Compartilham a época em que as suas vidas se situaram, o mundo da primeira metade do século XX, com as suas catástrofes políticas, as suas calamidades morais e o seu extraordinário desenvolvimento das artes e das ciências. E, se bem que esta época tenha matado alguns deles e determinado a vida e obras de outros, alguns houve que mal sentiram os seus efeitos e nenhum de quem se possa dizer que foi por ela condicionado."

Homens em Tempos Sombrios, Hannah Arendt -Relógio D´Água, 1991

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ESCUTO MAS NÃO SEI


"Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

in, Escuto (Sophia de Mello Breyner Andresen)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AQUELE QUE MANTÉM A CALMA


Aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse facto e reflecte sobre ele nunca perderá a calma.
Arthur Schopenhauer (1788-1860), in 'A Arte de Ser Feliz'

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

NO PRINCÍPIO ESTAVA O MAR


"Descrições fabulosas da alegria do surf, da excitação de deslizar numa onda, da liberdade de viajar condicionado pelo peso de uma prancha às costas, entrelaçam-se com reflexões subtis mas profundas sobre empenho social, gastronomia, racismo, ecologia, paternidade, o próprio sentido da vida, entre muitas outras.
"No Princípio estava o Mar" é um convite a aproveitar o oceano, a desfrutar plenamente a Natureza, a dar corda livre aos sonhos de errância e aventura, a não deixar para amanhã o que se pode viver hoje."

"Várias vezes tive a sorte de me sentir leve e espiritual na minha vida. Nesse Verão dos 11 anos a subir árvores no parque, anos depois a caminhar com os escuteiros de madrugada nas montanhas, já na idade adulta no deserto da Namíbia à volta duma fogueira a olhar para as estrelas, ou simplesmente em casa a observar a chegada do outono, uma noite de luar a navegar, Mozart por acaso na rádio. Mas as experiências mais intensas, mais leves, mais espirituais que eu atravessei passaram-se dentro de água a fazer surf."

Gonçalo Cadilhe, No Princípio Estava o Mar - Prime Books, 3ª edição, Fevereiro 2008

domingo, 31 de janeiro de 2010

CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO



Eu vi o raio de sol beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito, gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles, in "Retrato Natural"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

HOJE É DIA DE MOZART



MOZART nasceu em Salsburgo, Áustria, a 27 de Janeiro de 1756. Filho de Leopold Mozart e de Anna Maria Pertl, ele e sua irmã mais velha, Maria Anna, conhecida por Nannerl, foram os únicos sobreviventes dos sete filhos do casal. Desde muito jovens revelaram extraordinárias capacidades para a música, em especial Mozart, para quem a música e a matemática eram tão naturais como jogos e brincadeiras para qualquer outra criança. Aos quatro anos iniciou-se no cravo e aos cinco começou a compor. Aos seis, tocava com destreza cravo e violino. Conseguia ler música à primeira vista, tinha uma memória prodigiosa e uma inesgotável facilidade para improvisar.
A sinfonia nº 41 em Dó maior, é o exemplo acabado do classicismo musical pela junção de maturidade e equilíbrio. Mozart depositou nesta sinfonia toda a sua sabedoria e experiência. (...) O compositor consegue aliar de modo extraordinário duas formas à partida quase irreconciliáveis entre si: a sonata e a fuga.
Editorial Sol90 - Expresso

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A MEMÓRIA


A meio caminho do social e cognitvo certos estudos mostram que o indivíduo reconstrói a sua própria história, num sentido que lhe é favorável. Como diz Elisabeth Loftus, "a nossa memória sofre de um complexo de superioridade". Num artigo intitulado "O ego totalitário", Anthony G. Greenwald põe em evidência três tipos de manipulações da percepção da realidade ( e mais particularmente das recordações), visando assegurar-nos a melhor imagem possível de nós próprios; consideramo-nos melhor do que os outros e desempenhando um papel social mais importante; temos tendência a fazer jogar os sucessos a nosso favor e a recusar uma responsabilidade nos fracassos (por exemplo, os condutores de automóveis são frequentemente renitentes em reconhecer que estiveram na origem de um acidente); procuramos geralmente preservar a justeza da nossa maneira de pensar, mesmo deformando a realidade ( por exemplo, pode acontecer que modifiquemos uma recordação a fim de que possa estar mais de acordo com a nossa situação ou as nossas convicções actuais).
Esta tendência do indivíduo em reconstituir o passado em função do presente manifesta-se igualmente no seio dos grupos sociais. A sociologia da memória colectiva estuda o modo como as sociedades "comemoram" os factos notáveis. Os acontecimentos passados são modificados, intencionalmente ou não provavelmente para que o grupo social possa manter a sua coesão interna. Nível de responsabilidade, número de mortos... são reduzidos ou aumentados de acordo com o lado de onde se fala. Os manuais escolares são muitas vezes testemunhos impassíveis desta reescrita do passado, que por vezes pode mesmo conduzir a uma verdadeira amnésia.

Lecomte, J., "la Mémoire Déchiffrée", Sciences Humaines, nº 43, 1994, p.19
in, Dossier do aluno, Psicologia B - 12º ANO, Porto Editora

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

PARA ONDE CAMINHAS, TOLERÂNCIA?


Nos tempos actuais vive-se a uma velocidade louca, numa constante azáfama que implica um grande stress nas pessoas, levando-as a ser pouco ou nada tolerantes. O mundo sem tolerância é um mundo pouco justo, onde todos os males podem levar à consequente vingança, criando guerras que não beneficiam nem nunca beneficiaram quem quer que fosse.
A falta de tolerância é regular em decisões sociais e políticas, tornando as pessoas capazes de atitudes e posições que em nada dignificam quem as toma, e que somente prejudicam (ainda mais), os já de si, considerados desfavorecidos.
A virtude de ser tolerante acarreta respeito e valorização do próximo, dignificando-o enquanto ser humano que é, livre de tomar as decisões e opções que quiser, e de ter os seus valores e crenças, pois quando há interesses que se sobrepõem, muitas pessoas revelam o seu desrespeito e egoísmo, ao não olhar para o(s) meio(s) necessário(s) para atingir o fim pretendido.
Todos temos direitos e deveres, e apenas se nenhum deles for omisso, a tolerância poderá dar resultado. O bom senso, a capacidade de perdoar, de avaliar as situações em que cada um se encontra, tomando também a sua posição, tudo baseado em racionalidade, faz parte de um conjunto de características que todo o cidadão deveria ter. Infelizmente assim não o é, e em parte por culpa da natureza deste mundo, que não tornou o ser humano capaz de semelhantes coisas, que não deu nem dá a todos as mesmas condições, sejam intelectuais, monetárias, ou até físicas.
Num mundo onde as culturas variam de país para país, a tolerância tem que ver com o moralmente correcto ou incorrecto para a sociedade em que estamos inseridos. Isso passa por respeitar tradições, rituais, ou pequenos hábitos, vindos de tempos passados, como o uso do hijab (véu islâmico), por parte de toda e qualquer mulher islâmica, pois para ela isso é visto como algo que a dignifica, que impõe respeito, porque faz com que seja conhecida pelo espírito e não pela aparência. Já castigos duros como a morte para homossexuais, apenas porque o são, como acontece nos países muçulmanos, são sinais de uma extrema intolerância, pelo menos para nós, ocidentais. A crucificação da homossexualidade pode ser feita de várias maneiras, mas nunca afectando directamente quem o é. Podemos escrever, podemos dizer, o que achamos, pois de falar ninguém é impedido. Mas a tolerância deve sobrepor-se à nossa opinião, seja ela qual for, pois, supostamente, cada um deve ser livre de ter as suas opções.
Pede-se paz para o mundo, mas a verdade é que muita gente não sabe o que isso é. Nasceram e cresceram num país violento, onde toda a gente passa por cima de qualquer um, do género “salve-se quem puder”, mas a verdade é que a essa gente deveria pedir-se tolerância. Ensiná-los a ser tolerantes, explicar-lhes o que isso é.
Apelar ao bom senso de cada um, é apelar à tolerância. Apelar à tolerância, é pedir paz, respeito pelas decisões de cada um e respectivos pontos de vista. Só teríamos a lucrar com isso, porque ser tolerante também é saber ver que uma opinião, mesmo não fazendo a generalidade do senso comum, deve merecer uma reflexão, colocando sempre a possibilidade de esta ser (a) mais correcta, tal e qual o que acontece com as sucessivas evoluções da investigação científica, pois a tolerância não é impeditiva de evolução, ao contrário do que possam pensar os mais extremistas, mais rebeldes.
Ser tolerante é ser sábio, mostrar racionalismo, conhecimento, e sobretudo, apoiar uma evolução gradualmente benéfica para todos, é este o caminho a seguir.
Ricardo Laranjeira -12ºB

domingo, 24 de janeiro de 2010

SERÁ A EUTANÁSIA MORALMENTE ACEITÁVEL? iii


O problema da morte assistida já é discutido desde há muito tempo. Na antiguidade havia quem defendesse a morte assistida, eutanásia, e havia quem discordasse. Em Portugal a Eutanásia nunca foi aprovada, ao contrário do que se passou nalguns países.
Neste ensaio vou procurar oferecer razões para acreditar que a Eutanásia deveria ser legal.
É muito importante que nos preocupemos com este problema, pois se a Eutanásia for legalizada, poder-se-á acabar com o sofrimento de muitas pessoas que desejam a morte e continuam a sofrer sem necessidade. Além disso a Eutanásia é um problema que as pessoas nem se dão ao trabalho de pensar, não tendo opinião própria. Com este trabalho poderão definir uma opinião própria acerca deste assunto que tanta polémica e controvérsia têm levantado.
Os obstáculos à Eutanásia em Portugal são bastantes, nomeadamente por parte da comunidade, a deontologia médica, a doutrina cristã e a Legislação Portuguesa.
Eu penso que a Eutanásia, nas pessoas cuja vida já não faz sentido é o único caminho que se deveria tomar. Uma pessoa em constante sofrimento físico e psicológico ou doente na fase terminal, tem uma vida que não faz sentido, e se essa pessoa deseja pôr termo à sua vida, acho que esse seu desejo deveria ser realizado, para seu bem assim como para bem dos familiares que também sofrem pele doente.
Efectivamente, o direito à vida é um valor absoluto e inviolável, assim como o direito à autonomia e à liberdade. Ora, essa liberdade poderá renunciar um outro direito, como o direito à vida, desde que a sua escolha seja voluntária e sem interferências exteriores. Logo, o desejo das pessoas em pôr fim à sua vida deveria ser concretizado.
Nos dias que correm, desenvolveram-se correntes ideológicas que apelam à centralidade do homem, à sua liberdade e autonomia. A vida do Homem é feita de escolhas pessoais que temos de respeitar, incluindo a escolha de morrer. Logo, ninguém se devia opor à escolha de uma pessoa em morrer.
Uma pessoa que sofre de uma doença incurável ou que esta numa fase terminal, que sofre fisicamente e psicologicamente, tem uma vida que não faz sentido. Quando a vida não faz sentido a única saída é a morte. Logo, a Eutanásia deveria ser legal.
Conta a Eutanásia argumenta-se que, o primeiro direito do homem é o direito à vida, desde o nascimento até à morte, não se podendo acelerar a morte. Logo a Eutanásia deve ser ilegal.
Assim como o direito à vida, o ser humano também tem o direito à liberdade e autonomia que poderão recusar outro direito como o direito à vida, acelerando assim a morte. Segue-se então que a Eutanásia deveria ser legal.
Argumenta-se também dizendo que os médicos não podem fazer mal aos doentes e que matar não é acto de médico. O médico deve procurar que o doente tenha uma melhor qualidade de vida atenuando as dores. Logo um médico não pode assistir uma morte.
Se um médico não pode fazer mal a um doente tem que fazer o bem. O bem para uma pessoa que sofre constantemente fisicamente e psicologicamente, e que tem uma doença que não tem cura é a morte sem sofrimento. Logo como a Eutanásia provoca uma morte sem sofrimento devia ser legal.
Os cristãos argumentam que a Eutanásia é uma atitude de recusa da soberania e amor de Deus. Portanto deveria ser ilegal.
Deus queria o bem da humanidade dando-lhe amor. A Eutanásia é desejada pelas pessoas sendo a sua única saída do sofrimento. Se as pessoas desejam a Eutanásia é porque acham ser benéfico para elas. Então vai ao encontro do desejo de Deus, portanto a Eutanásia deveria ser legal.
Concluindo, penso que a Eutanásia deveria ser aprovada pela legislação Portuguesa, pois uma pessoa que está na posse do seu discernimento, que fez vários pedidos para morrer e sofre de uma doença incurável que lhe proporciona sofrimento físico e psicológico tem uma qualidade de vida tão baixa que a sua vida já não faz sentido. Sendo assim, para bem do doente e para bem da sua família, a Eutanásia surge como o único caminho a percorrer.

Vitor Augusto Nogueira da Silva -10ºA

sábado, 23 de janeiro de 2010

SERÁ A EUTANÁSIA MORALMENTE ACEITÁVEL? ii


Será a Eutanásia moralmente aceitável?
São-nos apresentadas duas teses distintas que procuram responder a este problema filosófico: os que defendem que a Eutanásia é perfeitamente aceitável por acabar com o sofrimento das pessoas e os que pensam que a Eutanásia é decididamente inaceitável, por acabar com a vida que é um dom que nos deram.
Eu defendo a proposição expressa pela frase “Se uma pessoa está em sofrimento, a Eutanásia é aceitável”. Isto é, no meu ponto de vista, a eutanásia é aceitável, desde que a pessoa sofra de uma doença incurável que lhe cause sofrimento físico e/ou psicológico e se a eutanásia for o último meio para acabar com o sofrimento. Além disso, os responsáveis pela morte assistida dessas pessoas, não o fazem “ao acaso”, ou seja, fazem testes e exames para terem a certeza que as pessoas estão conscientes do que vão fazer e que já não há outra alternativa para acabar com o sofrimento da pessoa. Por exemplo, se uma pessoa tiver esclerose em placas, sofra diariamente por ver o seu corpo degradar-se e que já não veja sentido na sua vida, acho que, depois de serem feitos todos os exames, essa pessoa tem o direito de querer acabar com esse sofrimento, mesmo que o último caminho seja a morte.
Tudo aquilo que diminui ou acaba por completo com a dor devia ser aceite pela sociedade, a eutanásia corresponde a uma escolha para acabar com a dor e o sofrimento por parte de um doente em fase terminal, logo a Eutanásia devia ser aceite.
Quando alguém fica dependente de outras pessoas para realizar as tarefas mais básicas, começa a sentir-se com medo e revolta de ser um “estorvo” para as pessoas mais próximas, começando a pensar que a vida já não tem sentido, logo cada pessoa tem o direito de querer morrer quando sente que já não faz sentido continuar a fazer as outras pessoas sofrer.
Engana-se quem pensa que o direito de retirar a vida cabe apenas a Deus visto que, as pessoas em fase terminal sabem que vão morrer a qualquer momento e ao quererem recorrer à eutanásia estão a acabar mais cedo com o sofrimento, adiantando aquilo que seria inevitável devia ao seu estado e as pessoas que estão em coma ou em estado vegetativo já estão como mortos, aquilo que as mantém a respirar são as máquinas. Os familiares e amigos das pessoas nesse estado, têm o direito de pedir aos médicos para desligarem as máquinas, visto que, para aquelas pessoas a vida já acabou.
Claro que a todos os argumentos existem objecções, argumentos contra o que acaba de ser dito, como por exemplo:
· Os cuidados paliativos o tratamento da dor e sofrimento humano são a alternativa à eutanásia.
· A legalização da eutanásia poderia ser aplicada de uma forma abusiva, tendo como consequência a morte sem o consentimento das pessoas em causa.
Se os cuidados paliativos e os tratamentos são uma alternativa à Eutanásia então esses cuidados terminariam para sempre com o sofrimento e a dor tanto dos pacientes como dos familiares e amigos, mas isso é absurdo pois, apesar de todos os tratamentos, os doentes sentem imensas dores visto que os cuidados não são totalmente eficazes, logo não podemos afirmar que os cuidados paliativos e os tratamentos sejam uma alternativa à eutanásia.
Se a legalização da eutanásia fosse abusiva ao ponto de matar pessoas sem o seu consentimento, qualquer pessoa poderia pedir para provocarem a morte a outros ou a si mesmo sem nenhum consentimento ou exames, mas isso é absurdo visto que a Eutanásia só é aplicada a pessoas com doenças incuráveis, que depois de todos os exames vejam que não à outra alternativa e apenas com o consentimento dessa pessoa a morte pode ser provocada, logo afirmar que podiam vir a morrer pessoas sem o seu consentimento é errado.
Depois de expor todas as minhas opiniões continuo convicta que a Eutanásia devia ser aceite pela sociedade com um acto de acabar com o sofrimento de várias pessoas que já não vêm sentido nenhum na sua vida rotineira. Sou também a favor que a sociedade não julgue as pessoas que são a favor e que praticam a Eutanásia. A Eutanásia provoca bastantes disputas e discussões entre as diferentes sociedades, muitas vezes provocadas por preconceitos e questões religiosas que as pessoas defendem convictamente sem razões aparentes, apenas porque já cresceram a pensar daquela maneira.
Concluo que o debate está sempre aberto desde que se apresentem com fundamento bons argumentos que possam ser discutidos, quer a favor, quer contra, a Eutanásia.

Márcia Soares - 10ºA

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SERÁ A EUTANÁSIA MORALMENTE ACEITÁVEL?


Sobre este tema, existem duas principais teses concorrentes: uns defendem que a eutanásia deve ser aceite e legalizada e outros defendem que a eutanásia não deve ser permitida por lei e, consequentemente, não deve ser moralmente aceite.
Antes de apresentar a minha tese, deve-se classificar os vários tipos de eutanásia. A eutanásia pode ser voluntária ou involuntária, sendo que estas podem ser activas ou passivas. A eutanásia voluntária é decidida pelo próprio doente com total responsabilidade pelos seus actos, enquanto que a eutanásia involuntária não depende da vontade do doente mas sim da vontade de outros. A eutanásia voluntária activa distingue-se da passiva pelo facto de na activa haver uma componente de acção directa por parte de um agente que provocará certamente a morte do doente, enquanto que na passiva a morte é uma consequência directa de uma omissão, como acontece quando o médico deixa de administrar os tratamentos necessários à preservação da vida.
Na minha opinião, apenas a eutanásia voluntária (activa e passiva) deve ser moralmente aceitável. Um ser humano não deve ser obrigado a morrer apenas por intervenção de outros. Nós, os seres humanos, temos a capacidade de pensar por nós próprios, logo não necessitamos que decidam por nós. Mas a eutanásia voluntária deve ser aceite, pois aplicar a eutanásia numa pessoa com um prognóstico fatal é o mesmo que acelerar esse processo irreversível que é a morte, tendo o doente a possibilidade de minimizar o sofrimento físico e psicológico, além de que se estarão a poupar recursos que poderão ajudar outros doentes que até poderão resolver os seus problemas sem recorrer ao suicídio.
As pessoas se vivem é porque adquiriram o direito de o fazer, mas esse direito é agora delas e podem fazer o que desejarem com ela, tendo por vezes de tomar decisões díficeis mas que minimizem o seu sofrimento e o dos outros, mesmo que tenha de lhe pôr um ponto final.
Há, contudo, quem defenda que a eutanásia não deve ser moralmente aceite, pois acreditam que tudo o que fazemos que ponha em risco a nossa vida são acções contra a Natureza, pois acreditam que todas as acções que realizamos tem um único objectivo: a sobrevivência. Mas se tal fosse o caso, não poderíamos fumar, nem praticar desportos arriscados, nem conduzir um automóvel, pois tudo isso são acções que podem pôr em risco a nossa vida. Isso é totalmente absurdo, logo este argumento não deverá ser contabilizado. Outra objecção à eutanásia é o facto da decisão poder ser influenciada por um estado de espírito momentâneo ou por ocasião de um período de sofrimento que poderá levar à sua decisão. No entanto, a decisão de provocar a eutanásia é uma decisão que não pode ser tomada sem motivos plausíveis e deve ser acompanhada por pessoal qualificado, pois é uma decisão séria e se realizada sem uma razão convincente não pode ser acedida.
Muitas vezes consideramos a eutanásia como uma prática realizada em situações em que se supõe não haver qualquer esperança de se vir a modificar o estado da pessoa e isso não é correcto porque não se pode prever a evolução de uma doença e a resposta adaptativa do organismo. Mas se seguirmos por esse caminho podemos acreditar que uma pessoa possa viver até aos 300 anos e o facto de que nunca tenha acontecido não possa invalidar essa possibilidade. Será, contudo, que a esperança de um milagre que nos devolva a vida é suficiente para permitir todo o sofrimento físico e psicológico durante um tempo de espera, sem nada que faça prever a real ocorrência desse milagre? Parece-me que não.

João Rodrigues, nº13 -10º C

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Billy Elliot


Passado numa época difícil de revolução e conflitos laborais nas minas de carvão, o filme mostra-nos a importância das relações precoces que estabelecemos com os outros.
Billy Elliot é uma criança carismática, que cresce em Durham, uma pequena cidade de Inglaterra, no seio de uma de muitas famílias mineiras, que lutam contra todas as condições injustas de trabalho. Possui uma aptidão especial para a música e para a dança.
Obrigado pelo pai, inicia-se no boxe e rapidamente percebe que aquilo nada tem a ver com ele. Prova disso é que opta por aliar-se à turma de Ballet de Mrs.Wilkson que ensaia no mesmo ginásio, sendo atraído pela leveza e pela graciosidade dos movimentos das pequenas bailarinas.
Sem a presença da mãe desde muito novo, pois já tinha falecido, o seu crescimento é a partir daí condicionado pelo ambiente que cria com as pessoas que o acompanham. Começa a sua paixão pela dança e um conflito com a família tradicional, que não aceita este mundo por preconceito.
O seu talento nato para dançar assenta na ideia de que o homem se afirma pela sua força e determinação, enfrentando assim a contrariedade do seu irmão e do seu pai e as suas mentalidades opressoras.
Esta é uma luta que entra nos conflitos das suas vidas e que se expande até o pai de Billy, no dia de Natal, apanhar o filho talentoso a ensinar alguns passos ao seu amigo Michael. A criança dança para o pai num total envolvimento, ao mesmo tempo que recalca frustrações interiores. O pai muda radicalmente a sua atitude e é assim que ambos e o irmão lutam para construir o futuro do protagonista e são feitos todos os possíveis para a audição em Londres na Royal School Ballet.
O final é previsível e feliz, com a ascensão de Billy ao topo da carreira e com a resolução da luta dos mineiros, sendo que, nos incentiva a produzir os nossos sonhos e a acreditar que podem ser concretizáveis embora haja contrariedades.
A história é toda ela tocante e sensível, provocando ao mesmo tempo, sentimentos de repúdio pelo tabu que ainda hoje se propaga sobre a orientação sexual dos bailarinos e da intolerância resistente que dificulta viver a vida como ela elucida que seja, sendo nós próprios.
O filme permite diversas abordagens sobre temas da disciplina de Psicologia, designadamente: as impressões, a identidade pessoal, a motivação, o conflito, a frustração, o recalcamento, o preconceito. Seria interessante saber em que se fundamenta o preconceito relativamente à actividade de bailarino ser encarada como menos própria do sexo masculino.

Marisa Ferreira, 12ºA



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O PAPEL DO PAI NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA


Com as mudanças que a sociedade tem vindo a sofrer, o papel do pai, e consequentemente a importância que assume no seio da família, tem vindo a alterar-se. Antes dos anos 60, do século XX, cabia às mulheres o papel de mãe, porque o seu tempo era passado em casa a cuidar das lides domésticas e da educação dos filhos. No entanto, com a entrada da mulher no mundo do trabalho, o seu papel modificou-se. As mulheres sofreram uma emancipação acentuada. O tempo para cuidar dos filhos reduziu-se fortemente, posto isto, os homens adquiriram novos papéis, passando a cuidar também dos filhos. Foi neste sentido que apareceu o conceito a que muitos chamam de “novos pais”.
Apesar de tudo, a reestruturação familiar veio a revelar-se positiva. O pai começou a partilhar tarefas domésticas com a mãe e a tratar também dos filhos: dar o biberão, mudar a fralda, levá-los ao parque, ao infantário…
Constatou-se que a forma como o pai pega na criança, o tom de voz, o modo como brinca e interage, distinguem-se dos da mãe, contribuindo favoravelmente para o desenvolvimento psicológico da criança.
A investigação levada a cabo por Kevin Nugent, revelou que os pais [a figura masculina] desempenham um papel fundamental no desenvolvimento emocional da criança, mas radicalmente diferente do papel desempenhado pela mãe.
Através destes estudos não só ficou provado que o desenvolvimento da criança varia consoante a forma como é educada (pelo pai ou pela mãe), como também é benéfico para o desenvolvimento pessoal do homem-pai.
Em suma, o pai ao assumir um papel mais activo no acompanhamento dos filhos exerce uma influência positiva no seu desenvolvimento cognitivo, emocional e social. As investigações sobre a influência do pai na educação das crianças concluíram que a criança cujo pai está mais envolvido na sua educação, mostra maior capacidade de desenvolvimento cognitivo, segurança na vida e desenvolve relações mais positivas na adolescência com o sexo oposto.

André Filipe -12ºC

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

AS PALAVRAS



Se fosse vivo Eugénio de Andrade faria hoje 87 anos. A sua poesia caracteriza-se sobretudo pela musicalidade das palavras. Como homenagem a um grande poeta português muitas vezes esquecido, aqui fica um dos seus poemas, escolhido ao acaso.

(Uma nota à parte: Hoje não há dinheiro para manter a fundação "Eugénio de Andrade", correndo o risco de encerrar as portas.

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

AS FANTASIAS DA MÃE FACE AO BEBÉ


Lá está ele tão pequenino dentro da barriga da mãe, a mãe que só pede que ele seja perfeitinho, já nem quer saber o sexo, mas já agora, se não for pedir muito, que seja uma menina, que puxe a pele morena do pai, os sedutores olhos verdes da avó, o contagiante sentido de humor do avó, o narizinho engraçado do tio, bem e a beleza da mãe.
São nove meses de um verdadeiro estado de graça. A mãe flutua num mundo que apenas pertence a si e ao bebé, ao seu bebé, ao seu filho, sangue do seu sangue, corpo do seu corpo. E contagia toda a gente lá de casa, mesmo a pequena ciumenta que de repente vê todas as atenções viradas para o irmãozinho que dizem que está na barriga da mãe, mas como é que pode estar um bebé lá dentro, e se agora não lhe ligam nenhuma está para ver como será depois, até ela já se rende e faz as delícias da mãe quando primeiro pede para dar um carinho na barriguinha, depois um beijinho, e quando sente um pontapé avisa logo que não vai jogar futebol com ele, que não gosta dessas coisas de rapazes.
Ao filho que carrega no seu ventre, tão pequeno e já tão amado, e que dali a não muito tempo vai poder segurá-lo nos braços, passeá-lo pelo parque, ensinar-lhe as primeiras palavras, os primeiros passos, entre tanta, tanta coisa, confessa-lhe que um dia será um grande homem ou uma grande mulher, como sabemos que a mãe prefere. Será o seu orgulho, o seu pequeno anjo, o seu pequeno grande amor.
Bem, e no meio de tantas fantasias como quem chega e diz, “basta, quero sair!”, chega a hora do nascimento, a mamã dá a luz e afinal não é uma menina, nem tem a pele morena do pai, o narizinho não é o do tio e como grita não parece ter herdado a boa disposição do avô. Mas porque nós sabemos que amor de mãe é incondicional e eterno, ela pede que o deitem sobre o seu peito, jorram lágrimas de incontrolável alegria, e segreda-lhe ao ouvido, “amo-te, meu filho. Bem-vindo”.
O bebé idealizado na gravidez dá lugar ao bebé real com os caracteres que lhe são específicos. O vínculo que unia a mãe a um bebé imaginário, ajusta-se após o nascimento, ao bebé real.
Antea Gomes, nº 5 - 12ºC

domingo, 17 de janeiro de 2010

DEUS APESAR DE TUDO



" Escrevo estas páginas num mundo agitado por catástrofes naturais, que se interroga sobre o futuro do planeta e já não acredita no progresso.
Escrevo estas páginas numa Europa que assistiu ao confronto de todos os totalitarismos e viu calarem-se os profetas que anunciavam o mundo melhor.
Escrevo estas páginas quando há quem se mate em nome de Deus.
E no entanto... o futuro é também uma promessa. Porque o Homem tem um aliado nesta aventura: Deus, apesar de tudo. Para acreditar nele, não é preciso desfigurá-lo, afastá-lo dos homens, pensar que ele aprecia os sacrifícios e que o "pecado original" causou a desgraça do mundo.
A todos os que gritam e se revoltam, importa dizer que têm razões para gritar. E que Deus grita com eles contra o Mal, participa na mesma revolta. E que sofre porque não é todo-poderoso, nem quer sê-lo: se o fosse, não seríamos homens."

Jacques Duquesne, DEUS apesar de tudo, Edições Asa - Abril de 2008

ABSURDO


LUZ de ESPERANÇA e CORAGEM para o POVO do HAITI
O homem é dominado por um desejo de clarificação do mundo e da vida. Segundo Albert Camus, a vontade profundamente humana de tornar o mundo inteligível, de obter resposta a esse apelo, é constantemente defraudada pela realidade. Entre a nossa consciência e o mundo - que é cenário da nossa existência - existe um fosso intransponível. A realidade é "surda" às nossas perguntas. O sentimento do absurdo nasce deste confronto doloroso, deste face-a-face inconsequente entre o homem e o mundo. O silêncio cósmico é sentido como irracional.
Desejamos transparência e a realidade, o mundo no seu todo, é opaco (os outros homens parecem-nos estranhos e nós próprios somos enigmáticos e impenetráveis); queremos promover valores absolutos -liberdade, justiça - e, no palco do mundo, verificamos o malogro dessas aspirações. O mundo em que vivemos é um universo privado de claridade, de bondade, de sentido. A tragédia da existência, o sentimento de estarmos exilados neste mundo, é ilustrada de forma tremendamente dolorosa pelo sofrimento dos inocentes, sobretudo das crianças. Esse sofrimento inadmissível e incompreensível é a imagem mais atroz do mal.

Luís Rodrigues, Filosofia 11ºAno, Plátano Editora - p. 304

sábado, 16 de janeiro de 2010

AVIDA EM SOCIEDADE


Viver em sociedade é uma necessidade vital para o ser humano, uma vez que ninguém é feliz sozinho. Porém, precisamos de uma sociedade organizada e justa onde todas as pessoas saibam que há responsabilidades e limites.
Os valores dizem respeito à individualidade de cada pessoa, mas, também estão intimamente relacionados com o contexto social de cada indivíduo. O ser humano é um ser social por natureza, mas para vivermos na sociedade e sermos aceites por ela obriga necessariamente a um conjunto de normas e valores que a regem, tornando-nos por vezes pouco tolerantes e propensos a arranjar conflitos.
Nós somos a sociedade e fazemos parte dela, é nesse contexto que temos de construir e encontrar o nosso próprio "eu" em função do tempo, do espaço e das oportunidades que nos são dadas e dos modelos com que nos identificamos.
Mesmo tendo em conta todas estas regras de estarmos em sociedade, cada um de nós tem a sua própria identidade. Cada um tem uma forma peculiar de ver o mundo, de enfrentar as situações inesperadas, cada tem sua personalidade, formas de perceber os outros, de sentir, avaliar -se a si próprio e também os outros e avaliar também as próprias regras das instituições.
Na construção da nossa identidade é importante como vemos, como nos sentimos, como nos situamos em relação aos outros. Muitos fomos educados no sentido das nossas decisões dependerem da aprovação dos outros, fazemos as coisas pensando mais em agradar aos outros do que a nós próprios, outros pensam sempre neles próprios e só depois se lembram dos outros.
Isto são particularidades da nossa identidade, e a forma de estarmos em sociedade, depende muito da nossa identidade, e da forma como conseguimos perceber e respeitar a identidade das pessoas que estão ao nosso redor.
Só conhecendo bem a nossa identidade e respeitando a identidade daqueles que nos rodeiam, mesmo que diferente da nossa, é que podemos superar possíveis conflitos. Uma forma de superar os conflitos, será saber ouvir os outros. Por vezes acontece não estarmos de acordo com os outros, mas se soubermos ouvir e argumentar as nossas ideias, podemos chegar a uma forma de consenso, evitando um possível conflito.
Em suma, não será um defeito do homem ser propenso a possíveis conflitos, grave será esse mesmo homem não ser capaz de superar esses conflitos de uma maneira nobre.

Filipe Nogueira, EFA - Arcozelo das Maias

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

MULTICULTURALISMO


No mundo actual, o respeito pelo direito dos povos à emigração é fundamental. No entanto, um povo tem que saber estar de acordo com as leis e regras de conduta. A verdade, é que temos hoje, um mundo economicamente globalizado, mas ainda assim, subsistem muitas fronteiras, muros e ideologias adversas.
O multiculturalismo, pode tornar-se uma pertença em termos de cultura, porque cada povo tem a sua forma de agir e viver. Hoje em dia, o respeito pelo próximo está muito aquém das expectativas, face ao egoísmo intenso em que o mundo vive. Portugal foi um país de emigrantes, actualmente esta evidência inverteu o sentido e, contudo não temos a mesma tolerância que outrora outros países tiveram connosco. Tratamos mal ou simplesmente ignoramos todo o tipo de cultura, porque achamos que temos o total direito e lealdade perante a nossa.
Assim, torna-se real a lealdade que no fundo temos com o nosso país de origem, a fidelidade criada é infinita e torna-se uma pertença em massa, ou seja, quando estamos fora do nosso país, agarramo-nos com fervor toda a nossa cultura, a tudo que é nosso, ao que nos pertence.
Enfim, o que é real, é que por vezes, a saudade espreita e o que nos faz vibrar, é simplesmente um ombro amigo, mesmo que este, sendo por breves momentos nosso, seja de uma raça e cultura diferente.

Sandra Ferreira / Sec A

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A PERCEPÇÃO


A informação poderá alcançar os nossos sentidos em bits e partes, mas não é assim que apercebemos o mundo. Apercebemos um mundo de objectos e pessoas, um mundo que nos bombardeia com totalidades integradas, não sensações desgarradas. Só em circunstâncias não habituais, ou quando desenhamos ou pintamos, atentamos nos traços individuais ou partes de estímulos; na maior parte das vezes, vemos objectos tridimensionais e ouvimos palavras e música.
A percepção é o estudo de como integramos a informação sensorial em percepções de objectos, e como depois usamos essas percepções para nos movermos no mundo. (...) O sistema perceptivo deve determinar: 1. que objectos estão em presença (maçãs, mesas, gatos...) e 2. onde se encontram esses objectos (à distância de um braço à esquerda, cem metros à frente...).

Atkinson, R; Psychologie, p.152 (Retirado do Dossier do Aluno -Psicologia B - 12º Ano, Porto Editora)