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sexta-feira, 30 de abril de 2010

ESQUECER PARA MEMORIZAR


" Como todas as coisas do Universo a memória sofre degradação e a desintegração, o que se chama esquecimento. A diminuição da memória é ininterrupta. A própria memória tende a torna-se lacunar, incorrecta, enganadora. Além disso, sofre profundamente o efeito das forças de recalcamento que expulsam a recordação incómoda."
Edgar Morim

Esquecimento é a incapacidade de recordar, de recuperar dados, informações, experiências que foram memorizados. Esta incapacidade pode ser provisória ou definitiva.
Geralmente associa-se ao termo esquecimento um valor negativo, sendo, muitas vezes, considerado uma falha, uma patologia da memória. Contudo, o esquecimento é essencial, é a própria condição da memória: é porque esquecemos que continuamos a reter informações adquiridas e experiências vividas. Seria impossível conservar todos os materiais que armazenamos, tendo o esquecimento a função de seleccionar para podermos adquirir novos conteúdos. O esquecimento tem assim, uma função selectiva e adaptativa: afasta a informação que não é útil e necessária. Afasta também, os conteúdos conflituosos.

" Uma boa memória é útil, mas também o é a capacidade de esquecer."
Meyers

Ser Humano, Psicologia B- 12º Ano, Porto Editora


quarta-feira, 28 de abril de 2010

VIAGEM INICIÁTICA


No princípio era o mito. E assim como o grande Deus fazia poesia na alma dos hindus, gregos e germanos, procurando expressar-se, assim de novo ele fazia poesia, dia após dia, na alma de cada criança. Então, eu ainda não sabia como se chamavam o lago, os montes e ribeiros da minha terra; mas olhava a vastidão lisa, verde-azul do lago ao Sol, recamada de pequenas luzes, as montanhas abruptas em redor, como uma corda espessa, nas gargantas mais elevadas, as falhas reluzentes de neve e as pequenas, minúsculas quedas de água, e no sopé as luminosas veigas salpicadas de árvores de fruto, cabanas e vacas cinzentas dos Alpes. E estando a minha pobre pequena alma tão vazia, silenciosa e anelante, os espíritos do lago e das montanhas escreveram nela os seus belos e ousados feitos. As hirsutas escarpas e rochas falavam, insistentes e plenas de respeito, dos tempos de que descendem e trazem as cicatrizes. Falavam do tempo em que a Terra quebrava e vergava e, do seu seio atormentado, gemendo nas dores do parto, fazia irromper picos e cristas. Montanhas de rocha erguiam-se bramindo e retumbando e, aguçando-se sem medida, partiam; montes gémeos lutavam desesperadamente por espaço, até que um deles vencia, e se elevava, e lançava o seu irmão para o lado, despedaçando-o. Desses tempos, nos desfiladeiros, jaziam ainda aqui e além, cumes partidos, rochas expelidas e fendidas, e de cada vez que a neve derretia, a queda das águas lançava para baixo blocos tão grandes como casas, estilhaçando-os como vidro ou, com golpes colossais, cravava-os profundamente em veigas suaves.

Hermann Hesse, Peter Camenzind, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O HOMEM DO LEME



O Homem Do Leme

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do
leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros,
os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo,
impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade,
rompendo a saudade,
vai quem já nada teme,
vai o homem do
leme...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...

Xutos e Pontapés

domingo, 25 de abril de 2010

"A ILHA"- CLONAGEM VS ÉTICA


“A ilha” Clonagem VS Ética
A ilha é um filme que tem como objectivo apelar aos problemas éticos e morais que a clonagem nos leva a praticar.
Encontramo-nos no ano de 2019, num grande complexo com centenas de pessoas todas elas ansiosas para sair desse mesmo lugar e ir para uma ilha prometida que lhes trará “de novo”, a liberdade e a satisfação de viver com uma vida “supostamente” normal.
O filme apresenta-nos Lincoln como um homem que, certo dia, acorda e se vê aprisionado a uma vida comandada por outros homens, no pressuposto de ser um dos poucos sobreviventes a um vírus que contaminou todo o planeta, excepto a ilha. Esta situação apresenta logo uma contradição aos costumes do homem. A liberdade e a autonomia não são possíveis às pessoas que vivem neste complexo, visto que, estão constantemente condicionadas na forma de vestir e calçar, no que devem comer e mesmo no que devem ou não sentir a nível emocional, psicológico e físico (tudo isso por serem considerados objectos e não seres racionais).
Jordan, um dos clones do complexo, é sorteada com a viagem esperada por todos. Chegara a sua hora de partir para a ilha. Mas Lincoln, que amava Jordan, sabia que ela não iria para a ilha, mas que seria morta, como acontecera com outras pessoas antes dela. Numa tentativa de a salvar, Lincoln e Jordan fogem do complexo. Depois da fuga são perseguidos numa tentativa de morte, mas Lincoln e Jordan são mais fortes do que as dezenas de polícias que os perseguem e resistem a todas as tentativas de detenção. Lincoln conseguiu mesmo que o seu “proprietário”, aquele que servira de “molde”para o seu aparecimento fosse morto por um dos polícias que estava em dúvida em saber qual era o “original” e qual era a “cópia”.
Na situação presente no filme, os dispositivos electrónicos passam a comandar a vida de todos estes clones indicando-lhes mesmo o modo como devem interagir uns com os outros. Neste complexo, todo o tipo de contacto físico é proibido, pois os clones são cópias de pessoas “lá fora” não podendo interagir entre si. E tudo isto, porque fora deste complexo há alguém que investiu uns milhares para ter o seu eu “de reserva” para ocasiões em que seja necessário um fígado, um olho ou mesmo um coração novo, mesmo que para isso, seja necessário destruir a vida de uma pessoa, que não era um robô, mas sim um ser humano racional.
A ambição desmedida de se tornar perfeito e imortal a qualquer situação pode levar o Homem a construir um clone. Esse clone resolveu um dos seus problemas e foi deitado fora como se de um objecto se tratasse. Mas esse clone não resolveu todos os problemas e surge a necessidade de construir um outro clone. Esse clone colmatou mais um problema, mas o homem sente necessidade de construir mais um, e ainda outro, perdendo a noção dos limites entre o que a ciência nos pode proporcionar e os problemas éticos e morais que pode causar com as suas atitudes.
Na actualidade, a situação vista no filme não acontece e ainda está muito distante a possibilidade de a clonagem reprodutiva, produzindo um ser humano completo, ser realizável. Este mostra-nos um ponto drástico que poderemos vir a presenciar com a clonagem, pois o Homem faz qualquer coisa para sobreviver, nem que para isso seja necessário destruir outras vidas, para o seu bem.
Mélanie Lopes, 11ºB

sábado, 24 de abril de 2010

A ILHA


“ A ILHA”
O filme desenrola-se em torno de uma sociedade supostamente sobrevivente a uma contaminação fatal para a maior parte dos habitantes do planeta. Esta sociedade está sujeita a constantes exames físicos e psicológicos e sofrem um controlo extremamente pormenorizado de todos os seus actos.
Todos os habitantes desta sociedade, apresentada como sobrevivente, vivem com o objectivo e com o sonho de ir para a Ilha. A Ilha é mostrada como um paraíso no exterior a qual não fora afectada pela contaminação. A selecção para a ida para a Ilha é feita com base em sorteios. Os sorteios são diários e quem ganha parte para a inesquecível viagem invejada por todos os demais.
No entanto a forte curiosidade do morador Lincoln Six-Echo leva-o a seguir inúmeras pistas que o levaram a descobrir uma terrível verdade: todos os habitantes não passavam de clones cujo único propósito é fornecer parte dos seus organismos para os seus humanos “originais”. Estes humanos são, na maioria dos casos, celebridades famosas com importante papel na sociedade e são vistos como pessoas de elevados valores éticos.
Lincoln acaba, assim, por descobrir que a desejada Ilha afinal não existia e que após os sorteios os premiados seriam mortos. Então, apresentando uma elevada capacidade psicológica (que supostamente não era típica de clones), Lincoln consegue escapar do complexo com a sua predilecta colega Jordan Two-Delta.
Chegados ao mundo exterior, tudo era novo para estes dois clones. Apesar de conseguirem encontrar o humano “original” de Lincoln e pedirem a sua ajuda para denunciar a grande atrocidade que estava a ser cometida com os clones, este acabou por os entregar. No entanto Lincoln num processo de elevada capacidade estratégica conseguiu salvar-se e escapar às autoridades contratadas para eliminar os dois clones evitando, assim, um escândalo de grandes proporções.
Lincoln continuou a mostrar uma grande capacidade racional e conseguiu salvar a maior parte dos clones criados.
A clonagem humana levanta sérios problemas éticos e será certamente um dos maiores problemas do século XXI.
Este filme mostra que os clones adquirem capacidades semelhantes às dos humanos, sendo assim, na minha opinião devem ser tomados como tal.
Os clones transformam-se em pessoas com sentimentos e com sonhos de um futuro. Ao eliminarmos um clone estamos a apagar um conjunto de crenças, desejos e experiências o que na minha opinião é eticamente inaceitável. Esta é a principal mensagem que o filme tenta transmitir.
Na minha perspectiva a clonagem é aceitável se envolver o bem-estar de algumas pessoas mas não prejudicar quaisquer ser vivo, caso contrário é eticamente inaceitável.
Penso que o filme está muito bem realizado e transmite muito bem o problema ético da clonagem no entanto não gostei do fim, uma vez que este é muito previsível e ficamos sem saber a reacção da população mundial á grande atrocidade feita com a existência destes clones.

Bruno Cancela, 11ºB

sexta-feira, 23 de abril de 2010

QUANDO AS CRIANÇAS FILOSOFAREM ii


O Ponto de vista prático

" Se a filosofia está agora a encontrar o seu merecido lugar nas escolas básicas e secundárias, isso deve-se a educadores decididos que descobriram o prazer em que ela consiste para os alunos e de como isso contribui, de forma significativas, para o seu progresso educativo, inclusive na área das competências básicas, como sejam a leitura ou a matemática."
Estas palavras de Lipman remetem-nos para dois aspectos fundamentais quando falamos no trabalho de Filosofia para crianças:
a) o papel da Filosofia em Educação (interdisciplinariedade);
b) o carácter lúdico da Filosofia.
A interdisciplinariedade é um dos aspectos mais significativos do trabalho em Filosofia. Esta característica só é possível porque decorre desta disciplina uma preocupação pelo mundo circunstante que, do ponto de vista material (dos conteúdos), não marca fronteira, não restringe campos de aplicação, transporta, isso sim, hábitos de análise, de interrogação que, embora próprios desta actividade reflexiva, se vão implantar em outros campos do saber. Por outras palavras, do ponto de vista formal, são sobretudo atitudes e comportamentos que constituem a interdisciplinariedade deste trabalho. Esses comportamentos manifestam-se de forma mesclada em que perfis críticos se confundem com os éticos. (...)
Outro aspecto que se torna difícil de isolar na apreciação que as crianças fazem do seu trabalho em Filosofia, é o carácter lúdico que este traz consigo.
" Filosofia é o gosto de desenvolver o nosso pensamento e a nossa cultura geral." (Joana 9 anos)
Talvez seja pelo seu trabalho de (re)construção do Mundo, juntamente com as operações lógicas a ele inerentes - como a feitura de analogias, o estabelecer e classificar relações, detectar ilações e consequências, etc. - e pelo espírito de descoberta que lhes está subjacente, que constituem os ingredientes necessários a esse gosto pelo pensar, e que os faz considerar a Filosofia, simultaneamente, um tempo de divertimento e de dificuldade.
Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica -Debates, Edição Antena 2, Lisboa -1998

quinta-feira, 22 de abril de 2010

QUANDO AS CRIANÇAS FILOSOFAREM


O que tentarei demonstrar, de forma sucinta, é que as crianças são, de facto, capazes de filosofar e o fazem até com gosto. Quando a Escola permitir que a reflexão filosófica tenha o seu merecido lugar no contexto educacional, as crianças, estou disso certa, não deixarão de responder, entusiasticamente, ao desafio.
A questão fulcral, é, pois, esta:

SERÃO AS CRIANÇAS CAPAZES DE FILOSOFAR?

O ponto de vista teórico

" Quando entram na escola, todas as crianças normais são capazes de evidenciar as suas competências de seres pensantes e de utilizadores de linguagem de forma a merecerem o nosso respeito, uma vez confrontadas com situações que encontrem o sentido real da vida e em relação às quais demonstrem os seus propósitos e intenções e nelas sejam capazes de reconhecer semelhantes propósitos e intenções pela parte dos outros. (...) Estas intenções humanas constituem a matriz estrutural do pensamento da criança."
Esta citação chama-nos a atenção para três aspectos fundamentais:
a) o conceito de "situação";
b) a componente ética da reflexão;
c) o papel da experiência em Educação;

a) "Situação" terá de ser vista aqui num duplo aspecto: situação com / de sentido, que quando usada como objecto de reflexão, faz com que o mundo adquira significado; e, situação de aprendizagem, isto é, quando estão reunidas as condições para que a reflexão emerja.

b) A componente ética da reflexão diz respeito a uma forma intencional de olhar a realidade e de ser capaz de detectar nela formas intencionais de a encarar, pela parte do outro. A nossa visão da realidade não é neutra, mas interessada. Ter disso consciência, torna-se, pois, fundamental.

c) O papel da experiência consiste não apenas em recriar o Mundo, mas, de uma forma mais radical, em construí-lo. O mundo só é mundo se houver sentido, o sentido só é sentido se houver uma vivência que o faça tal.
" uma onda de experiência vale mais que uma tonelada de teoria, porque é somente através da experiência que qualquer teoria adquire sentido passível de verificação (...) quando separada da experiência uma teoria não pode ser totalmente apreendida, mesmo como teoria."
Se tomarmos como exemplo o programa educacional por Lipman nos finais da década de 70 - Philosophy for Children -, Filosofia está longe de desempenhar um papel teórico de um corpo de conhecimentos a ser transmitido, e captado de forma acrítica por parte dos alunos. Assume, muito pelo contrário, um aspecto eminentemente prático, de algo que é feito, construído, trabalhado, por oposição a algo que é passivamente assimilado e decorado.
" A filosofia é entender o porquê das coisas do mundo em que habitamos." ( Teresa, 9 anos)

Maria José Figueiroa Rego
Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica - Debates, Antena 2 - Lisboa, 1998

quarta-feira, 21 de abril de 2010

OS PORTUGUESES TAMBÉM FILOSOFAM


Quando se encara o panorama da Cultura Portuguesa, dificilmente se alcança a presença da filosofia, sobretudo quando comparada com a força de outras manifestações, nomeadamente da poesia e da literatura. A que se deve essa situação?

Naturalmente que não venho aqui fazer a apologia da minha arte, mas não será difícil compreender que a audiência e a repercussão pública da filosofia, tal como é comummente entendida, seja qual for o seu valor intrínseco, dificilmente consegue ombrear com as disciplinas que enumerou. A identificação entre um leitor e uma obra literária é por vezes mais imediata do que com uma obra de filosofia, no sentido em que eu posso apreciar, até um determinado grau de profundidade, um romance ou uma obra poética sem ser especialista em teoria da literatura, sendo também certo que o domínio da teoria literária me abre novos e mais ricos horizontes de compreensão.
O mesmo já não sucede com a filosofia, onde se requer, em qualquer caso, o domínio de um conjunto alargado de textos, a que por comodidade chamaria "clássicos", pois grande parte do universo da filosofia gira em torno de um diálogo sobre um leque de questões que vão merecendo abordagens sucessivas ao longo da história, e daí a importância do domínio dessa mesma história.
Caberia talvez, exemplificar, para que me não limite a abordagens em abstracto. Veja-se o caso de Antero de Quental. Como é possível compreender o que quer que seja da sua prosa filosófica - fixando-nos por enquanto apenas na prosa - sem ter lido Hegel, Kant ou Leibniz? Seria uma espécie de viagem perdida! Mesmo no caso do nosso iluminismo da segunda metade do século XVIII, não se compreendem minimamente as suas propostas e conteúdos doutrinários sem dominar todo o universo a que pretendeu opor-se, o qual emana do aristotelismo escolástico da Companhia de Jesus. Veja-se, para terminar, o ensaísmo filosófico de António Sérgio, cujo o núcleo nos escapa sem luzes de geometria e um pouco de epistemologia da matemática... Tudo isto para dizer que importa, no campo específico da filosofia, um percurso paciente e constante de formação intelectual, que, uma vez alcançado, num determinado grau de maturação, não é menos fascinante, levando-nos inclusive a compreender a afinidade e a proximidade entre a filosofia, a literatura e a poesia, para citar as que nomeou na sua questão.
Parte de entrevista de Esmeralda Serrano a Pedro Calafate

Filosofia pela Rádio, Colecção Philosophica - Debates, Edição Antena 2, Lisboa - 1998

terça-feira, 20 de abril de 2010

MEMÓRIA


A memória humana é um sistema complexo que, apesar da sua enorme capacidade e importância, se pode revelar inesperadamente muito falível. É algo difícil de lidar, não é como um computador que se formata o disco e desaparece tudo. Por vezes, até temos vontade de fazer isso mesmo mas, continuamos prisioneiros da memória, quer isso seja bom ou mau.
Todos sabemos que o segredo da vida é, de facto fascinante. O ser humano tem uma memória genética, que tem a informação da vida, as nossas vivências e tudo aquilo por que passamos, que diz tudo acerca de nós próprios.
A memória humana tem muitas funções para além de evocar certos tipos de informação, como datas, acontecimentos, nomes, conversas, etc. A memória é o fundamento dos comportamentos, conhecimentos e emoções humanas. Está directa ou indirectamente envolvida em qualquer aspecto do comportamento humano e, sem ela, não seria possível ver, ouvir ou pensar, no sentido mais global das coisas. É como uma bagagem que nos acompanha durante a nossa vida enquanto, fisicamente, não se dissolver… Às vezes incomoda-nos…outras vezes reconforta-nos. Muitas vezes podemos esforçar-nos por lembrar pormenores, outras vezes, uma borracha interior deveria limpar alguns pontos que nos desagradam.
Todos nós nos queixamos, por vezes, de que a nossa memória é horrível. Mas, pelo contrário, trata-se de um sistema magnífico, sem o qual não existiria aprendizagem, as relações interpessoais seriam impossíveis e passaríamos a viver um eterno presente.
Em síntese, a memória é o conjunto de processos que codificam, armazenam e recuperam informações sensoriais e experiências. É a capacidade do cérebro em armazenar, reter e recordar informação.

Mariana Loureiro -12ºB

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Taizé


A nove kilómetros de Cluny na Borgonha, alcandorada numa colina, vislumbra-se uma aldeia de nome Taizé. Aqui cultiva-se a simplicidade, a partilha, o despojamento dos bens materiais.
Em 1940, em plena guerra, um jovem natural da Suíça, instala-se nesta aldeia, protegendo e escondendo refugiados. Gradualmente sente em si a força de fundar uma Comunidade Ecuménica tendo consciência das limitações e dos fracassos. Esse jovem chamava-se Roger.
Actualmente, Taizé, é uma comunidade mundialmente conhecida. Milhares de jovens ao longo do ano, afluem a este local na ânsia de encontrarem um sentido autêntico para as suas vidas. A comunidade de irmãos fomenta encontros em todas as partes do mundo e está espalhada nos países menos desenvolvidos amparando os mais pobres.
Tive a possibilidade de viver a experiência de Taizé durante oito dias. Se no ínicio se estranha, depressa se entrenha. Nos últimos segundos, antes de deixar a aldeia, olhei para os sinos que convidavam ao silêncio, olhei para a vastidão dos campos ondulantes de pequenas flores e prometi voltar. Voltar para descobrir o tesouro que se esconde em Taizé. Nos meus ouvidos ressoa a musicalidade dos cânticos como um íman que me prendia horas na igreja da reconciliação, há em mim um apelo à simplicidade, ao silêncio, ao desprendimento daquilo que não é necessário.
Isa.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Nascimento de Vénus


O Nascimento de Vénus , cerca de 1485
Exposto na Galeria dos Ofícios, Florença.

Segundo a mitologia antiga, Vénus teria nascido da espuma dos mares. Botticelli representou-a aqui numa concha que flutua na água. Ela é empurrada em direcção à margem por duas divindades dos ventos, enquanto uma das Horas, as deusas das estações, tem nas mãos uma peça de roupa aberta, pronta a envolver Vénus.
Barbara Deimling, Taschen

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Primavera



A Primavera, cerca de 1482
Encontra-se na Galeria dos Ofícios, em Florença
Botticelli retoma aqui um conto mitológico de Ovídio, poeta da antiguidade: o deus do vento Zéfiro perseguiu a ninfa Clóris e transformou-a em Flora, a deusa das flores da Primavera.
O quadro trata-se de uma versificação filosófica (De rerum natura) atribuída ao poeta e filósofo antigo Lucrécio.

" Abriu-se a custo o olhar primaveril do dia, e que desenfreado reina o vento Zéfiro, os pássaros mostram-te primeiro, Divino, no céu, a ti e à tua vinda, o coração cheio das tuas violências... prisioneiros do teu encanto (...) a todos lanças no coração o amor de doces arrepios, e fazes com que cheios de desejos pela sua espécie, multipliquem as raças.

A Primavera e Vénus chegaram: à frente delas avançam o arauto alado de Vénus, e perto das pegadas de Zéfiro, á frente delas flora, a mãe, recobre todo o caminho e enche-o de perfumes requintados...Divino, perante ti fogem os ventos e as nuvens do céu, perante ti e a tua chegada. Para ti a Terra, artista feminina, envia flores perfumadas, a superfície dos mares dirige-te um claro sorriso, e o céu cobre-se suavemente com os seus luminosos raios."
De rerum natura, Lucrécio

sábado, 3 de abril de 2010

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM




Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade,
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa 19/08/1933

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BORGES E OS LIVROS



Falar de Jorge Luís Borges é falar de livros, de bibliotecas, de labirintos, de ficções, de imaginação e enigmas. Os livros foram parte essencial da sua vida marcada pela cegueira, não tanto pelos que escreveu, mas sobretudo pelos que leu. O famoso “bibliotecário” argentino deixou uma extensa obra, da qual destacaria a parte ficcional e os poemas, que são autênticas obras de arte. O texto que se segue é-lhe dedicado.
O livro, a obra literária, é, muitas vezes, uma verdadeira obra de arte. Este possibilita inúmeras leituras diversas, entradas, saídas, sem contudo se deixar aprisionar. É através dele que o autor partilha o seu modo de experienciar o mundo e a sua vida, que comunica aos homens o seu pensamento e o seu sentir, usando uma série de características próprias, uma arte de combinações possíveis, de fórmulas, de enigmas, uma certa estratégia, pelas quais se apresenta ao jogo da imaginação fecundante e activa dos leitores. Como afirma Bronowski: “O artista cria a obra, mas o espectador recria-a.”
O livro encerra em si mesmo uma reflexão, imaginação e interrogação sobre as possibilidades oferecidas a um discurso consigo mesmo, evocando quase sempre uma “máscara”do real ou do imaginário, dentro de uma harmonia ou fio condutor estabelecido pelo autor. Por conseguinte, ele escolhe os seus leitores, uma vez que detém em si uma pregnância distinta, um dado modelo, uma ontologia própria e, acima de tudo, revela uma harmonia que se refere a traços marcantes do seu autor e do seu pensamento. Com efeito, a obra literária tem sempre algo de individual, particularidades intrínsecas ao autor, revelando ao mesmo tempo sempre algo enigmático e, contudo, “sobrevivendo” à interpretação que pretende obter uma resposta final. Ao resistir o enigma mostra a sua virtude, pois permite renovar sempre uma nova resposta e, neste sentido, o livro é paradoxalmente: revelação e enigma.
Diz Umberto Eco que “os livros falam sempre de outros livros e qualquer história conta uma história já contada”, dado que o autor procura constantemente reinventar algo sobre os livros já existentes (Pierre Ménard em Borges) pois a criação torna-se imprescindível quer ao seu desenvolvimento quer à sua felicidade; poder-se-ia dizer até que o livro afigura-se como uma das possibilidades de satisfação, realização ou equilíbrio concedida, e do mesmo modo que a pintura é a arte de proporcionar a alegria com forma e cor, também a escrita pode ser mirada por outra via, isto é, como forma de prazer e alegria onde a biblioteca é uma espécie de câmara mágica onde todos os sonhos são permitidos. A felicidade será o sentimento que o livro desperta no leitor e que no fundo poderíamos chamar, tal como Borges: o momento estético.
Os livros são essencialmente expressivos, parecem querer dizer-nos algo, como que procuram desdobrar-se para se tornarem sensíveis à nossa captação, ao nosso sentir. No entanto, para haver captação é fundamental a compreensão da linguagem do texto, pois sem ela tornam-se numa forma vazia e desinteressante e não a fonte de onde brota ou faz brotar prazer de um modo quase ilimitado, sublime, que nos vai proporcionando vários tipos de contentamento.
Os livros são, de facto, extremamente importantes, todavia, essa importância só tem sentido na medida em que existe o leitor, pois ele é indispensável, uma vez que a sua existência e consequentemente o seu valor só começa quando o leitor os abre e os lê. Além disso, seria absurdo pensar que o livro seja muito mais do que um simples livro. Este exige o leitor e é esta relação de cumplicidade que o vai tornar ilimitado, remetendo para uma infinita possibilidade quer de leituras, quer de novas ideias. A minha leitura de uma obra literária não é certamente igual à de qualquer outro leitor, uma vez que a cultura, as vivências e experiências de cada um modificam o nosso modo de ler o mundo. Por conseguinte, um livro é assumidamente um projecto inacabado que é essencialmente produção e nuca um produto.
O homem e os livros mantêm desde há muito uma relação de cumplicidade ou mesmo de necessidade. Porém, nesta era das novas tecnologias, talvez seja altura de questionar se ainda são companheiros inseparáveis e se para o homem actual é inimaginável viver sem livros! Para mim, o livro continua a ser uma espécie de respiração do espírito, da inteligência, da criatividade e mantém-se como representação da memória do nosso passado e condição de preservação da nossa cultura e desenvolvimento.
Diz-se que todo o homem tem como desejo íntimo escrever um livro ou realizar uma obra de arte e convenhamos que “não há arte sem homem, mas talvez não haja homem sem arte”, como afirmou René Huyghe. Isto poderá significar duas coisas: o seu desejo de imortalidade através da realização da sua obra e a procura da felicidade como desejo natural do ser humano.

“Ser feliz é reconhecer-se a si na obra feita.” – Hegel

Professor Jorge Marques

quinta-feira, 1 de abril de 2010

JORGE LUÍS BORGES ii


Dois clássicos da literatura policial e fantástica

Jorge Luís Borges está presente na Biblioteca da Escola através de dois títulos fundamentais da sua obra: Ficções e O Aleph. O primeiro, cuja primeira edição remonta a 1944, é composto por dois livros, inicialmente publicados em separado: O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam e Artifícios, cada um deles constituídos por pouco mais de meia dúzia de contos de temática policial ou fantástica. Alguns destes contos, pela sua originalidade e pela estranheza e inquietude que provocam no leitor, ganharam uma área quase mítica na comunidade imensa dos seus leitores e basta pronunciarmos o seu título para mergulharmos desde logo no seu universo. Por exemplo, Pierre Ménard, autor do Quixote fala-nos do trabalho literário realizado por um escritor francês (fictício), do início do século XX, justamente chamado Pierre Ménard, que resolveu reescrever o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, sem alterar nenhuma palavra, nenhuma vírgula do original. Os parágrafos são exactamente iguais mas, e este mas é importante, não se trata de uma cópia: Pierre Ménard escreve ao seu estilo (para o qual trabalhou imenso, produzindo muitos rascunhos), embora o resultado esteja exactamente o mesmo de Cervantes. Nisto reside a perplexidade da questão: cotejamos o texto de ambos e somos levados a crer que, sendo iguais, são completamente diferentes, porque são de autores diferentes, sem que um (Ménard) tenha copiado o outro (Cervantes). Outro conto emblemático e curioso, com que começa o livro, é Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. É uma nota sobre um livro imaginário. Começa com a história acerca de um artigo enciclopédico sobre um enigmático país chamado Uqbar que aparece numa edição de uma determinada enciclopédia e que depois não volta a aparecer em mais nenhum livro. Seguindo a pista dessa edição chega-se à indicação sobre Orbis Tertius, uma conspiração para criar o mundo imaginário que é Tlön. Tudo isto, sendo pura ficção, adquire contornos de uma realidade incrível e ao mesmo tempo plenamente plausível e interessante. Estes dois contos são apenas um exemplo do génio de Jorge Luís Borges. Percorrendo os restantes podemos desfrutar da mesma mestria na abordagem a temas como o infinito, os enigmas, o poder da imaginação, a realidade versus a ficção, o “eu” e o destino, as conspirações e sociedades secretas, a natureza do sonho, etc.
O Aleph é também um livro de histórias curtas, com primeira edição em 1949. Inclui o conto com o mesmo nome, um dos mais conhecidos do autor. É por muitos considerada a sua obra-prima.
J.A.
BORGES, Jorge Luís, 1899-1986
Ficções / Jorge Luis Borges ;
trad. José Colaço Barreiros. - Porto : Público,, imp. 2003. -
158 p. 21 cm. - (Mil folhas ; 39). - Tit. orig.: Ficciones
ISBN 84-96075-62-1
CDU 821.134.2(82)-382
BOR FIC (EB23/SOF) – 8712

quarta-feira, 31 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES



"Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso as minhas emoções directamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem na minha emoção".
Jorge Luís Borges

Olho para esta citação e penso que eu própria a podia ter escrito. É-me tão verdadeira. Também me sinto assim quando escrevo. Quando escrevo direcciono-me para alguém. Para alguém imaginário mas que me pertence. Esse misterioso alguém conhece-me, pelo que, não preciso de lhe explicar nada. Ele sabe o que sinto e porque o sinto. Sabe a razão de cada lágrima e de cada sorriso. Sabe o que sonho e o que me preocupa. Ele é o meu outro eu que não existe. Ele sabe o que digo quando me deixo levar e ”penso não imaginando”.
Cada personagem que acho ter criado é um pedaço de mim. Cada conjunto de palavras é o meu próprio eu.
A escrita dá-nos o poder de divagarmos sobre nós. E de o fazermos sem “dizer” que o fazemos.
Todos escrevemos de acordo com o que nos corre na alma. Ela é o rio que comanda as sensações. E como os rios vai sempre em direcção ao mar. E, por isso, as sensações que são as gotículas de água, também irão sempre na sua direcção. Mas, umas seguem pelo caudal principal. Outras, por vezes, distraem-se e entram em ribeiros, riachos e contrariam a corrente por momentos. E mesmo que sejam a “super gota”, acabam sempre por lá chegar. No mar estará o meu outro eu à sua espera. E quando me distraio, ele apanha-as e, surpreendentemente, mostra-me o que encontrou e exclama: ”Aqui está a gotícula desse teu sorriso. Ela foi mais forte que a gotícula da lágrima! Pensa nela e em mim! Pensa nos dois. E sorri. Porque eu, o teu outro eu, sabe que neste momento apenas queres sorrir!”.

Maria João Foz

terça-feira, 30 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS iii


«Como o outro, este jogo é infinito.»
Cito como inter-título um enigmático verso de Jorge Luís Borges, o último do seu poema “Xadrez”, de que gosto especialmente (mesmo sem saber de que «outro» jogo nos fala o poeta), para dar conta das minhas escolhas na quase infinitude do trabalho literário borgiano. Naturalmente, neste universo labiríntico de erudição imaginária, de ficção lúdica, sobressaem dois títulos significativos das intenções literárias do seu autor na década em que a cegueira progressiva lhe dava a vida em sombras: com Ficções/Ficciones (1944) e O Aleph/El Aleph (1949) Borges consolida-se agora como “grande narrador” em detrimento da voz lírica das suas obras de juventude.
O primeiro inclui duas colectâneas de contos “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam” (1941) e “Artifícios” (1944). Não é fácil medir o grau exacto de estranheza produzida no leitor por estas “narrativas”, quase carentes de intriga e personagens. São situações envolventes, às vezes, perturbantes, saídas da pena de um filósofo-poeta de sensibilidade e inteligência superiores, cuja voz narrativa ela própria se bifurca para nos deixar em vaivém entre o ensaio e o conto. Imaginação e espírito crítico, fantasia e ciência, ficção e realidade parecem ser nestes contos uma só e única coisa.: fragmentos densos de uma reflexão aguda sobre o mundo e as obras do espírito. Ou não fosse em Ficções que “lemos” na mítica biblioteca de Babel, uma biblioteca infinita alinhando todos os livros “possíveis”, em resposta ao humano desejo de encontrar “o livro dos livros”, aquele que nas suas páginas teria a resposta a todos os mistérios da condição humana.
Em Ficções, destaque ainda para «O Sul», último conto da colectânea e o favorito de J. L. Borges, cuja inspiração autobiográfica o autor assume. Aí, na personagem de um leitor fervoroso, se retomam, no espelho da literatura, as vicissitudes que lhe marcaram o destino e a obra: um acidente estúpido, febre e alucinações, uma clínica, uma operação à cabeça e, claro, a nostalgia – tão ou mais íntima do que geográfica - de um bairro do sul de Buenos Aires.
Poucos anos volvidos, esta via apaixonada do conto fantástico será prosseguida e consolidada por Borges com O Aleph, nova recolha de novelas que lhe dará celebridade internacional e a que Jorge Luís Borges se referiu como «este livro […] susceptível de repetições, de versões e de perversões quase inesgotáveis». Histórias insólitas de personagens estranhas, semi-monstruosas, em estado de solidão, contadas num estilo próprio, quase a tocar o romance policial, nutrem-se, em última análise, de metafísica e de teologia. Os temas heteróclitos de sempre na literatura borgiana: o tempo, o eu, o outro, o sonho, o infinito, os labirintos que se erguem dentro de cada homem e os caminhos que se bifurcam. Recordo “O Imortal”, o primeiro conto de O Aleph que pode ler-se como uma biografia do pensamento e da existência humana tão dolorosa como exaltante. Já do último texto, o que dá título à obra, onde se sente o amor como motivo, disse Borges ser este «uma vaga paródia de Dante».
Excelente complemento da colectânea precedente, este novo volume de contos, literariamente mais maduro, segundo os especialistas, surge-me, de leitura ainda menos fácil, até porque, num exercício de subtil arquitectura narrativa, os contos parecem ser ecos sucessivos uns dos outros, como se Borges os tivesse (re)escrito em busca do conto perfeito, ou melhor, de um poema perfeito, já que, afinal, era como poeta que queria ser recordado.
Por último, O Fazedor/El Hacedor (1960). Livro caleidoscópico - miscelânea de narrativas breves, parábolas, poemas líricos, contos, ensaios, e meditações sugeridas - cujas páginas lembram notas apressadas, propícias ao ditado e/ou à memorização. Como sempre, textos curtos, concisos, de grande densidade e força inventiva, admiravelmente bem escritos e, assim, capazes de darem corpo aos sonhos e/ou de se ramificarem na imaginação de quem os lê. E não sendo o amor, decerto, um traço nuclear da prosa de Borges, aqui o encontramos em verso ou em prosa poética, nem que seja na arte alusiva da passageira recordação de uma paixão antiga.
E de novo a autobiografia. Na verdade, num traçado aparentemente aleatório, facilmente pressentimos os passos e a imagem do poeta no sentido grego da palavra -«aquele que faz» e mesmo aos costumeiros contos fantásticos não faltam laivos de realidade como se cada “peça” que compõe esta obra-plural tivesse nascido de uma verdadeira necessidade interior de o criador/”fazedor” se descobrir uno no seu labirinto. Ora, desta centralidade de O Fazedor no seu universo literário e vivencial nos dá conta o próprio Jorge Luís Borges, defendendo no epílogo da obra: «de quantos livros publiquei, creio que nenhum é tão pessoal como esta desordenada, indisciplinada colectânea, precisamente porque fértil em imagens e interpolações».
De facto, há vários textos e poemas em que o homem Borges se presentifica, como quando, com extraordinária tonalidade descritiva, nos fala da cegueira da personagem Heitor, no conto «O Fazedor», e, no «Poema dos Dons», se lhe refere poeticamente escrevendo: Ninguém rebaixe à lágrima ou à censura/ Esta declaração da maestria/De Deus, que com magnífica ironia / Me deu os livros e a noite escura.
Último destaque para o Borges admirador da literatura e história portuguesas. Em O Fazedor há um poema dedicado a Camões e à sua «Eneida Lusitana» e outro, «Os Borges», onde o escritor confessa, por interposta pessoa da voz poética que nele fala: «Bem pouco ou nada sei de meus maiores/ Portugueses, os Borges: vaga gente/Que prossegue em minha carne obscuramente, seus hábitos rigores e temores.»
Não sendo um dos livros mais conhecidos de Borges, O Fazedor é a minha sugestão de leitura para os - como eu - iniciantes no estilo tão surpreendente e irónico como subtil e erudito, mas nunca acidental, de Jorge Luís Borges.
Jorge Luís Borges: literatura; prosa e poesia; um “homem de Letras”; uma escrita única, com “carácter”, inusual - pela simplicidade extrema, pelo insólito de uma quase “secura”estilística em paradoxal osmose com uma notabilíssima erudição - que, mesmo assim ou talvez por isso mesmo, opõe ao leitor dificuldades singulares.
Por mim, gosto definitivamente muito de versos como estes do poema “Ariosto e os Árabes”: «Ninguém pode escrever um livro. Para/Que um livro seja verdadeiramente/Requerem-se a aurora e o poente/Séculos, armas e o mar que une e separa.» São lindos e bem o exemplo de que, pela sua serenidade melancólica, pelo tom grave, quase “ingénuo” e sem ostentação, mas pleno de “filosofia”, a poesia de J. L. Borges, no seu conjunto, será um extraordinário e alucinante inventário de nós mesmos.
Quanto às suas “ficções”, pelo seu ineditismo, intertextualidade, carácter plurissignificante e actualidade inquestionáveis, merecem que haja sempre quem as leia e nelas procure as “chaves” da sua escrita desafiante, porque, afinal, como escreveu João Palma-Ferreira, um dos seus tradutores em Portugal, «Borges (…) leva tempo a amadurecer e ainda muito mais a admirar»!

Profesora Dulce Martinho

segunda-feira, 29 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS ii



«Sempre imaginei o paraíso sob a forma de uma biblioteca» declarou Borges numa conferência de 1978, dedicada espantosamente à cegueira – a sua e a de valores tão duradouros da literatura como Homero, Milton, James Joyce. Curiosa afirmação para um escritor obrigado a ditar os seus textos e que à cegueira dedicou textos admiráveis, considerando-a esse «lento crepúsculo» que durou cerca de meio século e «o resultado de um destino» intensamente assumido e com valor significante no seu universo literário.
Muitas outras páginas e conferências preciosas consagraram Jorge Luís Borges a um tema que lhe era verdadeiramente consubstancial: o culto do livro, sem o qual dizia não imaginar a vida e, para si, «não menos íntimo do que as mãos ou os olhos». Ao livro, classifica-o como «extensão da memória e da imaginação», acontecimento estético carregado de passado, lugar e objecto de felicidade.
Leitor ávido, nascido e criado em casas onde havia vastíssimas bibliotecas, viveu profissional e academicamente rodeado de livros que continuou a adquirir, coleccionar e amar mesmo quando já cego. À sua relação com os livros, as enciclopédias, os escritores e as bibliotecas voltou Borges literariamente inúmeras vezes. A título de exemplo, lembro duas conferências - “O Livro” e “Cegueira” – e os celebrados contos “A Biblioteca de Babel” e “Pierre Ménard, autor do Quixote”, onde espelhos disseminados pelas salas duplicam estantes labirínticas e a reescrita de textos consagrados, elevada à condição de sistema de escrita, metaforicamente cria o dédalo que é, de novo, o livro.
O «homem-livro ou antes o homem-biblioteca», como lhe chamou o autor francês Jean Pierre Bernés parece, assim, querer dar-nos com esta veneração literária pelo labirinto/biblioteca a imagem do cosmos, da vida em-si ou, diz-nos Eduardo Prado Coelho, para Borges a biblioteca - espécie de representação mítica do conjunto da sua obra - «tornar-se-á igualmente o símbolo do infinito da própria literatura, onde todas as palavras são convocadas para dizerem aquilo que escapa a todo o dizer».

Professora Dulce Martinho

domingo, 28 de março de 2010

JORGE LUÍS BORGES - NO LABIRINTO DAS PALAVRAS



« (…) o texto é um campo aberto onde cada leitor deposita as suas esperanças, os seus desejos, a sua cultura. A obra só vive quando sobre ela se depositam os olhos do leitor.»
Jorge Luís Borges (1980)

« (…)[Borges] não se limitou a produzir e a estudar literatura, mas acabou por fazer de si mesmo e dos seus textos o próprio espaço da literatura. E levou tão longe este processo que no conjunto da sua obra temos dificuldade em separar o que é do domínio da ficção, do domínio da poesia e do domínio do ensaio»
E. Prado Coelho (2001)

Afinal, há coincidências! Desafiada, dias antes, para escrever para a Katársis um texto em torno da figura literária de Jorge Luís Borges - um dos grandes criadores do século XX de cuja obra conhecia quase nada - o acaso das minhas leituras de fim-de-semana trouxe-me duas vezes o, considerado por muitos, maior escritor argentino.
Primeiro, foi uma curta citação que reproduzo: «Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar, escreve uma carta. Um romance é para contar uma história»; depois, surpreendentemente, num artigo sobre música, retomavam-se reflexões borgianas sobre autoria e interpretação da obra da arte na sua relação com os contextos de produção e de leitura. Pelo caminho, era lembrada a sua personalidade enigmática e fascinante e referidos dois dos seus contos mais famosos: “Pierre Ménard, autor do Quixote” e “A Biblioteca de Babel”.
Então, ainda mais consciente da gravidade da minha ignorância, decidi que importava, antes de mais, ler de e sobre quem assim era citado e reconhecido como um autor de primeiro plano em todo o mundo. Do muito que aprendi, partilho, agora, convosco algumas notas bio bibliográficas.

O escritor que gostava de livros e de bibliotecas
Bisneto de marinheiro português e cidadão do mundo, autor de língua espanhola (ou quase bilingue, pois foi igualmente educado em língua inglesa) detentor de cultura universal, poliglota, Jorge Luís Borges, algumas vezes apontado como literariamente próximo de Pessoa, foi poeta, contista, ficcionista, crítico literário, ensaísta, professor de literatura, conferencista… e assinou obra de difícil classificação, constituída por largas dezenas de títulos dispersos pelos géneros poético, “fantástico”, policial e do ensaio filosófico.
Nascido em Buenos Aires em 1899, aí cresceu rodeado de livros na casa do avô paterno; educado depois por anos de Europa (Suíça e Espanha), para onde vêm em 1914, Jorge Luís Borges cultivará livremente fortes raízes culturais e familiares anglo-saxónicas, mas regressará ao país natal e à cidade da sua infância em 1923, para aí fundar revistas e publicar o seu livro de juventude Fervor de Buenos Aires em mágicos poemas de verso livre.
Sempre participando activamente na vida cultural do seu país, tornar-se-á director da Biblioteca Nacional da Argentina entre 1955 e 1973. Só o avanço da cegueira de que padecia desde 1938, hereditária, mas agravada na sequência de um acidente doméstico, o impedirá de continuar nesta profissão. Na última década da vida, viajará pelo mundo – incluindo Portugal - dando cursos e conferências que o vieram a revelar igualmente como um grande criador de literatura oral.
Morrerá em Genebra em 1986, depois de ter recebido vários prémios literários internacionais, mas nunca o Nobel da Literatura. Assim ficará na história das letras mundiais como “ o escritor que falhou o Nobel”.
Do conjunto da sua obra constam títulos famosos, que se inscrevem já nos clássicos na literatura contemporânea, como Discussão, História Universal da Infâmia, O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, História da Eternidade, O Aleph, O Autor e Outros Textos, História da Eternidade, Ficções, Labirintos, Inquirições, Outras Inquirições, O Fazedor, O Livro de Areia, Atlas (1985) - a sua última obra publicada - que inclui poemas, impressões de viagens, notas e meditações sobre sonhos. Da sua obra poética destaque ainda para O Ouro dos Tigres, A Rosa Profunda e História da Noite.
Foi no espaço labiríntico destas páginas reveladoras de uma imensa cultura literária - preferentemente orientada para temas ligados às literaturas inglesa, greco-latina e oriental - que fui folheando, ensaiando leituras avulsas, em prosa ou em verso, autorizada pelo gosto do próprio Borges que dizia apreciar particularmente os livros que podem ser abertos em qualquer página sem decepção de maior.
Registo uma primeira e, para mim, curiosa conclusão: afinal, J. L. Borges nunca escreveu um romance enquadrável no grande género literário “filho” do século XIX e terá até afirmado: «No transcurso de uma vida consagrada principalmente à literatura, li poucos romances e, na maioria dos casos, só cheguei à última página pelo senso do dever. A sensação de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são praticamente amorfos serviu para reforçar o meu gosto pelo formato do conto».
De facto, Borges é lembrado internacionalmente como um dos grandes criadores do conto moderno, reconhecido, sobretudo, pelos seus textos curtos que desenvolvem magistralmente todo um universo ficcional e poético de alucinação, sonhos, figuras literárias revisitadas, máscaras, espelhos e seus múltiplos reflexos, títulos surpreendentes e oníricos – sem ignorar o encanto mágico de Buenos Aires, juntamente com pampas, milongas e tangos - numa espécie de labirinto que, sem metáfora, é o próprio texto.
Estas são as “ficções” borgianas, histórias concisas de especulação fantástica que frequentemente surgem “mascaradas” de ensaio sobre temas eruditos ou tomam a forma de contos de aventuras ou policiais. Afinal, diferentes caminhos percorrendo o labirinto da natureza humana e dos seus esforços para chegar ao conhecimento completo e ordenado. Tentativas que podem falhar, mas nunca deixar desvanecer as crenças comuns, e revelam a paradoxal natureza do tempo, da linguagem e do pensamento, temáticas eternas do penetrante trabalho literário de Borges.
Jorge Luís Borges afirmava pouco conhecer da sua ascendência portuguesa, mas evoca muita vezes o avô, o coronel Francisco Borges, nos seus poemas. Cf, entre outros, «Os Borges», in O Fazedor, Lisboa, Difel, p.99.
Sendo certo que a sua obra em múltiplos aspectos se cruza e radicalmente se diferencia com/da de Fernando Pessoa, a verdade é que Jorge Luís Borges, em 1980, em entrevista a António Mega Ferreira, afirmava nunca ter lido Pessoa.

Professora Dulce Martinho

sexta-feira, 26 de março de 2010

OS SOLITÁRIOS


Os Solitários (Noite de Verão)
(Retirado do Friso Reinhardt), 1906/07
Têmpera sobre tela
Museu Folkwang, Essen

« Na realidade, a minha arte é uma confissão feita de minha própria e livre vontade, uma tentativa de tornar clara a minha própria noção de Vida... no fundo é uma espécie de egoísmo, mas eu não desistirei de ter esperança de que com a sua intervenção eu possa ser capaz de ajudar outros a atingirem a sua própria clareza.»

Eduard Munch

quinta-feira, 25 de março de 2010

ZERO NEGATIVO




Tinha os cabelos ruivos, ruivos
a ameaçar meios pregos e a pele clara de neve
por reciclar. Chegava com o meigo cansado sono
de fazer estragos e já mal os conhecia
como antes o não conhecer
feroz nada dizia. Sentava-se
e procurava um homem só
vulnerável. Depois cingia o ar de guerra
nas escadas, o álcool por estourar ou só as latas
já invólucros, já cartuchos, a cor dos couros.
Pouco aos dias sobrevive.
Há as tardes e as noites e as manhãs
sem custo se perderam. A mesma névoa produzida
das cidades, teima o mesmo rio a vocação
do zinco, ferindo o lodo em sossego,
as mesmas luzes a abater
sinais de território.
Por vezes descobria os braços. Não raro procurando
calhas, vagas subterrâneas, túneis principais
a interceptar. Até à derrocada.

J. A.

terça-feira, 23 de março de 2010

BARAKA


Filme “Baraka”
No nosso quotidiano por vezes não temos tempo para pensar na vida ou em questões acerca dela, mas em determinadas circunstâncias elas surgem, tais como no casamento, na morte, etc. …e são nessas alturas que procuramos respostas mais concretas que respondam às nossas dúvidas interiores. Quando a nossa cultura não nos responde, procura-se a resposta noutras. Cada cultura tem um modo particular de encarar questões muito humanas, como por exemplo, “o que acontece após a morte?”; “qual é a finalidade da nossa existência?” e cada uma responde à sua maneira. Uns encarnam uma só vez e quando morrem o espírito parte e nunca mais regressa à Terra, o luto é de negro e a tristeza é a marca, noutros é a alegria, pois acreditam que quando o corpo morre, a alma encontra finalmente a verdadeira felicidade.
Todas as religiões têm como finalidade dar uma razão de viver, uma razão de praticar o bem e sobretudo garantir que depois da morte haverá uma felicidade plena.
Nós, humanos, vivemos quase sempre como se fossemos imortais mas, quando a velhice “aperta”, qualquer esperança é útil.

Jacinta Ferreira – EFA - Arc. Maias

domingo, 21 de março de 2010

O LIVRO É UMA EXTENSÃO DA MEMÓRIA E DA IMAGINAÇÃO



O livro tal como disse Jorge Luís Borges é um prolongamento da memória e da imaginação numa aplicação concreta, o livro. Podemos afirmar isso pois sabemos que um autor não consegue ser totalmente imparcial ao escrever um livro. É na parte subjectiva do escritor que entra a memória e a imaginação do mesmo.
A memória pode ser associada às vivências do autor que interferem na maneira como escreve, o assunto ao qual dedica as suas palavras, e a maneira como encara esse tema.
A imaginação é o complemento de tudo o resto é como se fosse o tempero. É a imaginação que vai provocar ao leitor uma mistura de sensações e emoções que diferem e que vão ser cruciais para se gostar ou não do livro.
Existem, contudo, livros que aplicam só uma destas partes. Existem livros que têm só conteúdo cultural e por isso aplicam só a memória e outros como os infantis que algumas vezes aplicam só a imaginação. Mas isto tem uma explicação. Os livros culturais aplicam só a memória porque servem para trabalhos que têm de ser encarados o mais seriamente possível. Os de Histórias são para crianças e daí o conhecimento do mundo quotidiano ainda não ter grande interesse em ser aí aplicado.

Raquel Rei, 12ºB

sexta-feira, 19 de março de 2010

O SOM DO CORAÇÃO



O som do coração

Uma envolvente noite em Nova Iorque marca o amor profundo e intenso vivido por um jovem guitarrista irlandês (Louis Connely) e por uma jovem violoncelista (Lyla Russel). Desta relação nasceu Evan Taylor, mais tarde apelidado de August Rush, com um dom apurado para a música.
A força das circunstâncias separou o filho dos pais e separou também os pais.
O filho tornado órfão cresce com características peculiares que denunciam o seu talento.
A consciência da existência dos progenitores é notável pela rejeição à adopção. Saído do orfanato, em busca de um destino com identidade, associa-se a um desconhecido que faz uso da sua capacidade artística para obter lucro. Contudo, unidos fatalmente pelo sentimento e pela música a vida desta família é virada para o som que lhes vem do coração.
A música em primeiro lugar na classificação das suas prioridades viria a ser responsável pelos seus percursos inseparáveis. A história, com um desfecho colorido, desperta-nos para o verdadeiro sabor da vida, quando os sentimentos reprimem os embaraços mais complicados. Tem ainda a vantagem de nos fazer interessar por momentos simples vividos através dos sentidos. Não é indiferente o sorriso esboçado por August Rush ao ouvir os sons da rua, ao sentir a energia humana.
O filme com esta criança genuína, no papel principal, é um precioso complemento que nos ensina que o sucesso pessoal e profissional é proveniente da paixão que expressamos. A ascensão acaba por acontecer quando sentimos com alma, por isso e por mais razões, não deixemos de escutar…

Marisa Borges, 12ºA

quinta-feira, 18 de março de 2010

SOU


Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.

Jorge Luís Borges, in " A Rosa Profunda"

quarta-feira, 17 de março de 2010

ENIGMAS DA EXISTÊNCIA


«Uma introdução à metafísica acessível, competente e apaixonante, escrita por dois filósofos de primeira linha.»The Times

O que é o tempo? Serei realmente livre ao agir? O que faz de mim a mesma pessoa que era em criança? Porque há algo em vez de nada? Será que sou realmente livre, ou tudo está determinado desde antes do meu nascimento? Se alguma vez deu consigo a fazer algumas destas perguntas, este livro é para si. Tratando ainda da existência de Deus e da constituição última da realidade, eis um guia para quem gosta de raciocinar cuidadosamente sobre estes e outros temas — incluindo o problema de saber o que é afinal a própria metafísica. Enigmas da Existência torna a metafísica genuinamente acessível e até divertida. O seu estilo vívido e informal dá fulgor aos enigmas e mostra como pode ser estimulante pensar sobre eles. Não se exige qualquer formação filosófica prévia para desfrutar deste livro: qualquer pessoa que queira pensar sobre as questões mais profundas da vida considerará esta obra um livro provocador e aprazível.

Título: Enigmas da Existência
Subtítulo: Uma Visita Guiada à Metafísica
Autor: Earl Conee e Theodore Sider
Colecção: Filosoficamente,
Preço: Euros 13,33 / 14,00
Págs.: 272
Filosofia
Editora: Bizâncio
(Disponível nas livrarias a partir do dia 22 de Março)

NO LABIRINTO DAS PALAVRAS


Professora Dulce Martinho

KATÁRSIS II



A revista katársis II é um projecto do grupo de Filosofia da Escola EB23/Secundária de Oliveira de Frades. Já vai no terceiro ano e consiste na divulgação de textos, poemas e coisas afins... dos alunos e professores. Na segunda revista deste ano destacam-se os textos reflexivos sobre diversos temas e poesia. O autor em destaque é Jorge Luís Borges, cuja obra não será do conhecimento de leitores menos atentos.
Nos próximos dias irei divulgar alguns textos dos alunos e excertos de uma análise apresentada pela professora Dulce Martinho, àcerca de Borges. A Revista assume-se como um espaço de partilha, tendo participações cada vez mais frequentes de professores.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O MEDO


" Despertei na frescura da madrugada, enquanto os meus pés procuravam a roupa da cama, sacudida para trás quando a noite tropical atingiu um calor mais viscoso. La fora, ouviam-se as vozes de África, cantando ao som dos tambores e provenientes não se sabe de onde; os meus olhos estavam ofuscados pelo mosquiteiro e tudo o que conseguia ver à minha volta era sombras informes. Lenta e cautelosamente, de forma a não irritar os mosquitos, tacteei o lençol enrolado em bola junto aos meus joelhos. Cheirou-me mal, a suor e a repelente de insectos, quando o puxei para os ombros. Não procurava calor, procurava protecção. Lá fora, era o Congo e eu estava apavorado."

Rio de Sangue, Tim Butcher, Bertrand Editora, 2009

O medo é uma das emoções universais. Darwin considera que as emoções desempenharam um papel adaptativo fundamental na história da espécie humana, sendo determinantes na nossa capacidade de sobrevivência.

domingo, 14 de março de 2010

PEPSI OU COCA -COLA?


O investigador norte-americano Read Montague decidiu esclarecer uma questão que lhe suscitava perplexidade: nos anos 70 e 80 a Pepsi mostrava nos seus anúncios que as pessoas quando tinham de escolher, entre várias colas, a que tinha melhor sabor, optavam sempre pela Pepsi; contudo, era a Coca- Cola que liderava o mercado.
Em 2003, fez uma experiência para esclarecer o que se passava: com 67 voluntários fez o teste das colas, dando a provar amostras de Pepsi e de Coca -Cola sem identificação. Quando interrogados sobre qual tinha melhor sabor, a resposta foi clara: os copos que continham Pepsi. Tudo se alterou quando lhes foi mostrado os rótulos: a Coca -Cola passou a ser a preferida.
O investigador recorreu a um aparelho de ressonância magnética, que mostra o fluxo de sangue para as diferentes áreas do cérebro: assistiu, deste modo, ao que se passava no interior do cérebro dos voluntários. Quando não sabiam o que estavam a beber, eram estimuladas as zonas da mente associadas ao prazer; as áreas com funções racionais decidiam a preferência quando eram conhecidos os rótulos. Isto queria dizer que a campanha da Coca-Cola tinha conseguido influenciar as preferências dos voluntários de um modo de que nem eles próprios tinham consciência.

Livro do Aluno, Psicologia B, 12ºAno - Ser Humano