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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

12 Angry Men e a Importância da Argumentação

A argumentação tem uma enorme importância na vida do dia-a-dia, onde somos muitas vezes obrigados, pelas circunstâncias, a apresentar as nossas razões, as justificações dos nossos comportamentos e das nossas tomadas de posição. No filme “12 Angry Men” assiste-se a uma dessas circunstâncias, em que um grupo de doze jurados tem de decidir o futuro de um jovem de 18 anos, acusado de homicídio em primeiro grau, por ter morto o seu próprio pai com uma navalha. Se este fosse considerado culpado, então o seu destino seria, obrigatoriamente, a morte, mas se existisse uma dúvida legítima entre os jurados, então o acusado devia ser considerado inocente. 
Inicialmente, a maioria dos jurados, onze em doze, estava a favor da condenação do acusado enquanto apenas um estava a favor da absolvição do mesmo. Posto isto, os jurados a favor da condenação do acusado tentam persuadir Davis, o único que votou a favor da absolvição, a mudar o seu voto, visto que era necessário que o veredicto dos jurados fosse decidido em unanimidade, dizendo as razões que os levaram a pensar que o acusado fosse culpado. Assim, assiste-se ao início de uma longa conversa, onde alguns do jurados que defendiam a culpabilidade do acusado começaram a mostrar os argumentos e factos que os levavam a tal conclusão. Um dos argumentos afirmado por um dos jurados a favor da condenação do miúdo foi que, uma das testemunhas, o velhote, que vivia no andar debaixo do quarto onde teve lugar o crime, julgou ter ouvido o miúdo gritar “vou-te matar” e instantes depois um corpo a cair no chão. Correu para a porta, abriu-a e viu o miúdo a correr pelas escadas para a rua. Mas, Davis recusa esse argumento e afirma que se o comboio passou na altura do crime (como diz o testemunho da vizinha da frente) então era impossível o velhote identificar a voz do rapaz com tanto ruído. E que mesmo que o velhote tivesse ouvido, Davis proferiu que se utilizava diversas vezes essa expressão no dia-a-dia e que o rapaz, se tivesse mesmo intenções de matar o pai, nunca a gritaria tão alto, para que a vizinhança não o ouvisse. Outro argumento foi que Davis pôs em causa o tempo o tempo que o velho demoraria a chegar do seu quarto até à porta da entrada, visto que eram 3,5 metros da cama à porta, e que o corredor tinha 13 metros. O velhote teria de andar 3 metros e meio, abrir a porta do quarto, andar 13 metros e abrir a porta de entrada, tudo em 15 segundos. Davis, demonstrou, fazendo o mesmo percurso à mesma velocidade do velhote, que este demoraria cerca de 41 segundos desde a cama do quarto até à porta da entrada e não 15 segundos, por isso, provavelmente, não teria sido capaz identificar a pessoa que descia as escadas. Um outro argumento foi que um dos jurados a favor de inocência do acusado, se lembrou que a mulher que testemunhou contra o acusado tinha as mesmas marcas nos lados do nariz que um dos jurados que usava óculos. Então perceberam que a mulher utiliza óculos mas que provavelmente por questões de beleza, não os teria usado durante a sentença. Então, chegaram à conclusão, pressupondo que a mulher não usava óculos na cama, que a mulher não seria capaz de identificar o culpado a 20 metros de distância sem óculos, julgando que ela apenas viu as silhuetas das pessoas em causa.
Com isto, conclui-se que Davis conseguiu refutar as ideias dos outros jurados, contra-argumentando com as razões que o tinham levado a pensar que o acusado seria inocente, que se baseavam no equívoco das testemunhas e dos factos. Depois de muito diálogo, Davis começa a conseguir convencer os outros jurados a mudarem de voto e assim consegue, com muita perseverança, persuadir os restantes jurados a votar a favor da inocência do rapaz, visto que não existiam provas suficientes para o culpar.
          Como mostra o filme, a argumentação é fundamental em todas as áreas da actividade humana onde não possa ser estabelecida uma verdade racionalmente demonstrada, como é o caso de uma sentença. Assim, eu penso que quando argumentamos, defendemos o nosso ponto de vista e devemos ser capazes de o justificar racionalmente. Claro que nem sempre é fácil encontrar justificações racionais para fundamentar os nossos pontos de vista e por vezes, somos um pouco dogmáticos, guiando-nos apenas por preconceitos, ideias que tomamos como verdadeiras sem termos razões para tal, que nos foram transmitidas por alguém, não nos permitindo criar uma ideia própria. Também no filme são mostrados contra-argumentos, argumentos que pretendem refutar a conclusão de outros, também importantes quando se está a argumentar. Então, podemos dizer que argumentar é defender uma ideia, uma opinião, apresentando um conjunto de razões que justifiquem essa tomada de posição.

Nuno Tiago Martins nº 14 10º C

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Reflexão do Filme "Godsend"

Este filme aborda um drama trágico, mas além disso e simultaneamente prende-se com ficção científica, retratando de uma forma extrema a concepção da clonagem humana.
O filme inicia-se com uma dinâmica comum e felicidade aparente no seio de um jovem casal, que festeja o aniversário do seu único filho de 8 anos, Adam (Cameron Bright). Essa harmonia e felicidade desvanecem-se no momento em que Paul Duncan (Greg Kinnear) e Jessie Duncan (Romijn-Stamos) perdem o seu filho, num imprevisível e fatídico acidente. Este facto, provoca sentimentos de elevada tensão, como dor, sofrimento, angústia e desespero, parecendo a vida um tormento isento de sentido e desejo, até mesmo, perante a impossibilidade de Jessie ter mais filhos. Nos preparativos do funeral, o Dr. Richard Wells (De Niro), um investigador/ médico no domínio da genética na clínica: Godsend, especializado em questões de infertilidade, enuncia-lhes uma proposta condenável relativamente à esfera da moralidade e da legalidade predominante, mas que naturalmente seria um sonho inimaginável para eles: reproduzir um novo ser com as mesmas características genéticas do filho morto, ou seja, a ideia da clonagem. Apesar desses entraves, o casal, obviamente desejoso de voltar a ter o seu filho, enveredaram pelo caminho da clonagem, encontrando se aqui a sua principal vantagem/potencial.  
Deve-se de imediato salientar um vasto entusiasmo, cooperação e motivos específicos por parte do médico em ajudá-los nesta tarefa imoral e ilegal, efectuando-se mudanças geográficas, profissionais e sociais necessárias na vida deles.  
Após o sucesso da experiência, (inseminação de genes), preponderava o mesmo ambiente de felicidade e equilíbrio, até o filho clonado, completar 8 anos, à semelhança do anterior. Fisicamente idêntico ao Adam original, este Adam, começa a manifestar uma personalidade complexa, visível nos seus comportamentos demasiado estranhos e perturbadores. Logo, Adam, evidencia terríveis distúrbios de sono, recheados por pesadelos e fragmentos/memórias da vida de outro indivíduo, ou seja, do Zachary Clarck que invade e atormenta a sua mente. Estes sonhos e visões, exercem vasta influência sobre Adam, determinando as suas atitudes e comportamentos diabólicos, o que o torna extremamente perigoso no meio onde se insere. Porque motivo Adam, não se enquadra no perfil de uma criança normal, do ponto de vista psicológico? Em que fundamento assenta o facto de os seus comportamentos maldosos e abomináveis serem determinados pelas atitudes de Zachary Clarck, que ele vê e sente?
O casal, com destaque para o seu pai, (professor de biologia) descobre o mistério envolvido em torno da personalidade de Adam. No processo de clonagem, Dr. Richard, utilizou não apenas as partes genéticas de Adam original, como supostamente deveria suceder, mas ocultamente, também introduziu fragmentos de genes do seu próprio filho falecido, num incêndio: Zachary. Como vimos no filme, este era extremamente horrendo, tendo até assassinado a sua própria mãe. Daí resulta a complexa identidade relativamente à vertente psicológica e comportamental negativa de Adam, pois fisicamente, sim, era idêntico ao Adam original. Logo, um clone, fruto de uma duplicidade genética.
A visão de clonagem humana retratada e explorada neste thriller psicológico, de terror e ficção científica não se associa à realidade presente, sendo o argumento levado ao extremo e ao exagero, isto porque, tecnicamente a manipulação genética predominante no filme não está desenvolvida, e portanto afigura-se impossível. Mas no meu ponto de vista, é este carácter avançado e a suposta visão do futuro relativamente ao desenvolvimento científico e experimental, onde se misturam interesses ambiciosos e de índole peculiar, que serve para reforçar ainda mais as consequências da clonagem humana, em matéria de legalidade, espiritualidade e da moralidade.
Desde já, perante um cenário de circunstâncias favoráveis, o facto de o Dr.Richard pretender materializar as suas aspirações e planos pessoais no domínio da clonagem, realizando uma manipulação genética condenável, constitui uma viva ilustração de transgressão dos valores humanos, morais e éticos.
Relativamente aos efeitos da clonagem, no fundo, a vida de Adam não era uma vida com autêntica dignidade, pois que desenvolvimento moral, educativo, intelectual, social poderá ter essa criança, com esta problemática e instabilidade psicológica, originada pela manipulação genética, pela clonagem? E relativamente à esfera da alma e da espiritualidade?
E as elevadas preocupações, desassossegos, a todos os níveis, tanto para Adam como para os que o rodeiam?
É totalmente condenável, em todos os níveis. Esta criança, vivia, regida pelos material genético de Zachary, que se manifestava, nos seus sonhos e fragmentos de visões sem poder agir de outra forma. Estava meramente determinado a ser assim, com uma personalidade obscura. Nem mesmo a mudança do meio, permitiu melhorar este aspecto, daí a impossibilidade de aperfeiçoamento. E alma dele, o espírito, era também negativo e demoníaco. Dele não emanava qualquer luminosidade e bondade, antes malícia, observável até na expressão perigosa e aterradora dos seus olhos, sendo naturalmente o gerador da instabilidade e do desassossego.
E eu afirmo isto, porque, apesar de um clone, ser idêntico fisicamente, com a mesma individualidade, acontece, que ele modifica-se mediante o ambiente, em função das experiências que vive, os seus interesses e gostos, daí algumas alterações imprevisíveis e comportamentos instáveis. Contudo, o que sucede no filme, é a preponderância de total determinação genética, sem qualquer poder do meio envolvente, como já explicado anteriormente, daí os comportamentos de Adam serem comandados mental e  psicologicamente por Zachary Clarck.
Eu gostei do filme, pois prima por uma densidade psicológica e uma dose de terror. Simultaneamente, através de uma forma original e criativa, são espelhados os efeitos/consequências da clonagem, sendo esta uma prática condenável, ética e espiritualmente insustentável, além de psicológica e filosófica, ultrapassando a sua vantagem inicial que se assemelha à total felicidade, ou seja, a possibilidade de clonar o filho falecido.

Viktoriya Lizanets n21, 12C

domingo, 17 de outubro de 2010

PARA QUE SERVE ARGUMENTAR?



Um argumento é essencialmente a nossa defesa em relação ao que pensamos e ao que achamos que está correcto. Felizmente todos somos dotados de um pensamento pessoal, temos maneiras de encontrar soluções diferentes para um determinado problema, e por isso, é tão importante cada pessoa argumentar. Os argumentos são a forma pela qual explicamos e defendemos as nossas ideias. Para que serviria uma ideia brilhante de alguém, se não soubesse justificar, argumentar, a sua ideia? Será que os outros iriam acreditar nessa pessoa? Será que íamos saber no que se fundamentou para segurar e defender a sua ideia? Não saberíamos as razões da pessoa pensar assim e o mais provável era ninguém ficar convencido e esquecer simplesmente a sua ideia. Assim, é necessário a pessoa reflectir e construir um argumento, com base no que a levou a defender uma determinada ideia, expressando a sua própria opinião. Ainda que o argumento não seja válido e que seja rejeitado, ainda que não tenha sido o mais adequado, a pessoa obteria mais conhecimentos e poderia mesmo entender e aceitar outros argumentos em confronto. Neste sentido, argumentar não serve apenas para defender a nossa opinião, agarrarmo-nos a ela como se fosse a única possível mas olhar para um ideal e olhá-lo com outros olhos, moldando o nosso pensamento e investigar até mais de si próprio, buscando sempre a lógica das coisas e interrogando-nos, tal como na questão das crenças.
Cristiana, 10ºA

sábado, 16 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

FILOSOFIA - "A Incansável Busca Pela Sabedoria"



A palavra Filosofia deriva do grego "PHILOSOPHIA". PHILO significa "Amor Filial" ou Amizade. SOPHIA significa sabedoria ou seja um Filósofo é um ‘’amante de sophia’’, alguém que admira e tenta alcançar a sabedoria.
Pensa-se que o termo philosofia foi usado pela primeira vez pelo famoso Filósofo Grego Pitágoras por volta do século V a.C., ao responder a um de seus discípulos que ele não era um "Sábio", mas apenas alguém que amava a Sabedoria.
A Filosofia surge desde que o homem começou a reflectir sobre o funcionamento da vida e do universo, investigando uma solução para as grandes interrogações da existência humana.
Os pensadores, inseridos no contexto histórico da época de Pitágoras, procuraram diversos temas para reflexão. A Grécia Antiga é conhecida como o berço dos pensadores, sendo que os sophos (sábios em grego) procuraram formular, no século VI a.C., explicações racionais para tudo aquilo que era explicado, até então, através da mitologia.

Inês Mouta 10ºD

terça-feira, 5 de outubro de 2010

FILOSOFIA E FILOSOFAR


Vou retroceder um pouco às matérias que têm sido dadas nas aulas de Filosofia, e fazer uma análise de algumas noções básicas bastante importantes e que temos de ter sempre em mente nos anos de estudo desta disciplina. Vou por isso abordar desde a origem da palavra “Filosofia”, à noção das nossas crenças, passando pelos elementos da Filosofia e pela sua caracterização, dando sempre o meu ponto de vista pessoal, e realçando o que dou mais valor.

A palavra Filosofia vem de Filos (que significa “amor” e “amizade”) e de Sofia (que significa “sabedoria”). Quando começámos a estudar Filosofia fiquei um pouco confusa e perplexa ao notar que era uma disciplina tão diferente das outras. Mas foi daí que veio o interesse e o fascínio por esta disciplina. A Filosofia não é apenas uma disciplina em que se discutem ideias, mas uma actividade que nos leva sempre mais além no pensamento, uma forma de Saber que nos faz confrontar todo o tipo de ideias que até agora nos eram singelas e concretas. Como refere o manual, não é uma disciplina como História, na qual se decoram datas e nomes, nem como Química e Biologia, que se estudam os átomos e se observam as células. Enquanto que estas se apoiam em factos reais, em corpos existentes, a Filosofia questiona qualquer noção, por mais básica que nos possa parecer, como “O que é a vida?”; “A vida tem sentido?”; “O que é a beleza?”. O que é certo é que se nos for feita a pergunta não sabemos responder concretamente, damos apenas o nosso ponto de vista, e são precisamente esses pontos de vista e opiniões diferentes que têm enaltecido a Filosofia. Os problemas são o ponto de partida daquilo que queremos reflectir e discutir, e por isso o objecto de estudo da Filosofia é a própria realidade. Não é por acaso que a partir da Filosofia se distinguiram muitos Matemáticos, Políticos e Físicos em épocas diferentes. Na sua origem está o que hoje chamamos “Ciência”, mas também foi a partir dela que se diferenciaram alguns ramos, como a cosmologia, a psicologia e a sociologia. Os homens começaram a procurar definições explícitas e demasiado concretas, daí florescerem todos estes ramos extremamente importantes actualmente. São estes pequenos exemplos que mostram o valor da Filosofia.
Ao longo dos tempos a Filosofia tem tido sempre o seu ponto de relevo. A Filosofia foi inventada pelos gregos, onde Tales de Mileto e Pitágoras foram os primeiros filósofos entre outros que questionaram a origem, a essência de tudo. Mais tarde e ainda na Antiguidade destacaram-se Sócrates, Platão e Aristóteles que foram marcos maiores de todo o pensamento ocidental posterior. Na Idade Média, a filosofia assume um carácter e contexto religioso, destacando-se Santo Agostinho, Santo Anselmo e S. Tomás de Aquino, entre outros. Na Idade Moderna os pensadores elevaram já uma teoria, a teoria do conhecimento, onde se destacaram do lado do empirismo (conhecimento baseado na experiência sensível) Hobbes, Locke, Berkeley e David Hume. Já do lado do racionalismo (conhecimento baseado na razão) foram Descartes e Espinosa os que mais se destacaram. Kant, no século XVIII tentou sintetizar o empirismo e o racionalismo, ocupando-se sobretudo da epistemologia (episteme=conhecimento).
A Filosofia contemporânea conheceu uma vitalidade e diversidade enorme. Os temas mais debatidos foram e ainda são a metafísica, a filosofia da religião, da arte, da linguagem, da lógica e da política e a ética aplicada.
Os elementos da Filosofia são fundamentais para a clarificação de conceitos e qualquer Filósofo tem de recorrer sobretudo a argumentos para defender as suas posições. Quando nos surge um problema/questão, devemos apoiar uma teoria, quer pessoal, quer uma teoria que já tenha sido aceite. Porém devemos argumentar e mostrar a nossa opinião, e, ao mostrar a nossa ideia devemos defender a nossa tese, com o objectivo de defender o próprio argumento.
Na Filosofia para explicar a alguém o que é determinada coisa, podemos defini-la implicitamente ou explicitamente ou então caracterizá-la. Foi isso que fizemos nas aulas. Procurámos caracterizar a Filosofia como: uma atitude crítica, uma tomada de posição e um estudo a priori.
A Filosofia é uma actividade crítica, e ser crítico não é dizer “não” para marcar a diferença, mas avaliar cuidadosamente as ideias, procurando boas razões quer para aceitar ou recusar a ideia. Na Filosofia não há vitoriosos!
A Filosofia de alguma maneira identifica-se com a Matemática, pois recorre apenas ao pensamento. Daí o conceito “a priori”, opostamente “a posteriori”, quando conhecemos algo recorrendo à experiência. Em Filosofia pensamos por nós próprios, como na Matemática, recorremos ao pensamento para realizar contas.
Agora falando das nossas crenças. Existem muitas crenças que é como se nascessem connosco, e se alguém nos fizer a pergunta porque acreditamos nessas crenças, não sabemos responder. O que se passa é que muitas das crenças em que acreditamos são-nos transmitidas pelos pais, amigos, professores, e pela própria sociedade, o que quase nos impossibilita de pensarmos no que nos faz realmente acreditar. A crença da religião, por exemplo, é-nos incutida desde muito novos, e com uma idade precoce não temos opinião própria, mas isso não invalida que a crença esteja quer certa quer errada. Muitas vezes não é necessário aceitar uma crença unicamente quando esta é sustentada por provas experimentais e argumentos sólidos. Volto ao caso da religião, acreditamos numa certa coisa baseando-nos no que chamamos “fé”, são por isso ideias pré-concebidas, que nós não sujeitamos à crítica.
Mas voltando à actividade crítica da Filosofia, esta recusa-se a aceitar qualquer crença que as provas experimentais e o raciocínio não mostrem que é verdadeira. Para fundamentar a nossa opinião em relação a qualquer crença é fundamental libertarmo-nos de preconceitos, preconceitos esses que são ideias que tomamos como verdadeiras sem razões para tal. A Filosofia não aceita uma crença só porque se pensa em algo óbvio nem por ter sido proclamada por homens sábios e superiores, mas dedica-se à investigação persistente e de espírito aberto. Deste modo a Filosofia impede-nos de seguirmos as ideias que nos são induzidas por um mero agrado, mesmo sem razões para isso, pois esta permite-nos ir mais além no pensamento e duvidar de qualquer questão aparentemente correcta, para assim não ficarmos restritos ao que nos foi transmitido, abrindo horizontes e definindo ideias próprias argumentadas e defendidas.
Cristiana, 10º A

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

NEGAÇÃO DE PROPOSIÇÕES


Em qualquer discussão, saber negar ideias ou proposições é muito importante e parece fácil. Mas a negação de alguns tipos de proposições dão origem a confusões e erros.

A negação de uma proposição inverte o seu valor de verdade.

Se a proposição de partida for verdadeira, a sua negação será falsa; e se a proposição de partida for falsa, a sua negação será verdadeira. Se isto não acontecer, não é uma negação.
Veja-se o caso das proposições universais.

Chama-se proposição universal a qualquer proposição da forma« Todo o F é G» ou «Nenhum F é G», ou formas análogas.

O F e o G assinalam os lugares em que devemos inserir nomes de classes de coisas; por exemplo, «gregos», «mortais», ou «livros». Desse modo, forma-se frases como «Todos os gregos são mortais», que exprime a mesma proposição que «Todo o grego é mortal». Um erro comum é pensar que a negação de «Todas as verdades são relativas» é «Nenhuma verdade é relativa». A negação correcta é «Algumas verdades não são relativas».

A Arte de Pensar - Filosofia 10º Ano, Aires Almeida e outros
Didáctica Editora

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O CÉU


O céu colabora na nossa vida íntima, vive connosco, acompanha-nos na mudança do nosso ser; é um confidente, é um consolador; invoca-se, fala-se-lhe. Olhar o céu é, nos nossos climas, uma ocasião de viver: instintivamente, voltamos para ele os nossos olhos. O poeta meridional, cheio de imagens e de cores, contempla-o; o burguês trivial, admira-o; pela manhã, abre-se a janela e vai-se ver o céu! É um íntimo sempre presente na nossa vida; o nosso estado depende dele: enevoado, entristece-nos; claro e lúcido, alegra-nos; cheio de nuvens eléctricas, enerva-nos. É no Céu que vemos Deus... E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no.
Eça de Queirós, in 'O Egipto'

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O Ofício Literário


Por que se perde um escritor? O que acontece para que um romancista maravilhoso se afunde para sempre no silêncio como quem se afunda num pântano? Ou ainda pior e mais inquietante: a que se deve o facto de um bom narrador começar de repente a redigir obras pavorosas?
Muitos sem dúvida, partem a espinha com o fracasso. O ofício literário é o que há de mais paradoxal: é verdade que se escreve em primeiro lugar para si próprio, para o leitor que se tem cá dentro, ou porque não se consegue evitar escrever, porque se é incapaz de suportar a vida sem a distrair com fantasias; mas, ao mesmo tempo, precisa-se inevitavelmente de se ser lido; e não apenas por um leitor, por excelente e inteligente que este seja, por muito que se confie no seu critério, mas por mais pessoas, muitas mais, para dizer a verdade, por muitíssimas mais, uma multidão abundante, porque a nossa fome de leitores é uma avidez profunda que nunca se sacia, uma exigência ilimitada que roça a loucura e que sempre me pareceu extremamente curiosa. Sabe-se lá de onde virá esta necessidade absoluta que converte todos os escritores em eternos indigentes do olhar alheio.

Rosa Montero, A louca da casa, Edições Asa

domingo, 29 de agosto de 2010

AS PALAVRAS


O escritor está sempre a escrever. Na realidade, nisso consiste a graça de ser romancista: na torrente de palavras que lhe fervilha constantemente no cérebro. Redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos, enquanto levo os meus cães a passear, por exemplo: dentro da minha cabeça vou deslocando as vírgulas, substituindo um verbo por outro, afinando um adjectivo. Às vezes redijo mentalmente a frase perfeita e, no pior dos casos, se não a aponto a tempo, mais tarde foge-me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exactas que iluminaram por um instante o interior do meu crâneo, para depois voltarem a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que nos revelam apenas um brilho de escamas por entre as águas negras. Se se libertam do anzol, o mais provável é não conseguirmos voltar a pescá-las. São manhosas as palavras, rebeldes e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (convertê-la num lugar-comum) é acabar com ela.

A louca da casa, Rosa Montero, Editora Asa

sexta-feira, 23 de julho de 2010

BOAS FÉRIAS!!!


Boas férias para todos os leitores de Katársis.
Vamos neste tempo de Verão andar por aqui, por ali e por além, longe...
Aproveitem! Leiam muito e procurem ser felizes.
Um beijo.

Isa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PEÇAS EM FUGA


"O passado sombra é moldado por tudo o que nunca aconteceu. Invisível, derrete o presente como a chuva no karst. (1) Uma biografia de saudade. Conduz-nos como um magnetismo, um torso do espírito. É assim que ficamos desfeitos por um cheiro, uma palavra, um lugar, a fotografia de um monte de sapatos. Pelo amor que fecha a boca antes de chamar um nome.
Não assisti aos acontecimentos mais importantes da minha vida. A minha história mais profunda tem de ser contada por um cego, um prisioneiro do som. Detrás de uma parede, debaixo da terra. Do canto de uma pequena casa numa pequena ilha, saliente como um osso na pele do mar."

(1)Karst: Área de terreno calcário caracterizada por charcos, ravinas e cursos de água subterrâneos

Extracto retirado do livro, Peças em Fuga de anne michaels. É um livro que me toca pelas reflexões profundas, poéticas, na evocação de imagens da infância. Trata-se da libertação dos traumas da guerra pelo percurso ao mais íntimo de si do poeta grego Jakob Beer que pouco antes de morrer, atropelado em Atenas, em 1993, tinha começado a escrever as suas memórias. "A experiência da guerra não termina com a guerra. O trabalho de um homem, tal como a sua vida, nunca está completo..."
Aconselho a leitura nestas férias....

Peças em Fuga, Anne Michaels, Editorial Presença

quarta-feira, 21 de julho de 2010

BANQUETE DAS ALMAS


" Naquela mesa cercada de cadeiras, com cálices cheios...almas
Na parede uma tapeçaria, tecida a tons de outros tempos idos...
Ali o banquete de almas sem voz, gritam pelo povo tecido sem parede.
Contada a história fica esquecido o povo dos povos com vozes.
Ali vive a minha alma em silêncio e sem história."
JA

terça-feira, 20 de julho de 2010

NÃO !!



Não...
Mas o que é isto?
Quem vagueia pelos palácios construidos com sangue Nobre povo!
Quem são essas gentes de horários nobres que por ai ferem o meu povo?
Quem de tão grande sabedoria se atreve a pedir ao povo para não comer.
Mas o que é isto? Os campos verdes agora parecem castanhos e sem sementes novas.
Dizem alguns vem, vem por aqui, dizem outros vem vem por aqui...
Mas o que é isto? Nao sabem que o povo é uma alma e a voz uma muralha?
Esta é uma tapeçaria tecida pelo povo, e com heróis sem TI...
Isto é alma do povo que sou, e que no mundo semeou outra história...mas não matou os campos de ninguém!
JA

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TRILHOS ii...


" Escuta os sons que dentro de ti vivem."

TRILHOS i...


"Deixa fluir cada sentido nos teus passos e repara nos segredos que olham para ti."

TRILHOS...


" Cada passo que demos com a terra, é uma força que nasce em nós"

domingo, 18 de julho de 2010

COLHE CADA MANHÃ


" Colhe cada manhã com aquele sorriso que nasce tímido"
JA.

Calcei as sapatilhas e vou devagar
olhar o chão,
escutar o vento,
vou colher esta manhã o murmúrio do regato,
o silêncio das aldeias.
À tarde quando voltar,
vou trazer um fruto dos meus passos,
um pedacinho do meu céu
e um grão de terra.
Isa.

sábado, 17 de julho de 2010

MOTIVO



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

Cecília Meireles

quinta-feira, 15 de julho de 2010

SOLAR


E nos intervalos da Filosofia... Leituras de Verão...

" Michael Beard é um físico galardoado com o Prémio Nobel cujo trabalho já conheceu melhores dias. Agora vive da sua reputação, proferindo conferências, emprestando o nome a instituições científicas e aceitando - pouco convictamente - presidir a uma iniciativa sobre aquecimento global levada a cabo com dinheiros públicos. Mulherengo compulsivo, Michael vê entretanto ruir o seu quinto casamento. Mas desta feita é diferente: é ela quem tem um caso e ele ainda está apaixonado.
Quando os mundos profissional e pessoal de Michael colidem inesperadamente, conjugam-se as almejadas oportunidades de fugir da confusão conjugal, revitalizar a carreira e salvar o mundo da destruição ambiental.
Solar é um romance inteligente e sombriamente satírico que revela a fragilidade humana confrontada com os mais prementes e complexos desafios do nosso tempo. Uma obra profunda e elegante de um dos escritores maiores da actualidade."

Retirado da contrapaca do livro.
Solar, IAN McEWAN, Gradiva, Março 2010

Comecei ontem a leitura do livro. O tom irónico e satírico que provoca em mim o sorriso, prende-me às páginas inquietantes de IAN McEWAN. Recomenda-se a leitura deste livro...

terça-feira, 13 de julho de 2010

O MUNDO NOCTURNO



Noite Estrelada sobre o Ródano, 1888
Oléo sobre tela
Museu d´Orsay, Paris

(As luzes da cidade reflectem-se em longas linhas no Ródano, e as estrelas cintilam, quais auréolas, no céu nocturno: um relevo de amarelo e azul a dar a impressão da noite.)

Depois do seu regresso de Saintes-Maries, Van Gogh, manifestara, em cartas dirigidas a Theo,(seu irmão) o desejo de finalmente pintar um céu estrelado. Com o auxílio de um candeeiro a gás, pintou, em Setembro de 1888, o céu nocturno na margem do Ródano, virado para a ponte de Trinquetaille. Pinceladas largas do céu azul esverdeado, a cidade ao longe, em azul e lilás, água azul cobalto e um prado verde amarelado em primeiro plano, com um casal de veraneantes, articulam este panorama nocturno em grande formato. As luzes da cidade reflectem-se na água em longas refracções, enquanto as luzes das estrelas, sobretudo na reprodução da Ursa Maior, se difunde de forma cintilante. Pinceladas vogorosas e amplas oferecem um relevo cromático cheio de contrastes.
Mini Guia de Arte, Van Gogh, Dieter Beaujean, Konemann

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ESTRUTURA E CONTORNOS


A estrutura, a articulação ou ordenação interna dos elementos como o todo, é um princípio artístico da composição que se torna mais evidente sobretudo nos trabalhos tardios de Van Gogh. A forma mais minúscula dos elementos de composição na pintura, que só no seu conjunto se transformam numa representação, é decerto o pontilhismo. Em trabalhos de Van Gogh, como a Noite Estrelada (1889) estão agrupados tais elementos de composição: linhas enroladas sobre si mesmas transformam-se em estrelas no céu nocturno, pinceladas impetuosas em picos de ciprestes, superfícies curvas tracejadas produzem cumes de montanhas e formas geométricas reproduzem a arquitectura de um lugar. O conjunto de tudo isto é uma noite estrelada, vivida aparentemente em delirantes, embora muito estudados, impulsos e pinceladas de cor.

Van Gogh, Mini Guia de Arte, Dieter Beaujean, Konemann

domingo, 11 de julho de 2010

DIA EM VÃO


A janela está fechada. Subi para me deitar cedo e não tenho sono.
Não falei com ninguém desde há dez dias, excepto uma vez ao homem do cigarro. A noite está extremamente silenciosa. Por toda a parte, à volta do quarto, o vento, o ruído do mar, passos no corredor, latidos de cães, em baixo. No quarto, um silêncio muito denso e no meio o meu coração que bate. Resta-me o meu coração que bate sempre, sempre. Junto do mar, em pleno dia, é diferente. Está-se nas mãos do mar. Sente-se esse prazer de o respirar. Numa ordem que não sente, é-se esse nada de desordem que sente. Uma coisa a constatar o mar. Saboreia-se então com sofreguidão o barulho do coração que bate. No momento em que ele poderia não... Que bate em vão. Ou por um motivo que hoje não tem. Que bate em vão. Porque, de cada vez, hoje é um dia em vão, que não terá outro igual. Está-se em férias de si mesmo ao esperar em vão. Nesse caso vive-se para o prazer; está-se presente nesse presente; as pernas não podem conter-se mais, elas querem mexer-se e estão sufocadas de riso.

Vida Tranquila, Marguerite Duras, DIFEL, 1989

sábado, 10 de julho de 2010

UM RENQUE DE ÁRVORES


Um renque de árvores lá longe, lá para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores?
Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são cousas, são nomes.
Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem,
Que traçam linhas de cousa a cousa,
Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais,
E desenham paralelos de latitude e longitude
Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!

Alberto Caeiro, XLV - Um Renque de Árvores , in Guardador de Rebanhos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

1 Km DE CADA VEZ


Nos intervalos da Filosofia... leituras de férias

O meu fascínio pelos livros de Gonçalo Cadilhe. Com eles viajo "ao sabor do tempo."

Da África Austral às Galápagos, da América Central à Oceânia, da Polinésia à Índia, "1 Km de Cada Vez" leva os leitores numa viagem de 15 meses, desprendida das imposições do tempo, por alguns dos locais mais fascinantes do planeta.
Em "1 Km de Cada Vez", Gonçalo Cadilhe homenageia o "fascínio da viagem". Para além de lugares, a obra detém-se em pessoas e em histórias, permitindo o reencontro com sítios já visitados, com amigos e antigos companheiros de aventura, sem pressa de partir.
Para Gonçalo Cadilhe, este é um livro diferente dos anteriores. "É um olhar mais profundo e maduro sobre a viagem, os encontros, os regressos, uma reflexão sobre esse privilégio imenso que é poder andar pelo mundo sozinho com uma mochila às costas", revela o autor.
Mais do que os locais que percorre, Gonçalo Cadilhe defende que o fascínio de "1 Km de Cada Vez" está "na sua diversidade, no olhar sempre renovado do viajante". "O fascínio é a própria viagem", sublinha.
De resto, nota Gonçalo Cadilhe, o próprio título do livro "recorda essa expressão 'um dia de cada vez', que ensina a não colocar as ânsias, os problemas de amanhã na nossa cabeça hoje". É o viajar pelo viajar, como se para isso houvesse todo o tempo do mundo. Por isso, é entre risos, que responde que o lugar que até hoje mais o tocou é "o próximo". Afinal, é "a curiosidade do Outro, saber o que significa para um habitante de um certo lugar ser desse lugar" que continua a fazer Gonçalo Cadilhe partir para novas viagens e para novos livros, com os quais procura sobretudo "provocar todos os que têm essa curiosidade de ver o que está do lado de lá da fronteira".
Jornalista e cronista de viagens, Gonçalo Cadilhe nasceu na Figueira da Foz. Licenciado em Gestão de Empresas, escreveu para a revista "Grande Reportagem", sendo actualmente colaborador do semanário "Expresso". Entre as obras já publicadas encontram-se "No Princípio Estava o Mar", "Nos Passos de Magalhães", "África Acima", "A Lua Pode Esperar", "Planisfério Pessoal" e "Tournée".

Retirado da Net - Ideias Concertadas

quinta-feira, 1 de julho de 2010

PARIS


Nos intervalos da Filosofia... leituras de férias.

Aqui, o mar protege da sensação de asfixia, de se estar enterrado na cidade. Aqui, Paris surge como se fosse um lapso, um estado inadmissível da cidade. É aí, em Paris, que se encontra o mercado da morte, o da droga e do sexo. É aí que assassinam velhinhas. É aí que se deita fogo ao dormitório dos negros, seis em dois anos. É aí que há toda uma população automóvel que é malcriada a conduzir, grosseira, insultuosa, que assassina com o carro: os novos - ricos dos circuitos financeiros da heroína, os PDG da morte. Andam de Volvo e de BMW. Dantes, estas marcas eram a elegância dos sapatos, dos perfumes, da voz e de falar com amabilidade a toda a gente. Era, se quisermos, o snobismo da discrição. Agora já não apetece comprar estas marcas. Paris, a cidade, a Medina. Onde nos perdemos.

A Vida Material, Marguerite Duras, DIFEL

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A AUTO-ESTRADA DA PALAVRA



Nesta espécie de livro que não é um livro eu gostava de ter falado de tudo e de nada, como todos os dias, ao longo de um dia como os outros, banal. Entrar na grande auto-estrada, a via geral da palavra, e não me deter em nada de especial. É impossível fazer isso, saír do sentido, não ir a parte nenhuma, falar apenas, sem partir de um dado ponto de conhecimento ou de ignorância e chegar ao acaso no tumulto das palavras. Não se pode. Não se pode saber e não saber ao mesmo tempo. Portanto este livro, que eu queria que fosse como uma auto-estrada em questão, que devia ir a toda a parte ao mesmo tempo, vai ficar a ser um livro que quer ir a toda a parte e só vai a um lugar de cada vez, e que torna a voltar e a partir novamente como toda a gente, como todos os livros, a menos que se calem, mas isso, isso não se escreve.


A Vida Material, Marguerite Duras, DIFEL, Lisboa

terça-feira, 29 de junho de 2010

A LOUCA DA CASA


A LOUCA DA CASA
De ROSA MONTERO *

O livro que eu gostava de ter escrito

* Rosa Montero, nascida em Madrid em 1951, jornalista há quase 40 anos, é também autora de romances e ensaios traduzidos em várias línguas. O seu nome é imediatamente associado ao diário espanhol El País, para o qual trabalha desde a sua fundação, em 1976.
Figura central da literatura espanhola contemporânea, narradora de ficção – como gosta de se considerar – pois que o que mais a apaixona é a ficção, tem vários livros editados em Portugal, dos quais destacamos, para além de A Louca da Casa (Edições Asa, 2004); Histórias de Mulheres (Edições Asa, 1995); Paixões: Amores e Desamores que Mudaram a História (Editorial Presença, 2000) e História do Rei Transparente (Círculo de Leitores, 2005).
A Louca da Casa (2003) recebeu o Prémio Grinzane Cavour de literatura estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol, distinção igualmente atribuída, em 2006, a História do Rei Transparente.

«A imaginação é a louca da casa.»
Santa Teresa de Jesus

«A imaginação é a forma como completamos a realidade e assim conseguimos sobreviver, porque se não a existência seria um caos insuportável. Digamos que a vida imaginária é tão autêntica como a real, onde existe também uma grande dose de ficção.»
Rosa Montero (em entrevista à Revista Visão, 2004)

Não sendo esta a circunstância para debater se há uma escrita feminina ou, no dizer de alguns, uma literatura “de mulheres”, apresento-vos, em vez disso, um livro delicioso e intimista escrito por uma mulher, com um título no feminino, em que a ambiguidade de olhares narrativos é, mais do que uma marca de género, um valor literário.
* * * * * * * * * * *
Feio pecado este da inveja! Que, peço, me seja perdoado pela confissão que vai no título e repito: “Queria muito ter sido eu a escrever este livro!”, penso, cada vez que o releio. E faço-o muitas vezes, pois volto frequentemente a páginas avulsas deste inclassificável e desarmante A Louca da Casa em que, qual ovo de Colombo ou intuição inspirada, Rosa Montero nos dá o fascínio e a magia da escrita, fingindo que escreve sobre si e os outros… escritores, enquanto conversa connosco, leitores.
Apreciadora incondicional de livros de difícil catalogação, gosto de tudo neste: da indefinição do texto em termos de género - um híbrido que, saltitando entre o romance, o ensaio, a (auto) biografia, joga com o real e o fictício - ao título “roubado” a uma frase de Santa Teresa de Ávila; do estilo leve e descomplexado da autora à análise, por vezes mordaz, dessa coisa mágica, misteriosa, da imaginação literária e da sua ténue e nevoenta fronteira com os múltiplos desdobramentos possíveis da realidade. Mas há mais: entusiasta de biografias, em A Louca da Casa disponho, na fluidez da escrita jornalística de Rosa Montero documentada no seu conhecimento lúcido da classe por dentro, de centenas de referências a circunstâncias e cenas das vidas conturbadas de numerosíssimos autores de obras, para mim, mais ou menos conhecidas.
Em suma, A Louca da Casa não é um ensaio sobre literatura, mas antes uma espécie de mini tratado divertido e inteligente sobre a dimensão salvadora do trabalho de criação literária. Dito de outro modo: sob a aparência de uma brincadeira muito séria e original, surge-nos a absoluta apologia do poder da imaginação; um olhar próprio sobre o mundo ou, nas palavras da autora, «… um livro que joga com a imaginação não só do artista ou do escritor, mas de todos os seres humanos. (…) o ser humano é, sobretudo, um contador de histórias. Mesmo as pessoas que dizem que não são imaginativas não se apercebem até que ponto dependem da imaginação para sobreviver».
E este jogo é levado tão longe pela autora que deixamos absolutamente de saber se a existência de alguns elementos autobiográficos semeados no texto são ou não verdadeiros. Rosa Montero diverte-se/nos contando histórias da sua vida, que, não raro, se contrariam, o que permite supor que, por acção da “louca da casa", tais factos só terão existido, afinal, na/pela imaginação da Rosa Montero, ficcionista.
Dois exemplos: as histórias de infância e juventude envolvendo a irmã, «…Martina, que é e não é», fantasiadas ou não, deixam de traduzir e completar realidades só porque Rosa Montero não tem, de facto, irmãs? E o que interessa saber se a narradora teve ou não um caso com um actor de Hollywood, se ela nos conta, em três divertidas versões, uma eventual aventura amorosa com tal “estrela”?
. Importa bem mais a forma como metaforicamente a autora nos desvela o processo criativo, com momentos muitas vezes iluminados e inspiradores. E nos mostra como, através da leitura de romances, cada um de nós poder viver muitas outras vidas e, desta maneira, aprender a viver melhor a sua.
Quanto a escrevê-los defende, depois de nos contar, em mais uma das suas histórias-metáfora, como a principal personagem, uma velhinha freira de clausura, pôde finalmente, da varanda defronte, ver o seu convento do lado de fora: «Escrever romances implica atrevermo-nos a contemplar este trajecto monumental que nos arranca de nós próprios e nos permite ver-nos no convento, no mundo, no todo. E depois de fazer esse esforço supremo de compreensão, depois de roçar por um instante a visão que completa e que fulmina, regressamos a coxear à nossa cela, à prisão da nossa estreita individualidade, e tentamos resignar-nos a morrer».
Definitivamente, recomendo a quem gosta de ler, se interessa pelo mágico ofício de escrever, ou simplesmente deseja conhecer os mecanismos da criação literária na sua relação com esse «bichinho álacre e sedento» da imaginação, que bole na nossa cabeça como na de Gedeão e de outros monumentais autores.
Um convite ao puro ao prazer de ler ou um (novo) elogio da loucura – a “mentira” pessoana, lembram-se? – porque, «na pequena noite da vida humana, a louca da casa acende velas».

Professora - Dulce Martinho

segunda-feira, 28 de junho de 2010

100 FILÓSOFOS


Os cem retratos incluidos neste volume constituem uma história portátil da filosofia, uma magnífica síntese das posições de cem filósofos. Vão até ao cerne de cada sistema para identificarem os seus instrumentos, que usamos nas nossas próprias construções. Podemos também levá-los connosco, nas nossas viagens, tanto para as ilhas dos nossos tormentos como para as das nossas felicidades. Um vasto panorama em que os filósofos ganham vida, animam os seus conceitos em transportes de ideias precisas como flechas.

100 Filósofos - De Aristóteles a Wittgenstein, Jean - Clet Martin, Teorema, Janeiro de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

NO CÍRCULO DOS IMPRESSIONISTAS


Um peregrino entre dois mundos: Paul Gauguin conseguiu, mais do que qualquer outro artista, viver a existência que evocou na sua obra. Ele não queria apenas pintar o primitivismo e a harmonia ingénua de uma vida selvagem e rudimentar, apresentando-os como reverso da medalha da sua própria civilização, que desprezava. Ele queria viver essa outra forma de vida e, através da própria vivência, mostrar que o exotismo do Pacífico Sul era algo mais do que a magia artificial que na altura, na sequência de várias exposições mundiais e de reportagens jornalísticas, fascinava a Europa. Gauguin é considerado um dos pioneiros do Modernismo, porque ele foi um dos primeiros a dar corpo à ligação entre a arte e a vida, a fantasia e a ordem, que irá dominar o mundo pictórico do século XX.

Gauguin, Taschen